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Ex-jogador da Ligue 1 internado de urgência psiquiátrica em Marselha.

Homem pensativo sentado numa cama de hospital, com chuteiras e fita na mesa ao lado. Luz entra pela janela.

As portas de correr da urgência psiquiátrica em Marselha abrem e fecham com um sibilar surdo. Nas cadeiras de plástico, pessoas caladas: passos arrastados, telemóveis na mão, olhos perdidos. Ao fundo, um homem alto, de fato de treino cinzento, caminha devagar, ombros encolhidos, cabeça baixa. Uma enfermeira chama-o pelo primeiro nome. Ele demora a perceber. Depois volta-se e, por um segundo, reaparece um reflexo antigo: peito aberto, olhar fixo - a postura de quem já entrou em estádios com 40.000 pessoas.

Mas esta noite não há cânticos nem câmaras.

Há um antigo jogador da Ligue 1 numa urgência psiquiátrica. E a pergunta que quase ninguém sabe fazer com cuidado: “O que é que aconteceu, antes de chegar aqui?”

Uma queda repentina: do relvado para a enfermaria psiquiátrica

A notícia espalha-se primeiro em voz baixa: um ex-jogador da Ligue 1 foi parar à urgência psiquiátrica em Marselha. Não era uma superestrela; era daqueles que “fazem o serviço” - jogo após jogo, discretos, úteis, facilmente esquecidos mal a camisola muda de dono.

E, de repente, o nome regressa por um motivo que dói mais do que qualquer lesão.

Perto do Vélodrome, lembram-se menos dos golos e mais de pormenores: aplaudia os adeptos mesmo depois de perder; falava pouco e, quando falava, por vezes a voz tremia ao tocar em pressão, família, expectativas. Numa rádio local, há anos, deixou sair - meio em brincadeira, meio a sério - o medo da “vida depois do futebol”.

Depois vieram anos de ruído de fundo: divisões inferiores, contratos curtos lá fora, lesões, uma última época sem grande despedida.

Agora regressa a Marselha como doente, ao abrigo de medidas de urgência psiquiátrica - paredes brancas em vez de cachecóis.

Visto de fora, parece “repentino”. Por dentro, quase nunca é. A pressão começa cedo nos centros de formação: adolescentes a crescer a ouvir que a vida depende de uma bola não bater no poste. A carreira atinge muitas vezes o auge antes dos 30. E a identidade cola-se ao rendimento.

Quando a camisola é tirada pela última vez, muita coisa sabe a despromoção: menos telefonemas, menos agenda, menos “lugar”. E quando o ruído acaba, o silêncio pesa.

Por trás de portas fechadas: como uma crise realmente se vê e se sente

Lá dentro, uma crise nem sempre tem ar de cinema. Às vezes é apenas isto: noites sem dormir, sobressaltos com portas, pensamentos a correr em alta rotação. O médico faz perguntas simples e directas: comeu, dormiu, pensou em magoar-se, sente-se seguro. Ele responde em frases curtas, como quem aprendeu a medir cada palavra nas zonas mistas.

Desta vez não há assessor para “fechar o assunto”.

A equipa observa e decide que, esta noite, ele fica - por segurança, para travar a descida, para ganhar tempo. Em muitos casos, a urgência serve sobretudo três objectivos práticos: reduzir risco imediato, estabilizar sono/ansiedade e montar um plano de seguimento (em vez de deixar a pessoa regressar a casa sozinha e sem rede).

Para antigos atletas, chegar aqui costuma ser o fim de uma viagem invisível. Pode começar por insónia depois de uma transferência falhada. Um divórcio vivido em silêncio enquanto online se discutem números. Ou aquele instante na bancada em que percebem que os cânticos já não são “para eles”, mas para o miúdo que herdou o número.

Quem está por perto nota sinais: viragens bruscas de humor, irritabilidade, isolamento, aquele sorriso “arrumado” que não encaixa nos olhos. Alguém insiste em pedir ajuda. Um contacto antigo diz que arranja um médico “se for preciso”. Até que a linha se cruza: ataque de pânico, comportamento perigoso, ou frases ditas em voz alta que assustam quem ama.

E é aí que “urgência psiquiátrica” deixa de ser ideia e vira porta.

De fora, chega o julgamento fácil: “Com o dinheiro que ganhou, como é que está assim?” Como se dinheiro curasse solidão, ou aplausos substituíssem apoio real quando se fecha a porta de casa. A saúde mental não quer saber do escalão: medo, vergonha, expectativas familiares e pressão podem aumentar quando se assina um contrato profissional.

Os clubes falam mais de “bem-estar”, mas a cultura da dureza mantém-se: jogar com dores dá estatuto; admitir sofrimento psicológico continua a ser visto, por muitos, como fraqueza. E quando passas a vida a esconder fraqueza, quase sempre pedes ajuda tarde.

Aprender a pedir ajuda antes do ponto de rupture

Profissionais de saúde mental repetem uma ideia simples: não esperes bater no fundo para estender a mão. Há sinais antes do colapso - e quanto mais cedo se intervém, mais alternativas existem fora da urgência.

Sinais comuns que merecem atenção (sobretudo quando duram dias/semanas e agravam): - insónia persistente ou sono “partido”, com ansiedade ao acordar; - perda de interesse por coisas básicas (treino, amigos, família, comida); - irritabilidade fora do teu padrão, impulsividade, ou aumento do consumo de álcool/substâncias; - pensamentos em espiral, sensação de ameaça constante, ataques de pânico; - ideias de auto-agressão, desesperança, ou a sensação de “não aguento mais” (aqui, é para levar à letra).

Um primeiro passo que ajuda mesmo é falar com alguém fora da bolha do futebol: um amigo antigo, companheiro(a), um terapeuta que não dependa do clube, o médico de família. Não precisa de ser “a conversa perfeita”; precisa de ser honesta o suficiente para abrir uma porta.

E há portas muito mais suaves do que entrar numa urgência à meia-noite.

Armadilhas típicas pós-carreira: - comparar o presente com o pico todos os dias (e perder sempre); - “doomscrolling” de highlights e memórias, como se isso fosse terapia; - fingir que está tudo bem para não preocupar pais/filhos; - trocar rotina por deriva: menos treino, mais isolamento, mais copos “para dormir”.

Uma regra prática: se andas a “aguentar” há semanas, já não é só uma fase - é cuidado adiado.

O gesto empático não é dizer “devia ter falado mais cedo”. É reconhecer o custo de admitir que uma carreira brilhante não protege das vulnerabilidades mais humanas.

“Passei a vida inteira a aprender a sofrer no relvado. Ninguém me ensinou o que fazer com o sofrimento quando os jogos acabavam.”

Âncoras concretas que muitas vezes mudam trajectórias (sem glamour, com efeito): - seguimento regular com psicólogo/psiquiatra, mesmo quando “parece estar tudo bem”; - pelo menos 1–2 pessoas de confiança fora do futebol (para conversa sem performance); - rotina pós-reforma com estrutura mínima (hora de acordar, movimento diário, tarefas); - plano financeiro realista (cortes a tempo reduzem stress crónico); - plano de crise combinado: sinais pessoais + quem ligar + onde ir, antes de “rebentar”.

Se houver risco imediato (ideias de suicídio, confusão intensa, comportamento perigoso), em Portugal a prioridade é segurança: ligar 112 ou ir à urgência. Para orientação clínica, o SNS 24 (808 24 24 24) pode encaminhar e, em muitos casos, activar apoio psicológico.

O que esta noite em Marselha revela, em silêncio, sobre todos nós

O mais marcante talvez não seja o nome, mas a familiaridade do enredo. Uma vida que muda depressa. Um papel que deixa de existir. Um corpo que já não responde como antes. Um futuro que perde nitidez.

Chamamos-lhe burnout, depressão, ansiedade, crise de meia-idade. A sensação aproxima-se: estar à beira da própria vida a perguntar em que momento se perdeu o guião.

Ver alguém “invencível” num lugar tão vulnerável desfaz a fantasia de que o sucesso protege da dor. E levanta uma pergunta desconfortável: se até eles podem cair, e eu? Ao mesmo tempo, há algo estabilizador nesta verdade: ninguém é de pedra - nem o trabalhador do turno da noite, nem o pai/mãe exausto, nem o campeão reformado com uma gaveta de medalhas.

A noite de Marselha lembra que as fissuras mentais não escolhem estatuto. Só exigem ser vistas.

Talvez a mudança comece menos com comunicados e mais com conversas pequenas: um colega a perguntar “estás mesmo bem?” e a ficar para ouvir a resposta; um adepto a lembrar-se de que há vida depois dos cânticos; uma família a falar antes de alguém desaparecer no silêncio.

Do estádio, o futebol parece uma história de glória e falhanço. Da urgência, volta a ser o que sempre foi por baixo de tudo: pessoas a tentar viver com expectativas que nem sempre escolheram. E essa história vale acompanhar não por curiosidade, mas porque tem um pedaço reconhecível em quase todos nós.

Pontos-chave, em curto: - A fragilidade pode ficar bem escondida mesmo em carreiras de topo - fama e dinheiro não imunizam. - A crise costuma dar sinais antes (sono, isolamento, ansiedade, consumo, impulsividade) e vale agir cedo. - Ajuda funciona melhor com rede + rotina + seguimento clínico + plano de crise simples e combinado.

FAQ:

  • Pergunta 1 Porque é que um antigo jogador da Ligue 1 seria colocado em urgência psiquiátrica?
  • Pergunta 2 O dinheiro e a fama protegem os futebolistas profissionais de problemas de saúde mental?
  • Pergunta 3 Que tipo de pressão psicológica os jogadores de topo enfrentam normalmente?
  • Pergunta 4 Como podem os adeptos e o público reagir de forma mais respeitosa quando surgem histórias deste tipo?
  • Pergunta 5 O que podem os atletas actuais e antigos fazer para proteger a sua saúde mental após a reforma?

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