O decorador chegou com um alegre: “Então, vamos fazer microcimento em todo o lado?”, como se fosse tão óbvio como pintar as paredes de branco.
Mal teve tempo de abrir a mala de amostras quando o proprietário o interrompeu: “Na verdade… já estou farto desse aspeto a betão. O que é que tem mais?”
Em cima da mesa, as amostras de microcimento de repente pareceram cansadas. Cinzentas, muito cinzentas, vagamente industriais. Daquelas coisas que todos guardámos no Pinterest há cinco anos e achámos que nunca iam envelhecer.
Hoje, em salas, casas de banho e cozinhas, um novo material está discretamente a roubar a cena.
Sem juntas, sem eco frio, sem um estaleiro poeirento durante três semanas.
Algo mais quente está a substituir essa concha de betão ultra-minimalista.
E, quando o vemos com luz real, o microcimento começa a parecer notícia de ontem.
Porque é que o microcimento perdeu a magia nas nossas casas
Volte a percorrer as suas fotos de 2018 e provavelmente vai encontrá-lo: aquelas superfícies lisas, cinzentas, “apartamento de arquiteto”.
Na altura, microcimento era sinónimo de gosto, estatuto, a promessa de um loft em Brooklyn mesmo que vivesse num T1 de 50 m² por cima de uma padaria.
Hoje, esses mesmos pavimentos e paredes parecem muitas vezes planos, com eco, e até um pouco frios do ponto de vista emocional.
As nossas vidas mudaram.
Começámos a trabalhar na mesa da cozinha, as crianças passaram a brincar no chão, e aquele visual de betão - antes tão “chique” - começou a parecer mais um balcão de café do que uma casa.
As pessoas querem calor debaixo dos pés, suavidade visual e materiais que não gritem “showroom” cada vez que se entra.
Pergunte agora a qualquer ladrilhador ou arquiteto de interiores: o número de clientes a pedir para “tapar o microcimento” disparou.
Um empreiteiro em Paris contou-me que refez três casas de banho no mês passado em que o briefing era literalmente “chega de vibe spa de betão”.
Apareceram fissuras, surgiram manchas, e aquele mate sedoso ficou irregular sob as luzes duras da casa de banho.
Num apartamento pequeno, a proprietária confessou que começou a pôr tapetes por todo o lado, até no corredor, só para fugir ao eco e ao frio.
O microcimento, que tinha sido a estrela de uma revelação no Instagram, tinha-se tornado uma frustração diária.
Som, temperatura, manutenção - tudo somou ao mesmo veredito: ótimo para fotos, menos divertido na vida real.
O microcimento não é um mau material.
É apenas um material com limites claros que, coletivamente, tentámos esticar demasiado.
Exige preparação perfeita do suporte, aplicação perfeita, selagem perfeita e, depois, re-selagens regulares.
Sejamos honestos: ninguém faz isto religiosamente.
Junte-se a isto a nossa vontade renovada de textura e de tons naturais, e a concha fria e uniforme de betão fica desalinhada.
O design mudou de “galeria” para “habitável”.
E, nesse espaço, entrou outra superfície: mais quente, mais confortável ao pisar, mais fácil de viver e ainda suficientemente depurada para gostos contemporâneos.
Esse material é o grés porcelânico de grande formato, muitas vezes com efeito pedra ou efeito cal (limewash).
O material que está a substituir o microcimento: porcelânico de grande formato que parece suave, não frio
A nova estrela dos interiores não é um revestimento de nicho, experimental.
É grés porcelânico - mas não o azulejo pequeno e brilhante de casa de banho que talvez esteja a imaginar.
Falamos de placas XXL: 60×120, 80×80, 120×120, até 120×260 cm para paredes e duches.
Assentadas com juntas ultra-finas num tom a condizer, dão aquela sensação contínua e sem cortes que as pessoas adoravam no microcimento.
Só que com muito menos drama.
Sem fissuras, sem pó “gizento”, sem um calendário obsessivo de re-selagem.
Algumas coleções imitam estuque aplicado à talocha, paredes com pintura à cal ou pedra suave com um realismo impressionante.
Ganha textura, movimento e calor no padrão - mas com a praticidade de um revestimento cerâmico.
Veja-se uma renovação recente em Lyon.
Os proprietários queriam o “look spa”, mas tinham ouvido histórias assustadoras sobre duches em microcimento a descascar e a marcar.
O arquiteto sugeriu uma coleção porcelânica com acabamento “estuque polido”, num bege-acinzentado quente, em grande formato do chão ao teto.
Quando a obra terminou, a divisão parecia acolhedora, não industrial.
As juntas eram quase invisíveis, o pavimento tinha um toque ligeiramente acetinado, e a limpeza fazia-se em cinco minutos com uma esfregona.
Mantiveram as linhas depuradas com que sonhavam, sem terem de tratar a casa de banho como um showroom frágil.
Outro casal foi ainda mais longe e usou a mesma placa porcelânica no chão, nas paredes e na bancada da cozinha.
A continuidade ficou incrível - e as manchas de molho saíam sem deixar rasto.
O que está a mudar não é só o material; são as prioridades.
Ainda queremos esse efeito limpo, quase monolítico, mas cansámo-nos de viver dentro de um moodboard de betão.
O porcelânico de grande formato acerta nesse ponto de equilíbrio entre estética e vida quotidiana.
Tecnicamente, o argumento é forte.
O porcelânico é muito resistente a manchas, riscos e água; lida bem com aquecimento radiante; e não “trabalha” muito quando bem aplicado.
Para quem instala, é exigente por causa do tamanho, mas previsível no comportamento.
Para o proprietário, significa menos ansiedade.
Não entra em pânico se alguém deixar cair um brinquedo, entornar vinho tinto ou sair do duche com água dura nos pés.
E, quando encontra coleções em tons de areia quente, barro e brancos cremosos, o velho microcimento cinzento de repente parece um filtro de outra era.
Como passar do microcimento para a nova geração de superfícies “suaves”
Se já vive rodeado de microcimento, não precisa de arrancar tudo amanhã.
Pode fazer a transição gradualmente, divisão a divisão, começando pela que mais o irrita no dia a dia.
Para muita gente, é o chão da casa de banho.
Uma estratégia comum é manter, por agora, o microcimento nas paredes e substituir apenas o pavimento por uma peça de grande formato num tom próximo, mas mais quente.
Ganha imediatamente conforto e durabilidade onde a água e o desgaste são maiores.
Mais tarde, pode refazer as paredes do duche com a mesma gama porcelânica e criar continuidade.
Ao escolher, procure coleções descritas como “efeito cimento”, “efeito resina” ou “efeito estuque” em 80×80 ou maiores.
Peça para as ver à luz do dia, colocadas no chão, e não apenas numa placa pequena.
É aí que se percebe realmente a suavidade da cor e da textura.
Se está a começar uma renovação de raiz, pense primeiro nos gestos diários, não nas fotos bonitas.
Onde é que deixa toalhas molhadas?
Anda muito descalço?
Com que frequência entram convidados com sapatos?
Todos já passámos por aquele momento em que percebemos que o material de sonho não combina com os nossos hábitos reais.
O porcelânico não é magia - ainda é possível lascar uma aresta com um martelo -, mas perdoa o caos da vida normal melhor do que um revestimento delicado.
Evite acabamentos muito brilhantes no pavimento; acetinado ou mate dá uma sensação mais moderna e envolvente e disfarça melhor marcas e riscos leves.
E não se sinta obrigado a ficar no cinzento.
Bege, greige, areia quente e taupe claro combinam lindamente com madeira, têxteis e plantas, e envelhecem com mais elegância do que a paleta fria-industrial.
Um designer com quem falei resumiu a mudança numa única frase:
“As pessoas já não querem viver num conceito; querem viver num lugar.”
Sente-se isso nos moodboards: menos betão, mais pedra, efeitos de estuque e tons de barro.
Suavidade em todo o lado - até nas superfícies duras.
Para navegar este novo cenário sem se perder, ajuda manter uma pequena checklist em mente:
- Comece pela divisão que mais o frustra diariamente, não pela mais “instagramável”.
- Privilegie grandes formatos (mínimo 60×60) e juntas em tom a condizer para um aspeto quase contínuo.
- Escolha subtons quentes (bege, areia, barro) em vez de cinzentos azulados frios que podem parecer agressivos em casa.
- Teste amostras em casa, no chão e na parede, a diferentes horas do dia - a luz muda tudo.
- Fale com um aplicador habituado a placas XXL; o profissional certo é metade do sucesso do projeto.
A verdade simples é que o material certo é aquele de que se esquece a maior parte do tempo, porque funciona discretamente.
Um novo capítulo para os nossos interiores: do aspeto betão ao conforto discreto
Todas as tendências têm o seu momento, e o microcimento teve uma longa e poderosa fase.
Trouxe-nos o gosto por linhas minimalistas e superfícies contínuas - e isso não vai desaparecer.
O que está a mudar é a “temperatura emocional” das nossas casas.
Estamos a passar da galeria para a sala de estar, da afirmação para a suavidade.
Essas grandes placas porcelânicas que imitam pedra, estuque ou pintura à cal respondem a um desejo novo e mais calmo: espaços bonitos, mas que não parecem frágeis; sofisticados, mas não intimidantes.
Permitem manter a arquitetura limpa, baixando o volume da vibe “lobby de hotel boutique”.
Da próxima vez que entrar num apartamento recém-renovado, olhe para baixo e à sua volta.
Se as superfícies parecerem feitas para entornar café, encher uma banheira, receber dez amigos e não ficar tenso, provavelmente está a ver esta nova geração de materiais.
O microcimento não vai desaparecer de um dia para o outro, mas o seu reinado como estrela incontestável está a terminar - e o que vem a seguir parece muito mais casa.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Afastamento do microcimento | O microcimento parece frio, marca facilmente e exige muita manutenção em casas reais | Ajuda a perceber porque é que o “betão de sonho” já não se encaixa no seu dia a dia |
| Ascensão do porcelânico de grande formato | Peças XXL com efeitos de pedra ou estuque, juntas mínimas, tons quentes | Dá uma alternativa concreta e realista que mantém o visual depurado sem stress |
| Estratégia prática de renovação | Mudar primeiro zonas de maior desgaste, testar amostras em casa, trabalhar com aplicadores experientes em XXL | Permite planear uma transição suave e consciente do orçamento, afastando-se do microcimento |
FAQ:
- O microcimento está mesmo “acabado” ou ainda vale a pena considerar?
Não foi banido do bom gosto, mas é evidente que já não é a escolha automática. Se adora o aspeto, limite-o a zonas de baixo impacto e aceite as necessidades de manutenção. Para casas de banho e cozinhas, o porcelânico de grande formato costuma ganhar em durabilidade.- Posso assentar porcelânico diretamente sobre microcimento existente?
Muitas vezes, sim - se o microcimento estiver bem aderente e não estiver a desfazer-se. Um profissional vai verificar a aderência, corrigir irregularidades e usar o primário e a cola adequados. Em caso de dúvida, um levantamento técnico vale cada euro.- Que acabamentos devo escolher para pavimentos e paredes?
Para pavimentos, opte por mate ou acetinado, com uma ligeira textura para aderência em zonas húmidas. Para paredes, pode escolher acabamentos mais lisos ou ligeiramente mais refletivos, sobretudo em duches e atrás de lavatórios.- O porcelânico de grande formato é muito mais caro?
O material pode custar mais por metro quadrado do que cerâmica standard, e a mão de obra é mais elevada por ser mais difícil de manusear. Mas costuma compensar em longevidade e facilidade de limpeza, pelo que o custo a longo prazo é competitivo.- E se eu ainda gostar da estética betão?
Procure porcelânico “efeito cimento” em tons greige quentes, não num cinzento frio e chapado. Mantém o espírito do betão, com uma cor mais acolhedora e uma superfície que não fissura nem mancha ao primeiro salpico.
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