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6 hábitos antigos que pessoas nos 60 e 70 anos mantêm e que as tornam mais felizes do que os jovens obcecados por tecnologia.

Idoso sentado à mesa, sorrindo, enquanto come sopa e olha fotografias. Pão e caderno ao lado.

Saturday de manhã, 8h15, padaria de uma vila. A fila serpenteia para lá da montra, e é quase toda de cabelos grisalhos e casacos velhos de lã. Ninguém está a fazer scroll. Ninguém usa auriculares. Estão a conversar. Sobre o tempo. Sobre o novo cão do talhante. Sobre o vizinho que finalmente arranjou o telhado depois de três invernos de “para a semana faço”.

Entretanto, cá fora, um adolescente encosta-se à parede, a cara iluminada a azul pelo telemóvel, auscultadores bem apertados, à espera que o venham buscar. Parece estar noutro sítio, não totalmente aqui.

Lá dentro, a mulher à minha frente, talvez com 72 anos, dá-me uma palmadinha no braço quando me cai uma moeda. “Vá com calma, querido”, ri-se. Sente-se a presença inteira dela naquele segundo.

Há qualquer coisa que eles sabem e que nós, discretamente, esquecemos.

1. Sentar-se para refeições a sério, lentas

Pergunte a pessoas na casa dos 60 e 70 anos o que não mudou, e muitas dirão a mesma coisa: “Eu ainda me sento à mesa para comer.” Sem portátil ao lado do prato. Sem uma série em binge a dar em fundo. Só pratos, copos, talheres e, quando têm sorte, outro ser humano.

Para eles, o jantar não é uma paragem técnica. É uma pequena cerimónia diária que dá forma ao dia. O guardanapo dobrado, o cesto do pão ao meio, o vapor a subir de uma sopa simples. Estes gestos parecem antiquados. E, no entanto, estabilizam o sistema nervoso de uma forma que uma refeição reaquecida à frente de um ecrã brilhante simplesmente não consegue.

Conheci um motorista de autocarro reformado, 68 anos, que me contou que, durante a pandemia, começou a comer no sofá com a televisão ligada. “Fiquei deprimido em duas semanas”, admitiu. Voltou a pôr uma toalha na mesa todas as noites, mesmo sozinho. “A comida não mudou. Eu é que mudei”, disse.

Um inquérito europeu de 2022 concluiu que adultos mais velhos que mantinham horários regulares de refeições, sem ecrãs, reportavam maior satisfação com a vida do que aqueles que comiam “a correr”, independentemente do rendimento ou do estado de saúde. O detalhe que aparecia repetidamente nos comentários? Falar com alguém, mesmo que por pouco tempo, à mesa, com um prato de algo quente. Ou, pelo menos, falar consigo próprios em voz alta à mesa.

A lógica é quase embaraçosamente simples. Quando se senta para comer com intenção, o corpo recebe uma mensagem clara: agora é para nutrir, não para alertas. A digestão melhora. As conversas alongam-se. O tempo estica.

Os mais novos, obcecados por tecnologia, gabam-se muitas vezes de “multitasking” à mesa com trabalho, séries e feeds sociais. Mas o sistema nervoso lê esse caos como stress. As pessoas mais velhas, ao agarrarem-se às suas refeições lentas, protegem uma ilha diária de atenção e presença. Um pequeno ritual teimoso contra a fragmentação. Uma rebelião silenciosa, três vezes por dia.

2. Telefonar ou visitar em vez de mandar mensagens

Pergunte a um avô ou avó como mantém o contacto, e vê-se nos olhos: ainda acreditam em marcar um número ou tocar à campainha. Atravessam a cidade com um frasco de sopa em vez de enviarem um emoji a chorar. Atendem o telefone sem medo quando o número lhes parece familiar.

Há uma espécie de coragem nisso. Não prepara um guião. Não edita frases como se fossem uma legenda. Diz apenas “Olá, como é que estás mesmo?” e depois deixa que o silêncio, a respiração e as pausas conduzam. A conversa ganha um peso que nenhuma troca de mensagens relâmpago consegue carregar.

Uma vizinha de 73 anos contou-me que a melhor amiga “não sabe usar o WhatsApp como deve ser”. Riu-se: “Ainda bem. Ela aparece.” Há vinte anos que têm o mesmo ritual: café todas as quintas-feiras às 10h, no mesmo café, na mesma mesa do canto. Sem grupo, sem convite de calendário. Se uma não aparece, a outra liga para o telefone fixo.

Investigadores que estudam a solidão encontram, vezes sem conta, o mesmo padrão: adultos mais velhos que mantêm contacto presencial ou por voz ao vivo duas a três vezes por semana sentem-se menos isolados do que jovens que enviam centenas de mensagens por dia. A quantidade de pings não é o mesmo que calor humano. Os séniores não estão a ser românticos nem nostálgicos. Estão apenas a defender os formatos onde a nuance humana ainda cabe.

Há uma razão para uma chamada de 5 minutos o acalmar mais do que 50 mensagens. O cérebro capta a respiração, o tom, a hesitação, o riso que escapa pelas bordas das palavras. Essa textura diz-lhe “não estás sozinho” numa linguagem mais antiga do que qualquer aplicação.

As gerações mais novas evitam chamadas porque parecem estranhas ou “intensas demais”. As pessoas mais velhas inclinam-se para essa intensidade. Já viveram o suficiente para saber que reticências e vistos azuis não o abraçam de volta. A ligação real é ineficiente por natureza. É precisamente por isso que funciona.

3. Caminhar sem auscultadores nem destino

Pessoas na casa dos 60 e 70 anos são campeãs olímpicas de caminhadas sem rumo. Não é power walking com sapatilhas high-tech, a olhar para o pulso a contar passos. É só… caminhar. À volta do quarteirão. Para “ver o que há de novo”. Para ir comprar pão à loja mais longe porque o caminho é mais bonito.

Muitas recusam tapar os ouvidos. Querem ouvir pássaros, o trânsito ao longe, a conversa que se grita das varandas. Nestes passeios, o tempo dilata-se como quando éramos crianças. O cérebro muda para uma marcha mais lenta. Os problemas parecem menos cortantes. A ansiedade encontra por onde escoar.

Uma vez segui, a uma distância respeitosa, um homem mais velho que via todos os dias à tarde no meu bairro. Mesma rota, mesmo boné. Numa esquina onde os mais novos normalmente viram para o metro, ele desviou-se para uma rua estreita ladeada de árvores. Sem lojas, sem atalhos. Só sombra e um banco.

Parou para falar com uma florista, baixou-se para fazer festas a um cão e depois sentou-se dez minutos a olhar para… quase nada. Depois levantou-se e continuou. Essa hora inteira de “nada” é exactamente aquilo que muitos de nós desesperadamente procuramos, mas já não sabemos dar a nós próprios, porque há sempre um podcast ou uma playlist disponível, a pedir para preencher o silêncio.

Do ponto de vista neurológico, caminhar sem distracções dá ao cérebro uma oportunidade rara de vaguear. É nesse modo de vaguear que a memória se consolida e soluções criativas vêm à tona. Quando cada passo vem com banda sonora ou com mensagens a chegar, essa voz interior fica abafada.

Os adultos mais velhos, ao manterem os seus passeios sem auscultadores, preservam instintivamente esta higiene mental. A caminhada diária torna-se uma meditação em movimento, sem a pressão de “praticar” mindfulness. Não estão a contar passos; estão a contar estações. Essa lentidão, antes padrão, tornou-se discretamente um hábito de luxo.

4. Arranjar, remendar e manter as coisas “até morrerem mesmo”

Fale com alguém de 70 e tal anos sobre deitar fora uma cadeira ligeiramente partida e vai vê-lo encolher-se. Esta geração cresceu com menos, por isso ainda tem kits de costura, cola, botões suplentes, a estranha caixa de parafusos misteriosos. Remendam. Parcham. Voltam a prender pegas que caíram.

No papel, parece um hábito de poupança. Na realidade, dá-lhes outra forma de felicidade: o orgulho lento de prolongar uma história. Uma camisola que sobrevive a mais um inverno depois de ser cuidadosamente cerzida carrega um peso que uma substituição de um clique nunca terá. O acto de reparar é uma conversa com o tempo.

Numa oficina de reparação, conheci uma mulher, 69 anos, que estendeu o seu secador velho como se fosse um pássaro ferido. “A minha filha diz que eu devia comprar um novo”, disse. “Mas este secou o cabelo deles quando eram bebés.” Um voluntário abriu-o, limpou o pó, substituiu uma peça pequena. Voltou a rugir. Ela quase chorou.

Há números por trás desta sensação. Estudos sobre “apego material” mostram que pessoas que guardam e reparam objectos tendem a reportar maior gratidão e humores mais estáveis. Não é magia. Simplesmente vive rodeado de lembretes de que o cuidado muda resultados. Vê, em forma física, que nem tudo é descartável - incluindo você.

Sejamos honestos: ninguém cerze meias todos os dias. Até os avós mais à antiga às vezes deitam coisas fora. Mas o padrão deles continua a ser: reparar antes de substituir.

Este mindset protege mais do que o planeta. Cada objecto remendado sussurra: “Tu és capaz de mudar algo que está estragado.” Numa cultura que troca de telemóvel de dois em dois anos e de relações ao primeiro conflito, essa paciência é radical. Muitas vezes a felicidade esconde-se nas coisas que não actualizamos.

5. Guardar papel: cadernos, agendas e fotografias impressas

Se abrir uma gaveta em muitas casas de pessoas mais velhas, ainda encontra uma agenda em papel, um caderno de endereços gasto, receitas escritas à mão e álbuns fotográficos com um leve cheiro a pó e cola. Nada disto sincroniza com a cloud. E tudo isto é estranhamente calmante.

Escrever um aniversário numa agenda com uma caneta envia um pequeno sinal ao cérebro: isto importa. Colocar uma fotografia impressa num álbum transforma um brilho fugaz de ecrã numa memória sólida. Há peso. Textura. O passado deixa de ser algo por onde se faz scroll e passa a ser algo que se pode segurar.

Vi um avô de 76 anos sentado no chão com os netos, o álbum aberto sobre os joelhos. As crianças estavam habituadas a deslizar fotos com os dedos; ali, porém, viravam cuidadosamente cada página, perguntando “Quem é?” pela terceira vez. Ele respondia com paciência todas as vezes.

Mais tarde disse-me: “Se estas fotos ficassem nos telemóveis dos pais, perdiam-se no meio de outras 10.000.” O papel cria um filtro natural: só os momentos com significado são impressos. A investigação confirma: pessoas que imprimem e expõem fotografias com regularidade reportam maior coesão familiar e bem-estar emocional. A parede de molduras no corredor não é decoração. É um lembrete diário de pertença.

As ferramentas digitais são convenientes, mas também são escorregadias. Notas desaparecem. Links apodrecem. Discos rígidos morrem. Os adultos mais velhos confiam no papel porque ele fica ali, à espera, em silêncio. Sem palavras-passe. Sem pop-ups. Sem actualizações de sistema a bloquear a porta às próprias memórias.

Esta forma lenta e analógica de gerir o tempo e lembrar protege a atenção. Quando abre um calendário físico, vê apenas o mês, não uma avalanche de pontos coloridos, notificações e convites para reuniões. É convidado a fazer perguntas simples: “O que importa esta semana? Quem quero ver?” Às vezes, a escolha low-tech é a que mantém a mente menos fragmentada.

6. Manter pequenas rotinas diárias, não truques de produtividade

Pessoas na casa dos 60 e 70 anos raramente falam de “rotinas matinais” como influencers. Simplesmente… têm manhãs. Acordam. Abrem as portadas. Talvez um rádio. Café numa caneca preferida. À mesma hora, a mesma chávena, o mesmo sítio. Parece aborrecido. Não é.

Estes gestos repetitivos, quase invisíveis, formam uma coluna vertebral para o dia. Em dias maus, a coluna aguenta. Em dias bons, é um cenário familiar. Os mais novos perseguem frequentemente sistemas elaborados de produtividade, aplicações, trackers de hábitos. Os adultos mais velhos agarram-se a dois ou três rituais humildes e repetem-nos durante décadas. O resultado é uma estabilidade silenciosa, com pouco drama.

Uma enfermeira reformada, 71 anos, partilhou comigo a sua rotina: acordar às 6h30, alongar cinco minutos ao lado da cama, abrir a janela, respirar o ar, e depois escrever uma linha curta num caderno sobre a noite. Só isto. Sem banhos gelados, sem planeador por cores.

Admitiu que às vezes falha quando viaja ou tem visitas. “Mas volto sempre, como voltar a lavar os dentes”, disse. Não há espiral de culpa, nem “falhei a minha rotina hoje”. Só um regresso suave. Esta gentileza consigo próprios é algo que os adultos mais novos raramente se permitem. Transformam rotinas em performance. Os séniores transformam-nas em conforto.

“Os grandes hábitos estão sobrevalorizados”, disse-me ela, mexendo açúcar no café. “Os pequenos, mantidos durante muito tempo, é isso que salva o teu humor.”

  • Abra a mesma janela todas as manhãs e olhe para fora durante 30 segundos.
  • Beba o primeiro café ou chá sentado, sem telemóvel.
  • Faça o mesmo pequeno percurso todos os dias, mesmo que não vá a lado nenhum especial.
  • Ligue a uma pessoa no mesmo dia todas as semanas, como um compromisso fixo.
  • Escreva uma linha à noite sobre algo que correu bem.

A alegria discreta escondida em vidas “à antiga”

Nenhum destes hábitos vai “rebentar” a internet. Não ficam bem filmados para Reels. Não há nada de espectacular em remendar uma manga, sentar-se à mesa ou caminhar devagar sem auscultadores. E, no entanto, somados, formam uma espécie de infraestrutura emocional que muitos jovens obcecados por tecnologia invejam em silêncio.

Estas gerações mais velhas não são santas. Também se perdem em ecrãs. Também se sentem sós. Mas os hábitos a que se recusam a abdicar dão-lhes saídas prontas do túnel digital: uma mesa para pôr, uma rua para percorrer, um vizinho a quem ligar, um álbum para voltar a abrir.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que levanta os olhos do telemóvel e percebe que o dia lhe escorreu pelos dedos como água. Pessoas na casa dos 60 e 70 anos também conhecem essa sensação, mas têm mais âncoras espalhadas pelas horas. Esse é o segredo. Não é disciplina. São âncoras.

Talvez a verdadeira pergunta não seja se devíamos “voltar” aos velhos tempos. É quais pequenos hábitos analógicos queremos levar para a frente, de forma deliberada. Aqueles que talvez sobrevivam, silenciosamente, a todas as aplicações no nosso ecrã inicial.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Rituais lentos, sem ecrãs Refeições à mesa, passeios sem auscultadores, agendas em papel Oferece formas simples de reduzir a ansiedade e recuperar a atenção
Hábitos relacionais em vez de contacto digital Chamadas, visitas, cafés semanais, fotografias impressas Reforça a ligação real e reduz sentimentos de isolamento
Reparação e pequenas rotinas Arranjar objectos, repetir pequenos gestos diários durante anos Constrói um sentido de controlo, continuidade e satisfação no dia a dia

FAQ:

  • Os mais novos têm mesmo tempo para estes hábitos à antiga? A maioria demora minutos, não horas: fazer uma refeição sem ecrã, ligar a um amigo em vez de enviar dez mensagens, imprimir algumas fotografias por mês. O tempo já existe; trata-se mais de trocar um micro-hábito por outro.
  • E se eu me sentir ridículo a caminhar sem auscultadores ou a sentar-me sozinho à mesa? Esse desconforto costuma desaparecer ao fim de alguns dias. Começar pequeno ajuda: experimente um passeio por semana sem auscultadores, ou um pequeno-almoço de domingo sem telemóvel, e deixe o cérebro habituar-se ao ritmo mais calmo.
  • Estes hábitos são só nostalgia, ou têm suporte científico? Estudos sobre solidão, atenção e saúde mental mostram repetidamente benefícios do contacto social ao vivo, de rituais offline e de tempo em ambientes silenciosos sem estimulação digital constante.
  • A tecnologia e estes hábitos antigos podem coexistir? Sim. Muitas pessoas na casa dos 60 e 70 anos usam smartphones com gosto, mas confinam esse uso dentro de rotinas analógicas fortes. O objectivo não é rejeitar a tecnologia, mas impedir que ela engula cada momento.
  • Por onde começo se a minha vida parece totalmente colada aos ecrãs? Escolha apenas uma âncora: uma caminhada diária, um caderno de papel ao lado da cama, ou uma chamada telefónica regular por semana. Proteja-a com gentileza, sem a transformar numa performance. Deixe-a tornar-se familiar antes de acrescentar mais alguma coisa.

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