Saltar para o conteúdo

Especialistas alertam que a energia solar deve ser a única fonte no planeta e que os trabalhadores dos combustíveis fósseis são danos colaterais numa guerra energética necessária.

Trabalhador instala painéis solares ao pôr do sol, com capacete ao lado e fábrica ao fundo.

A antiga central a carvão nos arredores da cidade tinha um ruído permanente, quase familiar. Até que, num dia qualquer, os portões ficaram cerrados e surgiu um aviso sobre “requalificação na economia verde”. Para quem ali trabalhava, aquilo não soou a futuro - soou a fim.

Hoje, uma parte do debate climático deixou de falar em “transição” e passou a falar em “corte”. E, nas versões mais duras, a frase resume-se a isto: a solar teria de dominar quase tudo, depressa, e quem vive dos fósseis fica pelo caminho.

Em Portugal, isto não é teoria. O encerramento das centrais a carvão de Sines e do Pego (já nesta década) mostrou como a mudança pode ser rápida no setor elétrico - e, ao mesmo tempo, lenta, dolorosa e desigual no emprego e na economia local.

Quando o sol se torna uma linha de batalha

A linguagem de muitos cientistas e analistas perdeu paciência porque os números pioraram: ondas de calor mais frequentes, incêndios mais violentos, sucessivos anos de recordes. Isso empurra a conversa para os extremos.

Um grupo crescente já não fala em “transição energética”, mas em “triagem energética”: retirar os fósseis do sistema enquanto opção “normal” - não apenas reduzir. A ideia por trás do “só solar” (ou “quase só solar”) é simples: a fotovoltaica é a tecnologia que se consegue fabricar e instalar mais depressa em grande escala, sobretudo em telhados e em grandes parques.

Ao mesmo tempo, há um embate com a realidade:

  • A solar cresce a um ritmo recorde e aparece por todo o lado (telhados, parques, autoconsumo).
  • Mas o consumo de carvão, petróleo e gás mantém-se elevado em muitos países - e, em Portugal, os fósseis continuam a pesar muito nos transportes e em parte da indústria.

Daí a metáfora da guerra: duas trajetórias em simultâneo. E, no meio, trabalhadores e regiões que passam de “coluna vertebral” a “problema”.

Há ainda um detalhe técnico que muitos slogans deixam de fora: “só solar” não é apenas pôr painéis. Implica rede e flexibilidade. Na prática, os cenários mais agressivos dependem de uma combinação de:

  • armazenamento (baterias para horas e, nalguns casos, dias),
  • gestão da procura (consumos deslocados para horas com sol),
  • reforço e digitalização da rede,
  • e, muitas vezes, outras renováveis e/ou capacidade firme de apoio enquanto a transição não fecha o ciclo.

A linguagem de “danos colaterais” pode render em conferências. Em cidades monoindustriais, gera resistência imediata.

Como uma guerra necessária se sente quando o teu trabalho é o campo de batalha

O plano dos defensores do “solar primeiro” costuma seguir uma sequência lógica: telhados adequados, parques de estacionamento, terrenos degradados (brownfields), zonas industriais desativadas e, só depois, grandes extensões de solo.

No papel, é coerente. Na rua, o que pesa é outra coisa: estabilidade.

  • Empregos fósseis tendem a ser mais contínuos (turnos, manutenção, operação).
  • Muitos empregos na solar são por obra: picos de contratação na construção e menos postos permanentes na operação.

E há um choque de vida real: requalificação não é um cartaz. Para muita gente, “voltar a estudar” aos 45–55 anos, com contas para pagar e família a cargo, é quase impossível sem apoio a sério (rendimento, transporte, horários, reconhecimento de competências).

Erros comuns que corroem a confiança:

  • Prometer “os mesmos salários” sem explicar onde e quando.
  • Anunciar fundos e depois atrasar a execução.
  • Subcontratar tudo a cadeias de empreiteiros, reduzindo margem para salários decentes e progressão.
  • Tratar comunidades como estatística (“ativos encalhados”) em vez de pessoas e comércio local encalhados.

Há também uma dimensão prática que raramente é dita: uma central solar grande ocupa espaço. Como regra de bolso, muitos parques fotovoltaicos precisam de cerca de 1,5–2,5 hectares por MWp (varia com o layout e a tecnologia). Isso aumenta a pressão para escolher bem onde instalar - e para negociar com quem vive e trabalha nesses territórios.

Encontrar um caminho que não seja apenas vencedores e vencidos

As vozes mais eficazes no campo das renováveis têm ajustado o foco: menos moralismo, mais engenharia social e económica. Em termos concretos, isto tende a resultar melhor quando junta três coisas ao mesmo tempo: proximidade, previsibilidade e poder local.

O que costuma funcionar melhor no terreno:

  • Projetos perto de onde os empregos se perdem
    Mapear encerramentos (centrais, refinarias, serviços associados) e atrair novos projetos para um raio compatível com deslocações diárias. A distância mata transições: obriga a mudar de casa, escola, rede familiar.

  • Pacotes realistas, não simbólicos
    Reforma antecipada para quem está perto da idade, complementos salariais temporários e requalificação paga com estágios em obra. Sem rendimento durante a formação, a adesão cai.

  • “Transição justa” como condição do licenciamento e dos incentivos
    Se houver benefícios públicos (leilões, incentivos, facilitação administrativa), ligar parte disso a métricas locais: contratação da região, formação certificada, compras a fornecedores locais e participação em comunidades de energia quando faz sentido.

Um ponto pouco glamoroso, mas decisivo: qualidade e segurança do trabalho. A solar é limpa na operação, mas o trabalho não é “leve”: há alturas, eletricidade, calor, poeiras, movimentação de cargas. Sem formação e fiscalização, a pressa gera acidentes - e ressentimento.

A metáfora da guerra dá manchetes. No terreno, isto parece mais uma negociação de longo prazo: reconhecer perdas, combinar compensações e desenhar uma saída que não humilhe quem manteve o sistema a funcionar durante décadas.

“Chamar ‘danos colaterais’ aos trabalhadores não é apenas cruel, é uma política estúpida”, diz um economista da energia que passou 20 anos a modelar sistemas elétricos. “Se queres que a solar vença, não transformas uma classe inteira de trabalhadores qualificados em inimigos. Contratas essas pessoas, ouves essas pessoas, deixas que coautorem o futuro.”

  • Redirecionar competências, não apenas a retórica
    Segurança industrial, trabalho em equipa, manutenção, eletricidade, operação com procedimentos - muitas destas competências transitam bem para redes, subestações, O&M de parques renováveis e armazenamento.

  • Financiar comunidades, não só empresas
    Quando o investimento chega, garantir que deixa lastro: centros de formação locais, contratos de aprendizagem e projetos com benefício direto na fatura (quando aplicável).

  • Deixar de tratar rapidez e justiça como inimigas
    A urgência climática é real, mas o bloqueio político também. Ignorar o impacto social costuma atrasar mais do que acelera.

Viver com um futuro que queima menos, mas ainda dói

A escolha não é confortável: continuar a queimar fósseis e aceitar impactos crescentes, ou acelerar a eletrificação e encher o mundo de solar e armazenamento, aceitando que carreiras e cidades vão mudar depressa demais para ser indolor.

Mesmo com a direção clara, há três trade-offs que vale admitir sem slogans:

  1. Intermitência: o sol não brilha de noite; sem rede e flexibilidade, a promessa falha nas horas críticas.
  2. Cadeias de fornecimento: fabricar, transportar e instalar à escala necessária exige capacidade industrial e planeamento - não apenas vontade política.
  3. Fim de vida: painéis duram, em muitos casos, 25–30 anos; reciclagem e gestão de resíduos têm de estar previstas desde o início.

Um futuro “quase só solar” não precisa de ser construído sobre pessoas descartadas. Mas isso exige uma decisão tão séria quanto a tecnológica: tratar trabalhadores e territórios como parte do sistema energético - não como um efeito colateral.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
“Só solar” não é uma ideia marginal (mas é um extremo) Há cenários que apontam para um domínio muito alto da solar, normalmente com armazenamento, rede reforçada e outras renováveis a apoiar Explica por que o tom ficou urgente - e por que a discussão real é mais complexa do que “painéis em todo o lado”
Os trabalhadores sentem-se retratados como descartáveis O debate transforma despedimentos e fechos em números; para as localidades, é identidade, comércio e futuro dos filhos Dá contexto à resistência e ao voto “contra” políticas climáticas, mesmo onde há consenso sobre o problema
Uma transição justa é uma ferramenta estratégica Requalificação paga, investimento local e regras de contratação reduzem reação adversa e aumentam a velocidade de execução Mostra como acelerar pode depender de tratar bem quem perde com a mudança

FAQ:

  • Pergunta 1 Os especialistas estão mesmo a dizer que a energia solar deve ser a única fonte de energia?

Alguns defendem isso como objetivo-limite para cortar emissões depressa, mas muitos cenários “realistas” apontam para a solar como pilar principal, acompanhada de outras renováveis, armazenamento e uma rede mais robusta.

  • Pergunta 2 O que acontece aos trabalhadores do petróleo, do gás e do carvão num mundo “só solar”?

Sem política ativa, muitos perdem rendimento e estatuto. Com uma transição bem desenhada, parte das competências migra para redes, armazenamento, renováveis, construção industrial e manutenção - mas raramente “automaticamente” e raramente sem perdas temporárias.

  • Pergunta 3 Não poderíamos simplesmente usar uma mistura de fontes de energia?

Na prática, é isso que muitos países fazem. A discussão é sobre velocidade e sobre quanto tempo os fósseis continuam “no menu” como resposta a preços, crises e ciclos eleitorais.

  • Pergunta 4 Há alguma prova de que os programas de “transição justa” funcionam mesmo?

Funcionam melhor quando têm financiamento suficiente, começam antes do fecho, garantem rendimento durante a formação e criam empregos próximos. Quando são tardios, burocráticos ou subfinanciados, tendem a falhar.

  • Pergunta 5 O que podem as pessoas comuns fazer para lá de se sentirem culpadas pelo seu consumo de energia?

Focar no que muda o sistema: eficiência (isolamento, bombas de calor quando possível), eletrificação (se fizer sentido), autoconsumo/Comunidades de Energia quando viável, e pressão local por projetos com benefícios e emprego na região - não só megawatts no mapa.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário