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Reformado ganha 71,5 milhões na lotaria, mas perde tudo uma semana depois por causa de uma aplicação.

Pessoa com telemóvel na mão, olhando um papel com senha. No fundo, há um portátil e uma caixa fechada.

O dinheiro caiu na conta numa terça-feira de manhã tranquila. Uma linha minúscula numa app bancária, um número tão comprido que ele contou os zeros três vezes, com os óculos a escorregarem-lhe pelo nariz. Aos 68 anos, este carteiro reformado de uma pequena cidade europeia acabara de ganhar 71,5 milhões de euros na lotaria.

Durante algumas horas, a vida dele transformou-se em algo saído de um anúncio de televisão. As chamadas, as lágrimas, o planeamento de sonhos modestos: pagar as hipotecas dos filhos, renovar a casa, comprar aquela velha carrinha-casa que sempre quisera.

Depois veio a notificação da app. Um ecrã bloqueado. Um pedido para “confirmar a sua identidade”. E, em poucos dias, o milagre transformou-se num pesadelo.

Tudo desapareceu.

Um jackpot de sonho, uma semana devastadora

Nunca tinha sido rico e, sinceramente, nunca desejara muito sê-lo. Jogava na lotaria por hábito, como milhões de reformados que assinalam quadradinhos num boletim enquanto compram pão ou tabaco. Durante anos, nada além de uns euros aqui e ali. Até que um dia aconteceu o impossível: saíram todos os números dele.

O operador oficial da lotaria confirmou o prémio. Os funcionários do banco sorriram um pouco mais do que o habitual. Os filhos adultos tentaram manter a calma, mas os olhos vermelhos denunciavam uma noite em branco de “e se”. O velho repetia o valor, quase a sussurrar. Setenta e um vírgula cinco milhões. Uma vida de trabalho multiplicada num segundo.

Os problemas começaram quando ele fez o que todos fazemos hoje: pegou no telemóvel. O banco enviou uma mensagem sobre “proteger o acesso” à sua conta. Pelo menos, foi isso que ele pensou. Um link, um logótipo muito oficial, as mesmas cores, o mesmo tom. Ele clicou.

A app fraudulenta parecia perfeita. O mesmo design da app bancária habitual, a mesma disposição, os mesmos botões verdes tranquilizadores. Inseriu o utilizador, o código, e depois um segundo código recebido por SMS “para validar o novo dispositivo”. Os burlões já lá estavam dentro. Quando o banco abriu na manhã seguinte, a maior parte dos 71,5 milhões de euros já tinha sido repartida por dezenas de contas em todo o mundo. Dinheiro desaparecido mais depressa do que chegou.

Sem assalto de cinema. Sem ladrões mascarados. Apenas um reformado, um smartphone e “engenheiros sociais” que sabiam exactamente como as pessoas se comportam quando ficam esmagadas pelas emoções. Sob o choque de um prémio destes, a vigilância dele baixou. Não se espera perigo no mesmo instante em que se recebe um presente único na vida.

Os especialistas falam de “sobrecarga cognitiva”: demasiadas emoções, demasiadas decisões ao mesmo tempo. Euforia, medo, culpa, exaltação. Nesse estado, uma app falsa bem desenhada atravessa as defesas mentais como faca quente em manteiga. A ironia cruel é que a tecnologia criada para simplificar o acesso ao nosso dinheiro também simplificou o acesso para os criminosos.

Os pequenos gestos que protegem somas enormes

A primeira coisa que ele deveria ter feito soa quase antiquada: ir ao balcão, pessoalmente, e falar com um ser humano. Quando uma quantia muito grande entra numa conta, o reflexo mais seguro é congelar a situação, em vez de apressar decisões num ecrã. Nada de cliques rápidos, nada de links, nada de actualizações “urgentes”.

Há um método concreto que ajuda: criar já uma regra pessoal, antes de acontecer alguma coisa. Perante qualquer evento financeiro inesperado (herança, grande transferência, prémio de lotaria), decidir que só vai agir ligando para o número oficial impresso no verso do cartão bancário ou indo ao balcão. Não o número de um e-mail, não o número dentro de uma mensagem - apenas o que está fisicamente na sua carteira.

Os reformados mais visados por estas burlas não são “ingénuos”. São pessoas confiantes, cansadas de burocracias e muitas vezes um pouco envergonhadas por não dominarem todas as actualizações das apps. Os burlões sabem isso e carregam exactamente nessa insegurança. Jogam com uma urgência falsa: “valide em 5 minutos ou a sua conta será bloqueada”, “novo protocolo de segurança”, “fraude detectada no seu cartão”.

Sejamos honestos: ninguém lê todos os e-mails de segurança ou notificações linha a linha. Fazemos leitura rápida, tocamos no ecrã, aceitamos “tudo” só para despachar o pop-up. É aí que vive a armadilha. Um hábito simples ajuda: qualquer mensagem que misture dinheiro + urgência + link é suspeita por defeito. Abrande, respire e mude de dispositivo. Ligue de outro telefone, use um computador que controla, ou fale com alguém da sua confiança antes de tocar em seja o que for.

“Os burlões não pirateiam primeiro os sistemas dos bancos; pirateiam a atenção humana”, explica um agente de cibercrime com quem falei. “Um grande prémio, um divórcio, um despedimento, uma morte na família… o choque emocional é a abertura favorita deles.”

  • Nunca instale uma app financeira a partir de um link num SMS ou e-mail. Vá directamente à loja oficial de aplicações e procure você mesmo o banco ou o operador de lotaria.
  • Separe somas grandes numa conta à parte, apenas de leitura durante alguns dias. Peça ao seu banco um bloqueio temporário ou a exigência de dupla assinatura antes de qualquer transferência.
  • Partilhe regras de acesso com uma pessoa de confiança: um filho, um amigo, um advogado. Não para gerir o seu dinheiro, mas para ser um segundo par de olhos quando aparece uma mensagem estranha.

O que esta história realmente diz sobre nós e o nosso dinheiro

A perda deste reformado gerou raiva e pena, mas também um desconforto silencioso. Porque, por trás do título sensacionalista, está uma verdade mais comum: o fosso entre a velocidade das finanças digitais e o ritmo mais lento do cérebro humano. Recebemos notificações ao ritmo do high-frequency trading, mas processamos o medo e a alegria ao ritmo de uma conversa na cozinha.

A tragédia dele é extrema, mas o mecanismo é familiar. Todos já passámos por aquele momento em que um ecrã exige uma decisão rápida e nós clicamos sem perceber totalmente. Para ele, as consequências foram colossais. Para a maioria de nós, é uma quantia menor, uma subscrição que não queríamos, uma app duvidosa cuja instalação depois lamentamos.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Abrande após choques financeiros Congele contas; evite agir com base em links ou notificações durante picos emocionais Reduz o risco de cliques impulsivos e manipulação
Use verificação “offline” Ligue para números oficiais em documentos físicos ou visite um balcão Contorna apps falsas, sites clonados e links de phishing
Prepare hábitos com antecedência Regras pessoais: nada de instalar apps por links; segunda opinião em decisões grandes Torna as reacções seguras automáticas quando o stress aparece

FAQ:

  • Pergunta 1 É mesmo possível um vencedor da lotaria perder todo o dinheiro por causa de uma app?
  • Resposta 1 Sim. Se um burlão obtiver acesso total ao online banking ou à conta da lotaria através de uma app falsa ou de phishing, pode iniciar transferências massivas antes de o banco ou a vítima reagirem.
  • Pergunta 2 Como posso perceber se uma app de banco ou de lotaria é falsa?
  • Resposta 2 Instale sempre as apps pesquisando o nome do seu banco ou da lotaria na loja oficial de aplicações. Evite apps que cheguem por links, tenham nomes estranhos do editor, poucos downloads ou avaliações fracas.
  • Pergunta 3 Os bancos são obrigados a reembolsar as vítimas neste tipo de burla?
  • Resposta 3 Depende do país e de o banco conseguir provar “negligência grave”. Se o cliente forneceu voluntariamente códigos e confirmou transferências, o reembolso é muitas vezes contestado.
  • Pergunta 4 O que devo fazer se cliquei num link suspeito?
  • Resposta 4 Ligue imediatamente para o seu banco através do número oficial, altere as palavras-passe a partir de outro dispositivo e peça um bloqueio temporário ou monitorização das suas contas.
  • Pergunta 5 É mais seguro evitar por completo as apps bancárias?
  • Resposta 5 Não necessariamente. As apps oficiais dos bancos usam segurança forte e podem ser mais seguras do que e-mail ou SMS. O risco real vem das apps falsas e dos links, não das ferramentas legítimas em si.

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