Saltar para o conteúdo

Condutores seniores: as cartas de condução serão automaticamente retiradas após os 70 anos?

Homem idoso segura cartão de identificação enquanto conversa com mulher num escritório iluminado pelo sol.

Numa terça-feira cinzenta de manhã, a sala de espera do balcão de cartas de condução está estranhamente tensa. Hoje não há adolescentes a suar no primeiro exame, apenas cabelos prateados, bengalas dobradas debaixo das cadeiras, mãos apertadas sobre malas. Um homem nos primeiros setenta não pára de verificar o telemóvel, fingindo que não ouve quando uma mulher murmura à filha: “Se me tirarem a carta, como é que vou ver o teu pai ao lar?”

Os cartazes na parede mostram seniores sorridentes ao volante. Os rostos na sala não.

Lá fora, os carros avançam devagar, conduzidos por pessoas de todas as idades. Cá dentro, uma pergunta volta e meia regressa, quase sem ser dita: vão, em breve, começar a retirar automaticamente as cartas depois dos 70?

Os seniores são realmente “velhos demais” para conduzir aos 70?

Passeie por qualquer parque de estacionamento de um supermercado numa manhã de dia útil e verá a realidade discreta dos condutores seniores. Carros citadinos pequenos estacionados um pouco tortos, manobras cuidadosas, mais algum tempo para sair e trancar a porta. São essas pessoas que seriam atingidas primeiro por um corte automático da carta aos 70.

Para muitos, conduzir não é um luxo. É ir às compras, a consultas, ver os netos, manter um pouco de dignidade.

O debate parece abstrato na televisão, mas, no terreno, resume-se a uma pergunta simples: o que acontece à vida quotidiana quando a chave já não roda?

Veja-se o caso do Jean, 72, que ainda conduz todos os dias até à sua horta, nos limites da cidade. A visão já não é o que era, por isso evita conduzir à noite. Os reflexos são mais lentos, por isso deixa maior distância. Ele conhece os seus limites e ajusta os seus hábitos.

Viu uma reportagem na televisão a afirmar que “depois dos 70, as cartas podem ser retiradas automaticamente aos seniores”. Passou a noite em silêncio, a olhar para as chaves do carro em cima da mesa. No dia seguinte, fez as contas ao custo dos táxis até ao médico e até ao lar onde está a esposa. Os números não batiam certo.

Para ele, perder a carta não significa apenas perder mobilidade. Significa perder parte da sua identidade enquanto adulto capaz.

Os dados do trânsito traçam um quadro mais matizado do que as manchetes. Os condutores jovens, sobretudo com menos de 25 anos, estão sobrerepresentados em acidentes graves, muitas vezes envolvendo velocidade, álcool ou distração. Os condutores com mais de 70 aparecem com mais frequência em certos tipos de colisões, especialmente em cruzamentos ou durante manobras complexas, mas também conduzem menos quilómetros e a velocidades mais baixas.

Quando se compara o risco por quilómetro, os seniores são mais vulneráveis do que os condutores de meia-idade mais experientes, mas estão longe de ser a “bomba-relógio” que alguns políticos descrevem. A idade, por si só, não equivale a perigo.

Um adulto saudável e prudente de 75 anos que conduz ocasionalmente em estradas familiares não é o mesmo que alguém de 82 com declínio cognitivo avançado a entrar numa autoestrada à noite. Os legisladores sabem isto. A questão é: deve a lei tratá-los da mesma forma?

O que acontece realmente aos 70, 75 ou 80 ao volante?

Há uma forma simples e prática de olhar para isto: esqueça o número no bolo de aniversário e olhe para os seus hábitos de condução. Comece por listar as situações em que já se sente inseguro: condução noturna, chuva intensa, rotundas muito movimentadas, marcha-atrás em ruas estreitas. Essa lista diz-lhe mais do que o seu ano de nascimento.

Depois faça pequenas alterações concretas. Conduza de dia, evite o trânsito das horas de ponta, escolha percursos com menos cruzamentos complexos, dê a si próprio mais tempo. Isto não é desistir. É adaptar-se.

Muitos seniores que se mantêm seguros na estrada têm algo em comum: mudam discretamente a forma como conduzem muito antes de alguém lhes pedir.

A maior armadilha para as famílias é a abordagem do “tudo ou nada”. Ou “a avó conduz como sempre” ou “a avó tem de parar de conduzir já”. A vida real é mais confusa.

Uma filha pode ficar preocupada com o pai de 78 anos depois de um pequeno toque ao estacionar. Ele sente-se humilhado, ela sente medo, ninguém sabe o que dizer. E saltam logo para a opção nuclear: entregar as chaves para sempre. A conversa explode. As pessoas deixam de falar durante semanas.

No entanto, o meio-termo é amplo. Limitar a condução a estradas locais. Recusar viagens à noite. Acordar uma consulta médica ou uma avaliação de condução com um instrutor. Sejamos honestos: quase ninguém faz isto todos os dias. Mas quem consegue conversar cedo e com delicadeza quase sempre evita o precipício abrupto.

“Retirar todas as cartas aos 70 seria administrativamente simples e humanamente brutal”, diz um médico de segurança rodoviária que trabalha regularmente com condutores mais velhos. “A verdadeira questão não é a idade, é a aptidão. Saúde cognitiva, visão, medicação, tempo de reação. Alguns com 68 anos não estão aptos a conduzir, alguns com 82 continuam lúcidos e cuidadosos.”

  • Esteja atento aos sinais de aviso
    Pequenos toques repetidos, novos riscos, perder-se em trajetos familiares, ignorar sinais de STOP, dificuldade em avaliar distâncias.
  • Fale antes de haver uma crise
    Uma conversa calma após um “quase” é mais fácil do que uma discussão depois de um acidente grave.
  • Use profissionais como aliados
    Médico de família, oftalmologistas e instrutores de condução podem dar opiniões neutras que soam menos emocionais do que críticas da família.
  • Teste alternativas com antecedência
    Experimente o autocarro, transportes comunitários, boleias com vizinhos, entregas de compras, antes de a carta estar em risco.
  • Mantenha algum controlo
    Alguns seniores aceitam deixar de ir à autoestrada se puderem manter pequenas deslocações locais. Esse compromisso pode salvar relações - e aumentar a segurança.

Entre segurança e dignidade: onde deve estar a linha?

A pergunta crua por trás de “remoção automática da carta aos 70” é esta: até onde estamos dispostos a ir em nome da segurança rodoviária, e a que custo para a liberdade pessoal? Para muitos condutores mais velhos, o carro é o último território que ainda dominam por completo. Em casa, os filhos assumiram o computador, as aplicações bancárias, até o comando da televisão. O volante ainda é deles.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que vemos um condutor idoso hesitar num cruzamento e sentimos uma mistura de medo e ternura. Imaginamos os nossos pais. Imaginamo-nos a nós próprios.

O debate público oscila muitas vezes entre “Os seniores são um perigo e têm de ser travados” e “Os seniores têm os mesmos direitos que toda a gente”. A realidade está no meio desconfortável. A segurança importa. A dignidade também.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A idade não é o único fator A condição médica, a medicação, a visão e os reflexos contam mais do que um limite fixo de aniversário. Ajuda a defender avaliações justas, caso a caso, em vez de proibições gerais.
Condução adaptada prolonga a autonomia Limitar viagens noturnas, evitar percursos complexos e vigiar a saúde regularmente preserva anos de condução segura. Oferece formas concretas de manter mobilidade por mais tempo sem negar o risco.
Conversas precoces evitam conflitos Falar antes de incidentes graves permite mudanças graduais e decisões partilhadas. Reduz tensões familiares e protege relações, mantendo a atenção na segurança.

FAQ:

  • Pergunta 1 A minha carta de condução será retirada automaticamente quando fizer 70 anos?
  • Resposta 1
    Na maioria dos países, neste momento, não existe uma retirada automática e universal da carta aos 70. Em alguns locais, exigem-se exames médicos mais frequentes ou renovações mais regulares após certa idade, por exemplo, de 3 em 3 ou de 5 em 5 anos, em vez de 10 em 10. Outras regiões dependem mais de relatórios médicos, alertas da família ou notificações da polícia após incidentes. A tendência em muitos governos é para um acompanhamento mais apertado dos condutores mais velhos, mas não para uma regra simples de “corte aos 70”.

  • Pergunta 2 Como sei se ainda conduzo em segurança sendo sénior?

  • Resposta 2
    Faça a si próprio algumas perguntas honestas: evita conduzir à noite porque não vê bem? É apanhado de surpresa com mais frequência por peões ou ciclistas? Sente-se sobrecarregado em rotundas movimentadas ou em estradas com várias vias? Se a resposta for sim, isso não significa automaticamente que tenha de parar, mas é um sinal para adaptar a sua condução e falar com o seu médico ou com um instrutor para uma avaliação.

  • Pergunta 3 O meu médico pode denunciar-me e conseguir que a minha carta seja suspensa?

  • Resposta 3
    Depende da lei do seu país. Em alguns sítios, os médicos podem - ou até são obrigados a - informar as autoridades se um doente apresenta claramente um risco elevado na estrada devido a uma condição médica (como demência grave, epilepsia não controlada ou perda significativa de visão). Muitos médicos tentam primeiro trabalhar com o doente e a família, sugerindo limites ou suspensão voluntária em vez de avançarem diretamente para um relatório oficial.

  • Pergunta 4 O que podem as famílias fazer se acharem que um familiar mais velho já não devia conduzir?

  • Resposta 4
    Saltar imediatamente para “Tem de parar” muitas vezes dá mau resultado. Comece com exemplos específicos e recentes: uma viragem no sentido errado, um “quase” acidente, novos riscos no carro. Proponha um check-up médico, um teste de visão, ou uma sessão com um instrutor de condução. Ofereça alternativas concretas: levá-lo ao supermercado uma vez por semana, partilhar uma conta de táxi via aplicação, verificar serviços locais de transporte para seniores. Por vezes, uma redução gradual e parcial é mais fácil de aceitar do que uma paragem total e súbita.

  • Pergunta 5 Há tecnologias que ajudem os seniores a conduzir em segurança durante mais tempo?

  • Resposta 5
    Sim. Os carros modernos têm sistemas de apoio: assistente de manutenção na faixa, travagem automática de emergência, alertas de ângulo morto, ecrãs maiores com navegação clara. Os smartphones podem avisar sobre trânsito ou cruzamentos difíceis. Algumas seguradoras até oferecem monitores de condução que dão feedback sobre velocidade e travagens. O objetivo não é substituir o julgamento, mas compensar um pouco reflexos mais lentos ou visão reduzida, e detetar quando o estilo de condução muda ao longo do tempo.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário