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Adeus, fritadeira de ar. O novo aparelho 9 em 1 é adorado por influencers, mas muitos cozinheiros caseiros furiosos consideram-no uma fraude para preguiçosos.

Pessoa a cozinhar numa frigideira ao fogão, seguindo uma receita no telemóvel; fritadeira de ar ao lado.

Numas terça-feira chuvosa à noite, num minúsculo apartamento em Londres, a fritadeira de ar está exilada em cima do frigorífico, com o cesto outrora brilhante coberto de migalhas teimosas. Em cima da bancada, um novíssimo “cozinheiro inteligente” nove-em-um zune alto, a percorrer mais um modo pré-definido. A dona, uma designer gráfica cansada que percorre o TikTok entre e-mails, jura que isto lhe vai “mudar a vida”. Um aparelho para assar, cozer a vapor, fazer bolos, cozinhar lentamente, desidratar, saltear, cozinhar sob pressão, reaquecer e fritar a ar. Uma única caixa prateada a prometer o fim dos jantares caóticos e das tristes refeições de take-away.
Depois, o parceiro entra, fixa o olhar no cubo volumoso que engole metade da área de trabalho e murmura: “Isso não é cozinhar. Isso é batota.”
Alguma coisa está a mudar nas nossas cozinhas - e há gente a ficar furiosa.

De herói da fritadeira de ar a excesso nove-em-um

A história de amor com a fritadeira de ar era simples. Pequena, barata, quase querida, entrou nas nossas vidas como a forma sem culpa de deixar batatas fritas congeladas e pizza do dia anterior estaladiças sem ligar o forno. Parecia um atalho simpático.
O novo gadget nove-em-um não é querido. É grande, mandão e está em todo o lado, empurrado por influenciadores que juram que “já nem tocam no fogão”. Para os profissionais de marketing das marcas, é um sonho. Para muitos cozinheiros caseiros, a ver os seus feeds a encherem-se de reels patrocinados, começa a parecer um pesadelo.

Passe pelo Instagram ou pelo TikTok e vai vê-lo: panelas brilhantes de butter chicken “de uma só panela”, costelas que “se soltam do osso em 23 minutos”, brownies que “é só meter e esquecer”. Influenciadores debitam as funções a alta velocidade, a tocar no ecrã digital como apresentadores de um concurso.
Depois chega aos comentários. É aí que vive a fúria. Pessoas a chamarem-lhe “um esquema para preguiçosos”, a revirarem os olhos aos preços, a partilharem fotos de tampas partidas e frango mal cozinhado. Uma mulher escreveu que esperou 45 minutos por “legumes assados” que saíram moles e deprimentes. Esse vídeo ainda assim chegou a 2,3 milhões de visualizações.

O que se passa é maior do que um único gadget. Estamos a ver um choque entre duas ideias de cozinhar. De um lado, o grupo da conveniência: pais a fazer turnos nocturnos, estudantes com uma única placa eléctrica, inquilinos com fornos sem salvação, pessoas com fadiga crónica que só querem jantar sem colapsar. Do outro, quem vê a cozinha como ofício, ritual diário, competência que vale a pena defender da cultura do “carrega no botão”.
Por baixo do ruído do marketing está uma verdade simples que ninguém põe nos anúncios: sejamos honestos - ninguém faz isto tudo todos os dias.

A mecânica discreta da revolução nove-em-um

Tire a espuma e o gadget nove-em-um é, no fundo, uma panela de pressão, panela de cozedura lenta, vaporizador, mini-forno e fritadeira de ar enfiados numa caixa pesada. A promessa é clara: menos tralha, menos tempo, menos loiça. Deita os ingredientes, escolhe um programa, afasta-te.
Para quem chega a casa às 20h30 e mesmo assim quer algo quente e vagamente saudável, isso não é preguiça - é sobrevivência. O aparelho apenas transforma essa sensação num produto, com ecrã tátil brilhante e bips sonoros.

A armadilha começa quando esperamos que esta caixa substitua o julgamento real. Os influenciadores cozinham muitas vezes com ingredientes perfeitos, luz perfeita e, francamente, edição perfeita. Não se vê o frango seco da primeira tentativa nem a massa empapada que colou ao fundo.
Muitos comentários furiosos vêm de pessoas que seguiram um reel à risca e acabaram com uma panela de papa. Não cozinharam mal; confiaram no “pré-programa de risoto” como se fosse evangelho. Quando o jantar falha duas vezes seguidas, não parece erro do utilizador - parece que lhe venderam um sonho que nunca encaixou bem na sua vida.

Há também uma picada social nesta nova vaga de tecnologia de cozinha. Para cozinheiros mais velhos, que passaram anos a aprender a ler um fervilhar ou a sentir quando um bife está no ponto, ver alguém de 19 anos a tocar em “CARNE – MÉDIO” num ecrã luminoso pode soar quase a insulto. Transforma o que eles vêem como saber-fazer num botão.
A fricção cresce dentro de casa também. Um parceiro entusiasmado por atirar tudo para a panela inteligente; o outro a revirar os olhos e a dizer: “já nem sabes cortar uma cebola.” O gadget torna-se um árbitro silencioso de quem “faz como deve ser” e quem “faz batota”. Não é a melhor energia para uma divisão que supostamente cheira a alho e paz.

Como usar o nove-em-um sem se tornar seu servo

Há um caminho do meio, silencioso, entre atirar o gadget pela janela e transformar o fogão numa prateleira de arrumação. Começa por tratar o nove-em-um como uma ferramenta, não como um portal mágico. Escolha duas ou três coisas que ele faz melhor do que o seu equipamento habitual e fique por aí.
Muitos cozinheiros ocupados usam-no quase exclusivamente para feijão, guisados e cozinhar cereais em lote. Só isso. Nada de cheesecakes, nada de “lasanha de uma panela” - apenas atalhos com evidência que poupam dinheiro, tempo e neurónios.

O maior erro que as pessoas cometem é correr atrás de cada receita da moda no minuto em que aparece. Esses clips de “isto mudou a minha vida” são muitas vezes filmados à quinta tentativa, depois de três jantares falhados e uma ida ao supermercado que ninguém lhe vai reembolsar.
Se a sua cozinha é minúscula ou o orçamento apertado, teste primeiro um prato fiável: sopa, chili, lentilhas. Repita algumas vezes. Ajuste o líquido, brinque com os tempos, aprenda como a libertação de vapor se comporta no seu espaço. Quando confiar numa receita, tudo o resto deixa de parecer roleta e passa a ser afinação.

“A máquina não é preguiçosa”, diz Marta, enfermeira de 43 anos que jura pelo seu nove-em-um para turnos das 5 da manhã. “Deixa-me ser preguiçosa nas partes aborrecidas, para eu poder continuar presente com os meus filhos ao jantar. Não estou a tentar impressionar um blogue de comida. Só estou a tentar não chorar em cima de uma tábua de cortar.”

  • Use os pré-programas como pistas, não como mandamentos
    Trate os programas incorporados como pontos de partida. Tome nota do que funcionou para a sua panela, os seus ingredientes, a sua altitude, as suas papilas gustativas.
  • Guarde uma noite de “cozinha a sério” por semana
    Faça algo no forno. Mexa um risoto. Aloure cebola lentamente numa frigideira. Reconecta-o ao calor e à textura, não apenas a temporizadores e bips.
  • Decida o que não quer terceirizar
    Talvez adore selar bifes. Ou bater molhos. Ou cortar legumes à mão. Proteja esse ritual dos gadgets e das tendências.

Isto é mesmo sobre preguiça - ou sobre quem define o que é “cozinhar a sério”?

A fúria à volta do gadget nove-em-um não é só sobre bancadas entupidas e receitas falhadas da internet. É sobre orgulho, tempo, classe - e até exaustão. Quando alguém lhe chama “um esquema para preguiçosos”, muitas vezes não está a pensar na mãe solteira que reaquece sobras às 21h. Está a imaginar um influenciador que nunca pega numa frigideira.
Ainda assim, ambos existem. A cozinha ultra-patrocinada que trata comida como conteúdo. E o estúdio apertado onde esta caixa prateada barulhenta é o primeiro aparelho que não queima tudo. Qual deles lhe parece mais próximo provavelmente diz mais sobre a sua vida do que sobre a máquina.

Há também uma vergonha silenciosa colada aos atalhos. As pessoas confessam em voz baixa que “fizeram batota” por usarem uma mistura, ou admitem que deixaram o gadget tratar do arroz enquanto respondiam a e-mails. Como se o jantar só contasse quando suou cada passo. Como se o tempo não fosse o ingrediente que a todos nos está a faltar.
Talvez a verdadeira pergunta não seja “fritadeira de ar ou nove-em-um?”, mas “que parte de cozinhar gosta mesmo o suficiente para continuar a fazer à mão?” A resposta será diferente em cada cozinha, em cada corpo, em cada salário.

Esta nova geração de gadgets tudo-em-um vai continuar a chegar, mais brilhante e mais faladora todos os anos. Alguns vão avariar cedo. Outros vão tornar-se discretamente a coisa mais usada que tem. O truque é recusar que eles definam o seu valor como cozinheiro, como pai/mãe, ou como pessoa que voltou a comer torradas ao lado do lava-loiça porque o dia simplesmente se escapou.
Se baniu a sua fritadeira de ar e voltou a enfiar o nove-em-um na caixa, não está sozinho. Se adora o seu em segredo e se sente julgado, também não está sozinho. Da próxima vez que um influenciador prometer que mais um botão vai consertar a sua vida, talvez pare, olhe para a sua frigideira e pergunte a si mesmo em que tipo de cozinha quer, de facto, viver.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O nove-em-um é uma ferramenta, não um milagre Funciona melhor para usos limitados e repetidos, como guisados, feijão e cozinhar em lote Ajuda a evitar desilusão e dinheiro desperdiçado, ao definir expectativas realistas
Hype de influenciadores vs cozinhas da vida real Conteúdo patrocinado esconde tentativas falhadas, orçamentos e níveis de energia diferentes Dá permissão para adaptar receitas à própria realidade em vez de copiar tendências às cegas
Redefinir o que é “cozinhar a sério” Atalhos não apagam a habilidade; libertam tempo para as partes de que gosta ou que valoriza Reduz culpa e polarização, incentivando uma forma mais pessoal e sustentável de cozinhar

FAQ:

  • Pergunta 1 O gadget nove-em-um é mesmo melhor do que uma fritadeira de ar?
  • Resposta 1 São criaturas diferentes. O nove-em-um é mais versátil, mas mais volumoso e mais lento a aquecer, enquanto a fritadeira de ar clássica é rápida, estaladiça e simples. Se faz sobretudo reaquecimentos ou “fritura falsa” de pequenas porções, a fritadeira de ar continua a ganhar.
  • Pergunta 2 Porque é que alguns cozinheiros caseiros lhe chamam um esquema?
  • Resposta 2 Porque o marketing muitas vezes promete demais. As pessoas esperam comida ao nível de restaurante sem curva de aprendizagem e depois sentem-se enganadas quando os resultados são medianos ou quando a máquina é difícil de limpar e arrumar.
  • Pergunta 3 Um nove-em-um consegue mesmo substituir o meu forno e fogão?
  • Resposta 3 Para básicos como guisados, arroz, sopas e alguns assados, sim, pode desenrascar. Para pastelaria estaladiça, frituras delicadas ou pratos que exigem controlo constante, a maioria das pessoas continua a recorrer a uma frigideira ou ao forno.
  • Pergunta 4 Usá-lo é cozinhar “à preguiçoso”?
  • Resposta 4 Usar tecnologia para poupar tempo ou energia não é preguiça - é priorização. A questão é se gosta do resultado e se isso de facto facilita a sua vida, não o que estranhos na internet pensam.
  • Pergunta 5 Como sei se vale a pena comprar para mim?
  • Resposta 5 Olhe para a sua semana, não para os anúncios. Se cozinha em grandes quantidades, tem pouco espaço, ou luta com tempo e energia, pode ajudar a sério. Se adora cozinhar com as mãos e já usa o fogão todos os dias, talvez só esteja a acrescentar mais uma caixa para ganhar pó.

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