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Quem se sente inchado à noite costuma comer depressa demais.

Pessoa à mesa com prato vazio, salada, copo d'água e ampulheta ao lado. Telefone sobre a mesa.

Apressado para o jantar, um garfo a raspar o prato depressa demais, um telemóvel a acender ao lado do copo, uma conversa a meio. Depois, uma hora mais tarde, instala-se no ventre aquela sensação pesada e inchada. O cós das calças parece mais apertado, o sofá menos confortável, e o corpo um pouco estranho.

Dizes a ti próprio que foi a massa. Ou o pão. Ou talvez aquela fatia de queijo. Começas a pesquisar “alimentos que provocam inchaço” enquanto massajas a barriga sem dares conta. O estranho é: o pequeno-almoço correu bem, o almoço estava ok. São as noites que te apanham. Quase todas as noites.

E se a forma como comes importasse mais do que o que está no prato?

Porque é que a tua barriga à noite parece um balão

Imagina uma noite de semana: entras em casa, largas a mala, abres o frigorífico, e o jantar vira uma corrida contra o relógio. Estás esfomeado, cansado, ainda com a cabeça no trabalho. O garfo vai do prato à boca em piloto automático. Engoles antes sequer de saboreares.

O teu cérebro mal tem tempo de acompanhar o estômago. A refeição que devia durar vinte minutos desaparece em oito. Levantas-te depressa demais, arrumas a mesa à pressa, e depois cais no sofá com uma sensação apertada, esticada, debaixo das costelas. Não é só “estar cheio”. É pressão. Ar. Um desconforto vago que te faz desapertar as calças.

Esse inchaço lento e sorrateiro muitas vezes começa com um hábito simples: a velocidade.

Nas redes sociais, toda a gente culpa o glúten, os lacticínios ou “toxinas”. É mais dramático do que dizer “como como se estivesse atrasado para o comboio”. Ainda assim, um número crescente de гастроентерologistas conta a mesma história: grande parte do inchaço ao fim do dia tem menos a ver com intolerâncias e mais com a rapidez com que comemos.

No Reino Unido, inquéritos mostram que, em muitas casas, o jantar de dia de semana dura menos de 15 minutos. Isso mal dá tempo para o estômago “perceber” o que está a acontecer. Uma nutricionista em Londres contou-me que vê jovens profissionais que mastigam cada garfada quatro ou cinco vezes, no máximo. Depois perguntam-se porque é que às 21h se sentem como um balão.

Na prática, imagina um “comilão rápido” típico. Termina um prato cheio de massa em dez minutos, engole com grandes golfadas de ar, bebe refrigerantes com gás entre garfadas, fala enquanto mastiga. Duas horas depois, está deitado na cama a sentir-se como um tambor. Parece básico. Mas esta é a realidade diária de muita gente que acredita ter “um intestino sensível”.

Do ponto de vista fisiológico, comer depressa é como enfiar comida numa linha de produção regulada para o modo lento. A boca não tritura bem os alimentos. O estômago recebe pedaços grandes que exigem mais trabalho, mais ácido, mais tempo. O ar que engoles não tem para onde ir senão para dentro, empurrando e distendendo o tubo digestivo.

As bactérias intestinais também têm uma palavra a dizer. Quando chega ao intestino comida mal mastigada, elas fazem uma festa de fermentação. A produção de gases aumenta. A pressão acumula-se. Sentes isso como aquele inchaço ao fim do dia que não bate certo com o que comeste. O teu corpo não está só a reagir à comida: está a reagir ao ritmo.

Como abrandar sem transformar o jantar num retiro de bem-estar

A ideia de “comer com atenção plena” soa linda no papel e impossível às 20h depois de um dia cheio. Por isso, vamos simplificar. Um gesto simples e concreto: pousa os talheres entre garfadas. Literalmente, deixa o garfo no prato. Respira uma vez. Depois pega nele de novo.

Esta pausa minúscula obriga o cérebro a voltar ao momento. Dá tempo à boca para acabar o trabalho e ao estômago uma breve oportunidade de suspirar de alívio. Começa só com os primeiros cinco minutos da refeição. Mastiga, garfo no prato, engole, pausa curta. Ao início vai parecer estranho, como falar devagar ao microfone. Depois, o teu corpo começa a gostar.

Ao longo de uma semana, essas pequenas pausas podem ser suficientes para reduzir a velocidade em um terço. E a digestão agradece-te discretamente mais tarde, à noite.

A um nível mais prático, o ambiente conta. Comer em frente a um ecrã transforma muitas vezes o jantar numa actividade de fundo, e a mão não para de levar comida à boca. Dás por ti e o prato desapareceu. Experimenta um teste de baixo stress: durante três noites seguidas, deixa o telemóvel noutra divisão enquanto comes. Sem mudanças dramáticas de vida - apenas um cenário diferente durante vinte minutos.

Algumas pessoas também sentem que usar um garfo ou uma colher mais pequenos as abranda naturalmente. Outras começam a refeição com uma sopa ou uma pequena salada, porque alimentos mais leves e macios são mais fáceis de mastigar devagar. E sim, aquele conselho antigo de “mastigar mais” ainda anda por aí, mas sejamos honestos: ninguém vai contar até 30 mastigações por garfada todas as noites.

Sejamos honestos: ninguém faz isso todos os dias.

A verdadeira armadilha é a culpa. Comes depressa porque tens fome e estás cansado, e depois culpas-te porque ficas inchado. Essa auto-crítica tensiona o corpo todo e pode fazer o desconforto parecer ainda pior. Um enquadramento mais útil é a curiosidade: o que acontece se eu reservar só mais cinco minutos para o jantar esta semana?

Uma nutricionista com quem falei resumiu assim:

“As pessoas vêm ter comigo a pedir uma lista de alimentos proibidos. Metade das vezes, tudo o que faço é ensiná-las a pousar o garfo e respirar. O inchaço diminui antes sequer de mudarmos o menu.”

Para a refeição da noite, algumas “regras” suaves podem ajudar sem se tornarem uma prisão:

  • Começa a refeição com alguns goles de água sem gás, não com um grande refrigerante com gás.
  • Faz as três primeiras garfadas mais devagar do que o habitual, mesmo que depois acelere.
  • Pára de comer quando te sentires “confortavelmente saciado”, não quando o prato estiver impecável.
  • Mantém-te sentado pelo menos dez minutos após a última garfada, caminhando devagar se for preciso.
  • Presta atenção aos alimentos que, para ti, formam muitos gases à noite - não necessariamente durante todo o dia.

A tua barriga está a falar. A noite é apenas quando finalmente a ouves.

Há algo de simbólico no fim do dia. O dia termina, o ruído baixa um pouco, e o corpo de repente entra em primeiro plano. Esse inchaço, esse cós apertado, essa necessidade de te deitares depois do jantar - muitas vezes é o teu intestino a mostrar-te o ritmo que impuseste o dia todo. O prato das 20h é apenas o lugar onde a história se torna visível.

Uma pequena mudança não vai apagar magicamente todos os problemas digestivos e, sim, algumas pessoas têm intolerâncias reais ou condições subjacentes que exigem cuidados médicos. Mas, para um número surpreendente de leitores, a primeira alavanca não é cortar grupos alimentares inteiros. É reduzir velocidade, ruído e distracção na última refeição do dia.

Todos já tivemos aquele momento em que um jantar longo e tranquilo com amigos “assentou melhor” do que um prato de sobras, sozinho e a correr. As mesmas calorias, outro ritmo. O teu intestino lembra-se do ritmo. Reage à pressão, à tensão, à forma como manténs os ombros encostados às orelhas enquanto comes.

Talvez a experiência real não seja comer “perfeitamente”, mas comer como alguém para quem a noite importa. Sem ir petiscando pelo caminho. Sem engolir o stress do dia com a comida. Só um pouco mais de espaço à volta da refeição. Um pouco mais de tempo entre garfadas.

É aí que muita gente repara: uma noite, quase por acaso, come um pouco mais devagar. Uma hora depois, apercebe-se de que falta qualquer coisa. O inchaço não apareceu.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Velocidade da refeição Comer em menos de 15 minutos aumenta o risco de inchaço Perceber que o ritmo conta tanto como o conteúdo do prato
Mastigação Garfadas pouco mastigadas sobrecarregam o estômago e favorecem a fermentação Reduzir dores e a sensação de ventre inchado ao fim do dia
Rituais à noite Pequenos gestos concretos: pousar o garfo, cortar ecrãs, ficar sentado após a refeição Ter acções simples para testar já hoje, sem dietas extremas

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Porque é que só me sinto inchado à noite e não depois do pequeno-almoço ou do almoço? As refeições da noite costumam ser maiores, comidas mais depressa e com mais stress. Além disso, o teu sistema digestivo já está a lidar com tudo o que comeste e sentiste ao longo do dia, por isso o intestino chega mais “carregado” ao fim do dia.
  • Comer depressa pode mesmo causar gases e inchaço por si só? Sim. Engolir ar, não mastigar o suficiente e sobrecarregar o estômago num curto espaço de tempo são factores conhecidos que desencadeiam produção de gases e aquela sensação apertada e inchada.
  • Quanto tempo deveria durar um jantar “normal” para evitar inchaço? Não há um número mágico, mas muitos especialistas sugerem apontar para cerca de 20 minutos. O essencial é sentires que tiveste tempo para mastigar e respirar, em vez de correres contra o relógio.
  • Preciso de cortar alimentos como massa ou pão à noite? Não necessariamente. Para muitas pessoas, abrandar e reduzir bebidas com gás ou molhos muito pesados é suficiente para aliviar o inchaço ao fim do dia sem banir alimentos de que gostam.
  • Quando devo procurar um médico por causa do inchaço? Se o inchaço vier acompanhado de dor forte, perda de peso significativa, sangue nas fezes, febre, ou se te acordar regularmente durante a noite, é sensato procurar aconselhamento médico em vez de apenas mudares a velocidade com que comes.

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