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Este futurólogo, depois de prever a Internet e o iPhone, acredita que a imortalidade estará ao nosso alcance em 5 anos.

Homem sentado à secretária, consulta o telemóvel enquanto aponta num caderno, com ampulheta e planta ao lado.

A primeira vez que se conhece Ray Kurzweil, o que impressiona não é o currículo - o diploma do MIT, as patentes, a Medalha Nacional de Tecnologia. É a forma como ele fala do futuro como se fosse já na próxima terça-feira. Está ali, sereno, a enumerar acontecimentos que mudam o mundo com a mesma naturalidade de quem planeia ir às compras. Recorda que previu publicamente a ascensão da Internet nos anos 1980, descreveu algo assustadoramente próximo do iPhone anos antes de Steve Jobs subir ao palco, e acertou vezes suficientes para inquietar até os céticos mais calejados.

Agora, o futurólogo de 76 anos está a empurrar para o centro das atenções uma nova ideia, quase indecente: a de que uma imortalidade funcional, ou algo muito próximo disso, poderá estar ao nosso alcance dentro de cinco anos.

Não para deuses. Não para personagens de ficção científica. Para nós.

De profecia selvagem a precisão inquietante

No final dos anos 1980, Kurzweil aparecia em programas de televisão e descrevia, com confiança, um mundo em que estaríamos todos ligados a uma rede global de computadores, a enviar mensagens instantaneamente, a trabalhar a partir de qualquer lugar. As pessoas sorriam por educação. Algumas riam. A palavra “ciberespaço” ainda soava a coisa de um mau guião de Hollywood.

Ele continuou a falar. Desenhava curvas em guardanapos, em quadros brancos, em ecrãs de conferências. Crescimento exponencial, sempre crescimento exponencial. Hoje, esses excertos vivem no YouTube e parecem menos entrevistas a um excêntrico e mais previsões com data e hora que, de facto, bateram certo.

O mesmo aconteceu com o smartphone. No seu livro de 1999, The Age of Spiritual Machines, descreveu um “dispositivo de mão” que permitiria navegar na web, ver vídeo, ler livros, orientar-se nas cidades e falar naturalmente com IA. Sem teclado, sobretudo ecrã. Na altura, o telemóvel mais “fixe” do mercado tinha uma antena retrátil e toques monofónicos.

Quando o primeiro iPhone foi lançado em 2007, as antigas previsões de Kurzweil reapareceram. Bloggers de tecnologia salientaram o quão perto ele tinha ficado. Ninguém acerta todos os detalhes, claro, mas ele viu claramente a direção da avalanche muito antes de a neve começar a mexer.

É por isso que a sua nova afirmação está a tocar num nervo tão exposto. Kurzweil diz agora que estamos a cerca de cinco anos de atingir a “velocidade de escape da longevidade” - o ponto em que o progresso médico e tecnológico prolonga a vida mais depressa do que nós envelhecemos. Em termos simples: por cada ano que vive, as terapias acrescentam mais de um ano ao tempo de vida restante.

Ele não está a falar de comprimidos mágicos que o transformam num jovem de 20 anos para sempre. Está a falar de um conjunto de avanços: edição genética, rejuvenescimento celular, nanobots na corrente sanguínea, tratamentos hiperpersonalizados. Em conjunto, isso poderia significar que morrer de envelhecimento passaria lentamente de certeza a variável.

O que “cinco anos até à imortalidade” significa na prática

Se tirarmos os títulos sensacionalistas, o que sobra é algo surpreendentemente metódico. Kurzweil divide o caminho até à imortalidade em etapas. A primeira é “manter-se vivo tempo suficiente para beneficiar das verdadeiras descobertas”. Isso implica pragmatismo duro: análises ao sangue, sono, alimentação, exercício, monitorizar tudo como um engenheiro a ler painéis de controlo.

Diz-se que toma dezenas de suplementos por dia, acompanha os seus biomarcadores e trata o próprio corpo como um projeto de longo prazo. Não uma “solução de fim de semana”, mas um plano de engenharia de 30 anos. Para ele, o primeiro grande marco não é nunca morrer. É chegar ao início da década de 2030 com um corpo ainda “atualizável”.

Há um lado muito humano nesta mentalidade quase de ficção científica. Pense em cenas pequenas: alguém na casa dos 30 a encomendar um teste de idade biológica através de uma app; um reformado nos 70 a experimentar o seu primeiro monitor contínuo de glicose; um fundador de Silicon Valley a marcar discretamente uma clínica de longevidade entre chamadas com investidores.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que um resultado médico ou uma dor inesperada faz o futuro parecer subitamente muito perto. A tecnologia da longevidade liga-se diretamente a esse medo - e a essa esperança. Clínicas privadas já oferecem terapias genéticas experimentais para o envelhecimento. Algumas cobram 50.000 dólares por um único tratamento. Não são fantasias, são faturas.

A tese de Kurzweil assenta num padrão simples: o poder de computação duplica, os custos descem, as ferramentas melhoram, e aquilo que era um brinquedo de bilionários torna-se padrão. O smartphone foi um tijolo futurista para executivos nos anos 90; hoje, um adolescente numa aldeia rural grava vídeo em 4K num Android de gama média.

Ele acredita que a mesma curva se aplicará à biologia. Sequenciar um genoma humano custava cerca de 100 milhões de dólares há duas décadas. Hoje, custa menos de 200 dólares - e continua a baixar. Se essa tendência continuar, o seu futuro “pacote de longevidade” poderá ser tão rotineiro como uma consulta de dentista, e não um ritual de elite para milionários da tecnologia. Pelo menos, é essa a teoria.

A ressaca emocional e ética de não morrer

Se Kurzweil estiver sequer meio certo, a sobrevivência passa a ser uma série de decisões, e não apenas sorte cega. O “método” pessoal que ele sugere é quase irritantemente simples: prolongar já a saúde, comprar tempo e manter-se perto da linha da frente da inovação. Isso pode significar ações muito práticas: check-ups regulares, movimento diário, abandonar hábitos obviamente destrutivos, dormir o suficiente mesmo quando a Netflix lhe pede o contrário.

Depois há uma camada um pouco mais estranha: recolher proativamente os seus dados. Testes genéticos, análise do microbioma, dados de wearables. É a ideia de tratar o corpo menos como uma caixa negra e mais como um sistema ajustável.

Claro que é aqui que muitos de nós recuamos. Tudo isto pode parecer esmagador, caro e vagamente narcisista. Há também a suspeita crescente de que a imortalidade chegará primeiro como uma funcionalidade premium, escondida atrás de cordas de veludo em clínicas privadas, enquanto o resto do mundo ainda negoceia cuidados de saúde básicos.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. As pessoas falham treinos, comem mal, fazem doomscrolling às 2 da manhã, faltam a consultas porque a vida é confusa e as crianças acordam durante a noite. Um futuro em que a morte pode ser “gerida” não apaga o presente em que a renda vence, os pais precisam de cuidados e a ansiedade come tempo.

Kurzweil, por seu lado, recorre a uma linguagem quase estranhamente esperançosa sobre isto.

“A morte era um problema de engenharia que simplesmente não sabíamos como enfrentar”, disse ele em entrevistas. “Quando se trata como um conjunto de falhas reparáveis, deixa de ser destino e passa a ser um projeto.”

Ele pinta um mundo em que viver 120, 150, 200 anos não é uma exceção exótica, mas parte da condição humana. Isso levanta imediatamente um monte de perguntas desconfortáveis:

  • Quem tem acesso primeiro - e quem fica para trás?
  • O que significa reforma se aos 80 se é apenas “meia-idade”?
  • Queremos mesmo esticar a nossa política atual por vidas de 150 anos?
  • Como funciona o luto quando a perda passa a ser menos sobre envelhecimento e mais sobre acidentes e escolhas?
  • O que acontece à ideia de “uma vida, uma história” quando já teve cinco carreiras?

Viver hoje com um olho numa vida de 150 anos

Há uma tensão estranha em falar de imortalidade enquanto ainda se responde a e-mails e se aquece sobras. Lê-se Kurzweil, vislumbra-se esse futuro longo e selvagem, e depois olha-se para a lista de tarefas e para a caneca de café já demasiado usada. A distância entre as duas realidades parece enorme - e muito frágil.

Ainda assim, algo muda quando se considera sequer 10% de hipótese de estar a caminho uma extensão radical da vida. As escolhas de carreira parecem diferentes. As relações também. Ter filhos aos 40 ou começar um novo curso aos 55 deixa de parecer “tarde” e passa a ser algures no segundo ato de uma peça muito longa.

Há também o peso ambiental e social que paira sobre tudo isto. Um planeta onde as pessoas vivem muito mais, mas os padrões de consumo mal mudam, é um pesadelo - não um sonho. O mesmo vale para a desigualdade. Uma “elite imortal” a coexistir com vidas curtas e frágeis noutros lugares seria menos um futuro e mais um novo sistema de castas.

Mesmo assim, o debate que Kurzweil provoca obriga a uma honestidade desconfortável sobre o que valorizamos agora. Se soubesse que havia uma hipótese realista de ver o ano 2150, trataria o seu corpo de forma diferente? O seu dinheiro? O seu tempo? Ou o caos do dia a dia ganharia na mesma?

Talvez esse seja o verdadeiro poder desta visão: não a promessa de vivermos para sempre, mas a forma como ela “hackeia” a nossa perceção do que é possível na nossa própria vida.

O homem que descreveu a Internet e o iPhone antes de existirem está agora a pedir-nos que imaginemos um mundo em que a morte - pelo menos a morte por envelhecimento - deixa lentamente de ser a personagem principal da nossa história. Quer ele tenha razão ou não, a pergunta cai num lugar muito pessoal.

Que tipo de vida construiria se suspeitasse, em silêncio, que o fim pode estar muito mais longe do que alguma vez lhe disseram?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O histórico de Kurzweil Previsões precoces e certeiras sobre a Internet, smartphones e IA Ajuda a avaliar quão a sério levar a sua nova cronologia sobre imortalidade
Horizonte de cinco anos “Velocidade de escape da longevidade” via avanços rápidos na medicina e na tecnologia Convida a repensar saúde e planeamento no curto prazo
Impacto pessoal e social Lacunas éticas, riscos de desigualdade, novos guiões de vida ao longo de 100+ anos Oferece uma lente para questionar estilo de vida, trabalho, família e identidade hoje

FAQ:

  • Kurzweil está literalmente a dizer que nunca vamos morrer?
    Não exatamente. Ele fala em prolongar drasticamente a duração de vida saudável e adiar indefinidamente a morte por envelhecimento, não em invencibilidade. Acidentes, doenças e outros riscos continuariam a existir.
  • A que se refere, na prática, “imortalidade em cinco anos”?
    Refere-se a atingir um ponto em que o progresso médico de cada ano acrescenta mais de um ano ao tempo de vida restante, criando um alvo móvel que vai empurrando a morte para mais longe.
  • Estas tecnologias de longevidade serão reservadas aos ricos?
    No início, provavelmente sim. Kurzweil argumenta que os custos cairão rapidamente, como aconteceu com os smartphones e a sequenciação de genomas, mas é quase certo que existam diferenças de acesso na primeira fase.
  • Os cientistas convencionais concordam com esta cronologia?
    Muitos investigadores aceitam a ideia de uma grande extensão da vida, mas acham que o horizonte de cinco anos é demasiado otimista. Esperam um progresso mais lento e irregular, em vez de uma descoberta súbita.
  • O que pode fazer uma pessoa comum hoje?
    Focar-se no essencial para prolongar anos de vida com saúde: sono, movimento, nutrição, evitar riscos óbvios, rastreios regulares. Manter-se vivo e relativamente saudável tempo suficiente para beneficiar de avanços futuros é a mensagem prática central de Kurzweil.

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