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Nova análise das latrinas da Muralha de Adriano revela que soldados romanos sofriam de parasitas intestinais há 1.800 anos.

Pessoa com luvas azuis analisa amostra de solo em frasco junto a microscópio, ao ar livre, com ruínas ao fundo.

O vento atinge-te primeiro na Muralha de Adriano. Aquele golpe cortante, de lado, que atravessa um casaco e te lembra que esta fronteira romana nunca foi construída para conforto. Depois, mesmo ao lado das ruínas de pedra de casernas e portões, reparas em algo menos glorioso do que legiões em marcha e armaduras a brilhar: os restos de latrinas comunitárias, alinhadas como um eco de pedra do quotidiano.

Os turistas passam, telemóveis erguidos em direção ao horizonte, mal lançando um olhar às paredes baixas que em tempos emolduraram as casas de banho de um império. No entanto, é aqui que os arqueólogos voltaram, peneirando lodo, cinza e terra com séculos de idade.

O que estão a encontrar diz mais sobre a vida real dos soldados romanos do que qualquer estátua ou espada.

E tudo começa no intestino.

O que as casas de banho romanas na orla do império nos estão, de repente, a dizer

Num dia frio de escavações perto do forte de Vindolanda, a sul da Muralha de Adriano, os investigadores ajoelham-se sobre um solo escuro e húmido dentro do que em tempos foi um bloco de latrinas. Não há mosaicos aqui. Apenas uma vala rasa, um banco de pedra gasto e um canal por onde outrora corria água fria sob uma fila de homens a usar a latrina ombro a ombro.

Sob as talochas, a terra revela pequenas formas ovais. Invisíveis a olho nu, claríssimas ao microscópio. Ovos de vermes intestinais, congelados no tempo há 1.800 anos.

A nova análise destas latrinas mostra que os soldados romanos na fronteira norte da Britânia estavam infestados de parasitas intestinais. Tricuríase. Ascaridíase. Possivelmente ténia. Passageiros indesejados que provocam cólicas, fadiga crónica e uma luta constante com a casa de banho.

Os especialistas isolaram ovos de parasitas preservados nas camadas húmidas e pobres em oxigénio do antigo lixo de latrina. Lavaram, peneiraram e analisaram amostras, contando ovo após ovo. A densidade era surpreendente. Algumas camadas estavam tão carregadas que sugere que quase todos os soldados que usavam aquelas latrinas tinham vermes.

Os arqueólogos pensam agora que os parasitas estavam entranhados na vida diária na Muralha tão firmemente como botas, escudos e rações. As latrinas deveriam ser um sinal de higiene e ordem romanas, mas tornaram-se reservatórios perfeitos de infeção. Os soldados sentavam-se juntos em bancos partilhados, lavavam-se com a mesma água, usavam as mesmas esponjas em paus - e depois voltavam às casernas para partilhar comida, beliches e ar interior abafado.

À distância, a Muralha de Adriano parece pedra dura e disciplina. De perto, pela lente destas latrinas, parece um exército a combater silenciosamente o próprio intestino.

Porque é que um império obcecado por banhos ainda vivia com vermes

Um dos pormenores mais marcantes desta investigação é como a “tecnologia de higiene” romana pode ter piorado as coisas. As latrinas nos fortes ao longo da Muralha de Adriano eram sofisticadas para a época: revestidas a pedra, com água corrente e canais de drenagem que levavam os resíduos para longe. Os soldados sentavam-se em bancos compridos, ombro a ombro, sobre uma calha aberta. Por baixo, a água corria continuamente, arrastando os dejetos.

No papel, parece avançado. Na prática, provavelmente transformava-se numa sopa de movimento lento de ovos de parasitas, pronta a ser salpicada, espalhada e reintroduzida no quotidiano.

Os investigadores apontam para a famosa esponja comunitária num pau, o tersorium, como um culpado silencioso. Em vez de pilhas de papel higiénico, os soldados talvez enxaguassem uma esponja partilhada no mesmo canal de água usado para enxaguar os resíduos. Imagina uma manhã movimentada, trinta homens com pressa, todos a pegar no mesmo utensílio, a mergulhá-lo de novo em água contaminada, a limpar-se e a repetir.

Os ovos de vermes intestinais são resistentes. Podem agarrar-se a superfícies, manter-se viáveis na água e sobreviver muito tempo em lodo húmido de latrina. Cada enxaguamento, cada salpico, era mais uma oportunidade para os ovos irem parar às mãos, à comida, às barbas, ao pão áspero que os soldados rasgavam nas casernas.

O enigma é que este era um império orgulhoso das suas termas, aquedutos e sistemas de esgotos. Contudo, a evidência de parasitas mostra que banhos em massa não eram o mesmo que higiene moderna. As casas de banho quentes perto dos fortes podiam ter-se tornado centros de troca de parasitas, sobretudo se águas residuais se misturassem com o escoamento das latrinas.

Sejamos honestos: ninguém lavava as mãos com sabão todos os dias. A água limpa circulava por canos e canais, mas não havia teoria dos germes, nem noção de que organismos invisíveis se escondiam no que parecia apenas sujidade normal. Assim, os mesmos sistemas que pareciam progresso - latrinas comunitárias, água corrente, esponjas partilhadas - ajudavam discretamente os vermes a circular nas fileiras, ano após ano.

Dos intestinos romanos às nossas casas de banho: o que isto diz sobre nós

O método por trás desta nova análise é, à primeira vista, estranhamente simples. Os arqueólogos recolhem blocos de sedimento das zonas de latrina, por vezes do tamanho de um tijolo, por vezes apenas alguns punhados. No laboratório, a terra é mergulhada em água, desfeita suavemente e depois passada por uma série de peneiros. O que parecia lama torna-se um resíduo denso e filtrado, cheio de vestígios microscópicos de vidas passadas.

Ao microscópio, os especialistas observam lâmina após lâmina, à procura de formas distintas. Os ovos de parasitas são como impressões digitais: cada espécie tem o seu tamanho e padrão.

Quando ampliamos, a história que surge é estranhamente íntima. Talvez um centurião tenha passado noites de inverno dobrado com cólicas, a achar que só tinha comido cereal estragado. Talvez um jovem recruta, recém-chegado de uma aldeia rural, trouxesse vermes desde a infância, apenas para os espalhar nas casernas apinhadas.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que o corpo tenta dizer-te que algo está errado e tu simplesmente aguentas porque o trabalho tem de ser feito. Os soldados romanos faziam isso sem forma de compreender o que vivia dentro deles. Entretanto, a latrina tornava-se uma espécie de ponto de encontro silencioso para parasitas de todos os cantos do império.

A análise obriga-nos a repensar o que “civilizado” significava no mundo antigo. Latrinas e banhos de pedra limpos davam uma sensação de ordem e controlo, mas o ciclo básico de contaminação - fezes para a água, água para as mãos, mãos para a boca - permanecia intacto.

“Pode-se caminhar ao longo da Muralha de Adriano e sentir o poder de Roma, mas quando se estudam as latrinas, encontra-se a vulnerabilidade dos soldados”, explicou um arqueólogo envolvido neste tipo de trabalho.

  • As latrinas romanas não eram espaços individuais e privados - eram bancos compridos, lado a lado, o que incentivava a contaminação cruzada constante.
  • A esponja partilhada, enxaguada em água contaminada, transformava uma ideia engenhosa num sistema de entrega de parasitas.
  • As condições frias e húmidas da fronteira preservaram os ovos de parasitas na perfeição, dando aos cientistas modernos uma janela invulgarmente nítida para a saúde intestinal antiga.
  • Achados de ovos de tricurídeos e de áscaris sugerem irritação intestinal constante, anemia e desempenho físico reduzido entre as tropas.
  • Estes vestígios microscópicos humanizam a Muralha mais do que qualquer inscrição legionária ou altar esculpido alguma vez poderia.

A fronteira entre então e agora é mais fina do que pensamos

Ao caminhar hoje pela Muralha de Adriano, é fácil focarmo-nos no drama: os extensos charnecos, a linha quebrada de pedra a cortar colinas, a ideia de Roma a enfrentar “bárbaros” a partir de mil postos de vigia. Mas, sob as tuas botas, há outra história, guardada nos cantos escuros e húmidos onde os soldados iam aliviar-se e murmuravam piadas que nenhum historiador registou.

A nova análise destas latrinas não acrescenta apenas uma nota de rodapé sobre vermes. Aproxima-nos da rotina diária de corpos sob tensão - corpos que marchavam de armadura, faziam sentinela em noites geladas e viviam com um desconforto intestinal constante que mal compreendiam.

Há um estranho conforto em saber que, mesmo no limite de um império poderoso, a vida era confusa, permeável e cheia de problemas microscópicos que ninguém conseguia ver. Os soldados romanos tinham engenharia, disciplina e muralhas de pedra, mas não tinham dispensadores de sabão no lavatório nem um conceito de agentes patogénicos invisíveis. Nós, por outro lado, temos essas coisas - e, ainda assim, saltamos a higiene básica mais vezes do que gostamos de admitir.

A verdade simples é que o progresso raramente é tão limpo como o imaginamos. A Muralha foi simultaneamente um triunfo do poder romano e uma longa, desconfortável sala de espera para homens a combaterem os próprios intestinos.

Da próxima vez que deslizares por uma reconstrução brilhante da vida romana - armaduras reluzentes, estradas perfeitas, poses heroicas - lembra-te das latrinas escondidas mesmo fora do enquadramento. Lembra-te dos ovos de parasitas, preservados em silêncio durante 1.800 anos, agora a sussurrarem a sua versão da história.

Esses soldados não deixaram selfies, notas de voz nem blogues de saúde. Deixaram camadas de resíduos compactados no solo frio do norte. E, nesse arquivo nada glamoroso, vemos uma tensão familiar: sistemas brilhantes construídos sobre conhecimento incompleto, conforto enredado com risco e uma vida quotidiana em que os verdadeiros inimigos nem sempre estavam do outro lado da Muralha, mas por vezes bem dentro do corpo.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Os soldados romanos estavam fortemente parasitados A análise microscópica das latrinas da Muralha de Adriano revela níveis elevados de ovos de tricurídeos e de áscaris Oferece um retrato mais realista da vida militar antiga para lá da imagem heroica
Os sistemas de higiene romanos tinham falhas ocultas Bancos comunitários, esponjas partilhadas e água contaminada espalhavam parasitas apesar da engenharia avançada Leva a refletir sobre como sistemas “modernos” podem falhar sem compreensão dos germes
As latrinas são arquivos históricos poderosos Camadas de resíduos preservados guardam vestígios microscópicos de saúde, dieta e rotinas diárias Mostra como provas pouco glamorosas podem mudar completamente a nossa visão do passado

FAQ:

  • Pergunta 1 O que é que os cientistas encontraram exatamente nas latrinas da Muralha de Adriano?
  • Resposta 1 Encontraram ovos microscópicos de parasitas intestinais - sobretudo tricurídeos e áscaris - preservados em sedimentos antigos de latrina, indicando infeções intestinais generalizadas entre os soldados romanos.

  • Pergunta 2 Como podem os ovos de parasitas sobreviver durante 1.800 anos?

  • Resposta 2 Em condições frias, húmidas e com pouco oxigénio, como as de fossas de latrina enterradas, os ovos podem mineralizar-se e persistir como minúsculos fósseis, permitindo aos especialistas identificar a espécie ao microscópio muito depois de deixarem de estar biologicamente ativos.

  • Pergunta 3 Os soldados romanos sabiam que estavam infetados?

  • Resposta 3 Provavelmente notavam sintomas - dores de estômago, diarreia, fadiga - mas não tinham noção de vermes microscópicos. Muitos culpariam comida estragada, o frio ou os “humores”, em vez de parasitas.

  • Pergunta 4 As latrinas romanas eram mais higiénicas do que as sanitas anteriores?

  • Resposta 4 Eram mais “engenheiradas” - bancos de pedra, canais de drenagem, água corrente - mas, sem conhecimento de germes ou de higiene pessoal, esses mesmos sistemas podiam, na prática, reciclar a contaminação pela comunidade.

  • Pergunta 5 O que é que esta investigação muda na nossa visão da Muralha de Adriano?

  • Resposta 5 Desloca o foco de um monumento puramente militar para um ambiente vivido, onde os soldados lidavam com problemas de saúde crónicos, lembrando-nos que mesmo exércitos de elite eram feitos de corpos vulneráveis e muito humanos.

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