Em águas contestadas a sudoeste de Okinawa, um confronto breve mas carregado de tensão entre forças chinesas e japonesas voltou a levantar o temor de um erro de cálculo.
O impasse ocorreu num corredor estratégico de mar e ar (perto do Estreito de Miyako, entre ilhas japonesas) e desencadeou protestos diplomáticos, avisos de “contramedidas” e inquietação com uma possível escalada no Leste Asiático.
Bloqueios de radar, céus disputados e uma acusação de provocação
O Japão afirma que, em duas ocasiões no sábado, caças chineses direcionaram radar de controlo de tiro a aeronaves militares japonesas perto de Okinawa, descrevendo o episódio como “perigoso” e “lamentável”. A área fica junto às ilhas Ryukyu, próxima de Taiwan e de rotas marítimas usadas por comércio e por forças navais.
Segundo Tóquio, isto ultrapassou o que seria uma verificação normal de identificação. O ministro da Defesa, Shinjiro Koizumi, disse que o “apontar” por radar excedeu o necessário para evitar colisões ou confirmar identidades, e que o Japão apresentou um protesto formal.
Fixar um radar de controlo de tiro noutra aeronave é amplamente entendido como sinal de ameaça: pode anteceder o lançamento de um míssil e obriga o piloto visado a reagir.
A China contesta a narrativa japonesa. De acordo com o porta-voz da marinha, coronel Wang Xuemeng, foram aeronaves japonesas que se aproximaram repetidamente e perturbaram um exercício aéreo-naval chinês no Estreito de Miyako.
Pequim defende que o exercício foi previamente anunciado e decorreu em águas internacionais. A marinha chinesa acusa o Japão de “calúnia e difamação” e afirma ter atuado dentro da legalidade.
Pequim fala no “incidente mais grave dos últimos anos”
Autoridades chinesas classificaram o confronto como “o incidente mais grave dos últimos anos” na zona, refletindo o quão sensível este teatro se tornou para ambos os governos.
Num comunicado de tom duro, a marinha chinesa deixou um aviso de que irá reagir.
“A marinha chinesa tomará as medidas necessárias, de acordo com a lei, para salvaguardar resolutamente a sua própria segurança e os seus direitos e interesses legítimos”, disse o porta-voz.
O Japão não detalhou que manobras os seus pilotos executaram, nem ficou claro se houve “bloqueio” total (lock) ou apenas “iluminação”/seguimento por radar. Esta distinção técnica é relevante: permite a ambos os lados endurecerem a narrativa sem ficarem presos a pormenores verificáveis - e dificulta a avaliação do nível real de risco.
Tóquio promete uma resposta “determinada e calma”
O tom político japonês tornou-se mais severo. Koizumi afirmou que o Japão responderia “com determinação e calma” para preservar estabilidade e paz, num encontro em Tóquio com o ministro da Defesa australiano, Richard Marles - recado também destinado a parceiros da arquitetura de segurança liderada pelos EUA no Indo-Pacífico.
O episódio surge num momento sensível. Desde que a primeira-ministra Sanae Takaichi assumiu o poder, as relações com a China deterioraram-se, com uma linha mais firme em segurança regional, sobretudo em relação a Taiwan.
A primeira-ministra advertiu que o Japão se reserva o direito de responder caso um movimento militar chinês contra Taiwan seja entendido como ameaça à segurança japonesa.
Estas declarações já incomodavam Pequim; o incidente do radar acrescenta pressão a uma relação que combina interdependência económica com rivalidade estratégica.
Um bairro sobrelotado: forças dos EUA e Taiwan em segundo plano
Qualquer incidente perto de Okinawa raramente é apenas entre dois países. O Japão acolhe a maior concentração de forças norte-americanas no estrangeiro; em Okinawa existem bases e meios que operam regularmente no mesmo espaço aéreo e marítimo onde ocorreram os encontros.
Numa área de patrulhas sobrepostas, o risco não é apenas “intenção”: são também procedimentos e segundos de reação. Interceções a curta distância, velocidades elevadas e ruído de guerra eletrónica aumentam a probabilidade de um sinal mal interpretado (ou de um alerta falso) escalar rapidamente - sobretudo quando as tripulações sentem pressão para “mostrar firmeza” sem recuar.
A sudoeste está Taiwan, ilha autogovernada que Pequim reivindica. A China não exclui o uso da força; Taipé rejeita a reivindicação e afirma que apenas os taiwaneses podem decidir o futuro.
Para Tóquio, um conflito em torno de Taiwan provavelmente transbordaria para as águas e corredores aéreos próximos, incluindo Okinawa. Isto ajuda a explicar a retórica mais dura e o reforço da cooperação de defesa com os EUA e com parceiros como a Austrália e o Reino Unido.
Dos radares ao comércio: China suspende importações de marisco
As repercussões não se limitam ao plano militar. Pequim aconselhou cidadãos chineses a evitarem viagens ao Japão e travou um reinício planeado das importações de marisco japonês.
As importações já tinham sido suspensas após a libertação, pelo Japão, de águas residuais tratadas da central de Fukushima. Havia sinais de um possível alívio gradual, mas essa possibilidade voltou a ficar congelada.
- Viagens: apelos oficiais para adiar/cancelar visitas ao Japão.
- Comércio: retoma do marisco japonês volta a ficar parada.
- Política: reforço da crítica, em meios estatais, ao comportamento “provocatório” de Tóquio.
Para comunidades piscatórias e exportadores japoneses, o mercado chinês tem peso nas receitas; uma nova pausa prolonga a incerteza e agrava o risco reputacional já associado a Fukushima.
Porque a “iluminação” por radar assusta os pilotos
Para quem está fora, “iluminar” um radar pode parecer um detalhe técnico. Para um piloto militar, é um dos sinais mais sensíveis.
Em termos simples, existe diferença entre: - Radar de busca/vigilância: varre uma área ampla para detetar contactos. - Radar de controlo de tiro: concentra energia num alvo para o seguir com precisão e suportar um eventual disparo.
Quando os sensores de alerta detetam um radar de controlo de tiro, muitos pilotos assumem que podem estar a segundos de um lançamento de míssil.
As reações típicas podem incluir afastamento rápido, medidas de autoproteção (por exemplo, contramedidas eletrónicas) e comunicação imediata com controlo/ala. O problema é o ciclo “ação–reação”: uma manobra defensiva de um lado pode ser lida como hostil pelo outro, elevando o risco de acidente - sobretudo se as aeronaves estiverem próximas e em ângulos de aproximação agressivos.
O que pode acontecer a seguir?
Analistas apontam três vias de curto prazo:
| Cenário | Como se manifesta | Riscos |
|---|---|---|
| Desescalada discreta | Diplomatas gerem protestos; militares ajustam procedimentos discretamente. | Tensões de fundo ficam por resolver; incidentes podem regressar. |
| Ciclo de demonstração de força | Mais patrulhas, exercícios divulgados e retórica mais dura de ambos os lados. | Maior probabilidade de quase colisões ou colisões. |
| Conversações sobre “regras de circulação” | Diálogo técnico sobre canais de comunicação e conduta de voo. | Críticos internos em cada país podem retratar compromissos como fraqueza. |
Mecanismos práticos ajudam quando funcionam: linhas diretas, frases-padrão para contacto por rádio e regras para interceções reduzem mal-entendidos. Ainda assim, a eficácia costuma variar com o clima político e com o nível de confiança entre comandos.
Termos-chave que moldam o impasse
Alguns conceitos ajudam a perceber por que razão a linguagem é tão dura.
Zona económica exclusiva (ZEE): atribui ao Estado costeiro direitos sobre recursos até 200 milhas náuticas (cerca de 370 km), mas não elimina a liberdade de navegação e sobrevoo. Japão e China divergem sobre até onde vão os “direitos” do Estado costeiro e como enquadrar atividades militares na ZEE ou nas proximidades.
Liberdade de navegação: Japão, EUA e parceiros defendem rotas abertas, incluindo no Estreito de Miyako. A China, em geral, aceita o princípio, mas protesta com frequência quando forças militares estrangeiras operam perto de áreas que reivindica ou em torno de exercícios chineses.
Táticas de “zona cinzenta”: ações abaixo do limiar de guerra aberta - como aproximações muito próximas, uso intimidatório de radar ou presença reforçada de guarda costeira - que pressionam o adversário sem desencadear um conflito declarado. Tóquio e Pequim acusam-se mutuamente de recorrer a estas práticas.
Para residentes de Okinawa, pescadores e empresas dependentes das rotas do Mar da China Oriental, o incidente recorda que a rivalidade estratégica já produz efeitos reais: não apenas em comunicados, mas na forma como cada encontro no radar pode, em segundos, alterar o grau de risco na região.
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