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Nem 65, nem 75: o código da estrada definiu a verdadeira idade limite para conduzir.

Mãos segurando chaves de carro sobre mesa com óculos, envelope e telemóvel ao lado. Foto emoldurada ao fundo.

O homem de idade, dentro do pequeno hatchback azul, não fixa o semáforo. Fixa as mãos: estarão firmes? serão rápidas o suficiente? Tem 82 anos. Passou no último exame médico. No papel, está apto a conduzir. Na estrada, a questão torna-se bem menos confortável.

O Código da Estrada já se pronunciou - mas não da forma que muita gente supõe.

O verdadeiro limite de idade que o Código da Estrada considera

Os mesmos palpites voltam sempre: “Aos 75 termina”, “Aos 80 tiram a carta”, “Depois dos 70 deviam obrigar a novo exame”. O boato repete-se tantas vezes que quase soa a lei.

Mas a realidade é diferente: o Código da Estrada não estabelece uma idade máxima fixa para conduzir. Nem 65, nem 75, nem 85. O que pesa é a aptidão para conduzir em segurança - física, visual e mental.

Isto é mais exigente (e mais justo) do que um corte por idade, porque o envelhecimento não acontece da mesma maneira para todos. Há quem, com 70 anos, conduza com segurança, e há quem, bem mais novo, conduza exausto, distraído ou sob medicação.

Também é verdade que, em muitos estudos, os condutores mais velhos surgem mais em acidentes graves do que seria expectável, muitas vezes por maior fragilidade física e tempos de reação mais lentos - mesmo sem conduzirem “a abrir”. Ao mesmo tempo, tendem a cumprir mais regras e a fazer menos quilómetros. A mensagem não é “proibir por idade”; é “avaliar caso a caso”.

Em Portugal, isso traduz-se numa lógica prática: a carta mantém-se enquanto for renovada e enquanto a pessoa continuar apta. E essa aptidão é verificada, sobretudo, nos momentos de renovação e nas avaliações médicas.

Como o Código da Estrada decide realmente se alguém é “demasiado velho” para conduzir

A regra, no papel, é simples: deixa de conduzir quando deixa de ser seguro - não quando faz anos. Na prática, a decisão assenta em três mecanismos: renovações, avaliação médica e (quando necessário) restrições/avaliações adicionais.

Em Portugal, para a carta de ligeiros (categoria B), as renovações tornam-se mais frequentes com a idade (tipicamente aos 50, 60, 65 e depois com intervalos mais curtos a partir dos 70). A renovação pode exigir atestado médico (hoje, muitas vezes, enviado eletronicamente pelo médico para o IMT). Para categorias profissionais/pesadas, as exigências tendem a ser mais apertadas.

O que se avalia na prática:

  • Visão (incluindo encandeamento e visão noturna, que muitas vezes se degradam cedo).
  • Mobilidade (pescoço/ombros para confirmar ângulos mortos, tornozelos para travar).
  • Cognição e atenção (desorientação, tomada de decisão, multitarefa).
  • Doenças e medicação: sedativos/ansiolíticos, alguns analgésicos fortes e certos anti-histamínicos podem diminuir reflexos e aumentar a sonolência. Um “sono ao volante” não é só cansaço - por vezes é farmacológico.

Se houver risco relevante, a carta pode ser condicionada (por exemplo: obrigatoriedade de óculos, adaptações no veículo, ou outras limitações). E há situações em que é suspensa/retirada. O “limite” não é um número: é a capacidade real de controlar o carro em segurança, em circunstâncias normais e inesperadas.

Aqui nasce o choque entre lei e vida. Uma pessoa com cataratas pode falhar na visão, tratar-se e voltar a conduzir bem. Outra, com sinais iniciais de demência, pode manter um aspeto “normal” e, ainda assim, falhar em tarefas críticas: perder-se em trajetos simples, interpretar mal sinais, hesitar em rotundas.

A lei define a moldura. O quotidiano - e muitas escolhas difíceis - fica com médicos, família e com o próprio condutor.

Sinais, conversas e o momento de entregar as chaves

O que tende a funcionar melhor do que “um número” é um sistema simples de observação e conversa, cedo e sem dramatizar.

Sinais que merecem atenção (sobretudo quando se repetem):

  • Quase-acidentes e travagens tardias em situações rotineiras.
  • Confusão em cruzamentos/rotundas onde antes se sentia confortável.
  • Dificuldade em manter a faixa ou mudanças de faixa “em cima da hora”.
  • Novos riscos/amolgadelas sem explicação clara.
  • Evitar noite/chuva por encandeamento, receio ou perda de confiança (por vezes é uma adaptação sensata; noutras, é sinal de alerta).
  • Passageiro a “co-pilotar” constantemente: “agora trava”, “olha o sinal”, “é por aqui”.

Uma regra prática útil: se aparecerem 2–3 sinais destes num período curto (por exemplo, alguns meses), vale a pena agir já - começar pelo médico e, se necessário, por uma avaliação de condução com um profissional.

Uma estratégia simples depois dos 65: faça uma “volta de verificação” anual com alguém calmo e de confiança, num percurso que inclua rotundas, estacionamento, vias rápidas e trânsito urbano. Não é um julgamento; é uma fotografia honesta do momento.

A conversa é a parte mais difícil, porque conduzir é independência. O erro mais comum é ir adiando até haver uma crise. Em vez de indiretas, ajuda ser concreto: “Assustei-me naquele cruzamento” ou “Tenho notado que te perdes mais”.

“A idade não é o inimigo. A negação é. Os condutores mais seguros são os que aceitam adaptar-se: evitam a noite, fazem check-ups, atualizam os óculos e escutam quando alguém diz ‘aquela última viagem assustou-me’.”

Algumas ações que tendem a resultar melhor do que ultimatos:

  • Fale antes de haver acidente e com exemplos concretos (não com rótulos).
  • Peça uma avaliação médica focada em condução, incluindo efeitos da medicação.
  • Adapte antes de parar: percursos curtos, evitar horas de ponta, carro com ajudas (sensores/câmara), caixa automática se fizer sentido.
  • Prepare alternativas realistas (transportes, táxi, boleias, entregas ao domicílio) para não transformar “deixar de conduzir” em isolamento.

Um limite que nada tem a ver com velas num bolo

O facto de não haver um número fixo obriga a trocar estereótipos por responsabilidade: o risco não está “gravado” na idade, mas na saúde, no comportamento e na honestidade.

O limite verdadeiro passa por visão, reflexos, medicação, confiança e capacidade de decisão. Depende de um médico sinalizar inaptidão quando é necessário. Depende de a família preferir uma conversa desconfortável a uma chamada da polícia. E depende de aceitar que adaptar-se (reduzir, condicionar, planear) não é desistir.

A lei pode dizer “pode conduzir”. A pergunta mais difícil continua humana: “Deve continuar?”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Não há limite legal fixo de idade A carta não é retirada automaticamente por fazer 65, 70 ou 75; conta a aptidão Reduz ansiedade por “boatos” e foca no que interessa
Verificações médicas e da capacidade de condução Renovações e avaliação (visão, mobilidade, cognição, medicação) podem levar a restrições Ajuda a antecipar problemas e a preparar a renovação
Papel da família e diálogo honesto Observação, conversa e alternativas evitam crises e isolamento Dá alavancas concretas para agir com respeito e segurança

FAQ:

  • Existe uma idade máxima legal para conduzir?
    Não. O direito de conduzir não termina por um aniversário, mas pela falta de aptidão para conduzir em segurança (avaliada, sobretudo, em renovações e por avaliação médica quando há risco).
  • A partir de que idade as renovações da carta se tornam mais frequentes?
    Em Portugal, a frequência aumenta com a idade (com marcos típicos aos 50, 60, 65 e intervalos mais curtos a partir dos 70). As exigências podem variar por categoria de carta e situação clínica.
  • Um médico pode tirar-me a carta?
    Em regra, o médico não “tira” a carta na hora, mas pode declarar/recomendar inaptidão ou restrições com base na avaliação. A decisão administrativa cabe à entidade competente (como o IMT), que pode limitar, suspender ou retirar.
  • Quais são os sinais de que alguém é demasiado velho para conduzir em segurança?
    Perder-se em trajetos familiares, quase-acidentes repetidos, novos danos no carro, dificuldade em avaliar distâncias, confusão com sinais/rotundas, travagens tardias e stress elevado ao volante. Um episódio isolado não decide; um padrão deve ser levado a sério.
  • Que alternativas existem se eu ou um familiar deixar de conduzir?
    Transportes públicos, táxi/TVDE, boleias familiares, redes de vizinhos, entregas ao domicílio e planeamento de rotinas (compras, consultas) para reduzir deslocações. Preparar isto antes evita que a transição pareça uma queda livre.

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