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Novo estudo sugere que a agua pode ter ajudado a construir a piramide de djoser em saqqara

Arqueólogo de chapéu examina pedras junto a corrente de água com pirâmide ao fundo, sob luz do amanhecer.

Uma hipótese antiga que está a ganhar nova forma

Ao olhar para Saqqara hoje, parece um estaleiro “só” de braços, cordas e rampas, no seco. Mas alguns trabalhos recentes voltam a uma ideia muito prática: a água pode ter sido usada em momentos específicos para tornar o transporte e a preparação do terreno mais eficientes na construção da Pirâmide de Djoser.

A pergunta é logística, não mística: como mover milhares de blocos (muitos com centenas de quilos e alguns com várias toneladas) com menos esforço, menos danos e menos paragens? Se havia água acessível em certas épocas, seria estranho não a integrar no plano.

A hipótese não é “água em todo o lado”. É ligar o estaleiro a antigos braços do Nilo, depressões e possíveis canais/bacias de retenção, tirando partido da sazonalidade das cheias.

Em termos simples, a água poderia ter ajudado em três frentes:

  • aproximar cargas por via aquática quando o nível permitia;
  • humedecer e estabilizar o piso de arrasto;
  • manter acessos e rampas mais regulares e utilizáveis.

A pergunta deixou de ser “usavam água?” e passou a ser “em que fase, em que trajecto e com que função exacta?”

O cenário: Saqqara não era “só deserto”

O Saqqara atual engana: o Nilo e o relevo útil mudaram ao longo de milénios. Dois pontos pesam nesta leitura:

  1. Braços do Nilo deslocaram-se; zonas baixas podiam encher sazonalmente, criando “janelas” de água mais perto do planalto do que parece hoje.
  2. Grandes obras do Estado egípcio eram sistemas completos: áreas de trabalho, armazenamento, vias, controlo de acessos e infraestrutura para manter o fluxo de materiais.

Se existiu uma bacia (natural adaptada ou artificial) capaz de reter água durante semanas, isso seria uma peça logística - não um detalhe. Há, porém, um trade-off claro: a água ajuda, mas exige controlo. Sem taludes/diques baixos, drenagem e manutenção, o terreno vira lama, erode rampas e corta acessos.

Uma bacia não é só um lago: é uma máquina

Com algum controlo, uma massa de água pode funcionar como:

  • ponto de carga/descarga para encurtar o “último quilómetro” em terra;
  • reserva para humedecer percursos e rampas quando isso reduz perdas;
  • amortecedor para gerir enxurradas raras, que podem destruir trilhos em poucas horas.

Não é preciso imaginar um canal monumental. Um sistema “bom o suficiente” (taludes, pequenas barreiras, zonas de amarração e caminhos elevados) já pode reduzir tempo perdido, avarias e risco de acidentes - por exemplo, trenós a derrapar em areia solta ou cordas a falhar por puxões irregulares.

Como a água poderia ter “levantado” pedra: menos milagre, mais física

Mover pedra é, em grande parte, gerir atrito, regularidade do piso e repetição do processo. Nesse contexto, a água pode ter sido discreta, mas valiosa.

Há um efeito testado em contextos modernos: humedecer areia/solo pode reduzir o esforço de arrasto porque “cola” os grãos e diminui a acumulação de areia à frente do trenó. Em condições certas, a redução pode ser grande (muitas vezes na ordem de ~30–50%), mas é um ponto sensível: pouca água quase não altera; água a mais cria lama, aumenta o arrasto e o risco de atolamento.

Para a hipótese ficar mais concreta, ajuda pensar em regras de estaleiro:

  • A humidade útil tende a ser moderada e mantida ao longo do dia; isso implica abastecimento regular e equipas para regar, compactar e reparar o trilho.
  • Pisos preparados (terra batida/areia compactada, com boa drenagem) respondem melhor do que areia solta; rampas ganham sulcos rapidamente e exigem nivelamento frequente.
  • O maior ganho pode ser a previsibilidade: menos paragens para “desencalhar”, menos puxões bruscos (que rebentam cordas), menos improviso.

Isto não substitui rampas, trenós, cordas e organização. Mas um ganho pequeno, repetido milhares de vezes, muda o custo total (tempo, comida, fadiga, perdas e lesões).

O “elevador líquido” (e porque não tem de ser literal)

Algumas versões populares falam num “elevador hidráulico”. Uma leitura mais cautelosa é outra: água como aproximação e controlo do terreno, não como guindaste.

Um modelo funcional combina:

  • aproximação por via aquática quando o nível permite (sazonal, dependente de cheias e retenção);
  • transbordo para trenós em zonas planas, compactadas e com bom escoamento;
  • subida em rampas com piso estabilizado (humidade controlada, nivelamento e reparações).

A força da ideia não é um truque único. É reduzir a variabilidade: quando cada deslocação corre “sem drama”, o estaleiro ganha ritmo e segurança.

Que tipo de indícios sustentam a hipótese?

Em arqueologia, raramente há uma prova única. O que pesa é a convergência:

  • forma do terreno: depressões, traços de leitos antigos, zonas compatíveis com retenção/circulação de água;
  • sedimentos e depósitos que sugerem presença repetida de água (por exemplo, camadas finas típicas de água parada/intermitente);
  • organização de estruturas auxiliares (muros, acessos, áreas de trabalho) que fazem mais sentido com um ponto húmido/porto sazonal;
  • paralelos históricos: o transporte fluvial no Egipto está bem atestado e, em muitos projectos, a água era usada sempre que poupava trabalho em terra.

Isto não obriga a concluir “a água construiu a pirâmide”. Sustenta melhor uma formulação contida: a água pode ter integrado a logística em fases específicas - sobretudo na aproximação de materiais e na manutenção de percursos.

Elemento O que sugere Porque importa
Bacia/canais antigos Acesso aquático sazonal Menos percurso em terra
Solo humedecido Arrasto mais eficiente (às vezes) Menos esforço e falhas
Infraestrutura periférica Planeamento e suporte Obra como complexo

O que muda na nossa leitura de Djoser (e do Egipto antigo)

A história de Djoser costuma realçar o génio arquitetónico. A hipótese da água desloca parte do foco para a engenharia de obra: abastecimento, armazenamento, circulação, drenagem, estabilização do terreno e trabalho sincronizado com o calendário das cheias.

A lição é simples e moderna: grandes obras raramente dependem de um “segredo”. Dependem de muitos ganhos pequenos, coordenados - e de infraestrutura que quase nunca aparece no monumento final.

A cautela necessária: hipótese não é veredicto

Há limites claros:

  • o registo arqueológico é incompleto;
  • clima, solos e o próprio Nilo mudaram;
  • “ajudar” pode ir de papel central a uso pontual em janelas sazonais.

As perguntas úteis, por agora, são:

  • em que fases a água teria mesmo vantagem (aproximação, arrasto, estabilização do terreno)?
  • com que regularidade haveria níveis suficientes para um “porto” funcional?
  • quanto era natural vs. construído (diques, bacias, canais, caminhos elevados)?
  • como se articulava com pedreiras, rampas e rotas terrestres já conhecidas?

Boa arqueologia raramente fecha a história depressa: reduz o espaço do “improvável” e melhora o que é plausível.

Porque esta ideia pega tão bem (mesmo antes de ser definitiva)

A hipótese pega porque troca “força bruta constante” por engenharia pragmática: usar o ambiente quando dá, construir apoio quando é preciso, e trabalhar com a física (atrito, piso, manutenção).

Também ajuda a ver a pirâmide como um sistema: não só blocos empilhados, mas um estaleiro com infraestrutura “invisível” - acessos, drenagem, plataformas, zonas de transbordo e rotinas de manutenção. É aqui que a água, mesmo sem ser abundante, pode fazer diferença: como recurso de controlo, não como magia.

O que observar nos próximos passos

Se a discussão avançar, a evidência tende a fortalecer-se (ou a cair) em três frentes:

  • modelação geomorfológica mais detalhada (reconstrução do relevo e de antigos braços/baixios);
  • análises sedimentares com melhor resolução temporal (para separar episódios pontuais de um padrão recorrente);
  • escavações dirigidas a pontos onde canais/bacias deixariam marcas operacionais (taludes trabalhados, zonas de ancoragem, pisos compactados, interfaces de assoreamento).

Se estas linhas convergirem, a água deixa de ser um “talvez” e passa a ser uma peça mais estável no puzzle de Saqqara.

FAQ:

  • O estudo prova que a água foi essencial para construir a pirâmide? Não. Sugere um possível papel em partes da logística. Em arqueologia, a evidência tende a ser cumulativa e sujeita a revisões.
  • Isto significa que os egípcios construíram a pirâmide com barcos? Pode ter havido transporte aquático até mais perto do estaleiro em períodos favoráveis. A fase final exigiria sempre trenós, rampas e trabalho em terra.
  • Por que razão humedecer o terreno ajuda a mover cargas? Em certos solos arenosos, a humidade estabiliza os grãos e reduz a areia acumulada à frente do trenó, baixando o esforço. Com água a mais, o efeito pode inverter-se.
  • Saqqara tinha mesmo água suficiente? A hipótese aponta para acesso sazonal e/ou retenção em bacias ligadas a braços antigos do Nilo. O ponto crítico é a escala: quanto tempo, quanta água e quão perto do estaleiro.
  • O que muda na história de Djoser? O foco alarga: além do desenho arquitetónico, ganha peso a infraestrutura e a gestão ambiental que tornariam a obra viável e repetível.

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