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O Reino Unido reforça a sua soberania militar com um míssil táctico de longo alcance, seis vezes mais barato que o PrSM dos EUA, com precisão cirúrgica.

Homem em macacão azul trabalha numa estrutura em forma de míssil sobre carrinho, em oficina com janela ampla.

Por detrás de portas fechadas em Londres, responsáveis da defesa estão a apostar num novo míssil táctico de longo alcance, concebido no país, que pretende igualar a tecnologia norte-americana por uma fracção do custo, ao mesmo tempo que liberta o Reino Unido da dependência do exterior.

Project Nightfall: um rival de baixo custo ao PrSM americano

A 27 de Agosto de 2025, Londres revelou oficialmente o “Project Nightfall”, um programa de míssil balístico táctico concebido para atingir alvos a cerca de 600 km. Espera-se que cada munição custe menos de 590 000 €, aproximadamente 500 000 £.

O objectivo é directo: recuperar autonomia estratégica, reduzir a dependência de sistemas dos EUA e dar ao Exército Britânico uma opção de ataque profundo rápida e móvel, totalmente sob o seu controlo.

O Nightfall pretende oferecer precisão de longo alcance ao estilo do PrSM por cerca de um sexto do preço americano, utilizando tecnologia inteiramente britânica.

Durante anos, o Reino Unido operou sistemas de fabrico norte-americano, como o ATACMS, através do sistema de lançamento múltiplo de foguetes M270 (MLRS). O Nightfall utilizaria a mesma família de lançadores, mas com um míssil totalmente nacional, permitindo ao país evitar controlos de exportação dos EUA e vetos políticos sobre a sua utilização.

Um reinício industrial para o sector britânico de mísseis

O Nightfall não é apenas uma nova arma; está a ser apresentado como um reinício industrial.

O Ministério da Defesa pretende uma solução 100% nacional, desde a propulsão e guiamento até à ogiva e ao software. Isso significa contratos para fabricantes britânicos, gabinetes de projecto e locais de ensaio no Reino Unido, em vez de grandes empresas estrangeiras.

Analistas de defesa vêem o programa como uma forma de reconstruir toda uma cadeia industrial em torno do ataque de precisão de longo alcance, um nicho onde o Reino Unido foi cedendo terreno, gradualmente, aos Estados Unidos e à Europa continental.

  • Projecto e guiamento: empresas britânicas de electrónica e software
  • Propulsão: produção de motor a combustível sólido no Reino Unido
  • Ogiva e espoletagem: competências nacionais em explosivos e segurança
  • Integração: adaptação aos lançadores M270 já ao serviço

O governo quer um míssil que a Grã-Bretanha possa construir, modernizar e exportar sem pedir autorização a ninguém.

Alcance, potência e velocidade: por dentro do conceito Nightfall

As especificações gerais divulgadas pelo Ministério da Defesa são ambiciosas, mas não extravagantes.

Principais metas de desempenho

O Nightfall está planeado com um alcance acima de 600 km, colocando-o em concorrência directa com o Precision Strike Missile (PrSM) dos EUA. Deverá transportar uma ogiva de 300 kg e alcançar uma precisão declarada inferior a 5 metros de erro circular provável em metade dos disparos.

Na prática, isto permitiria ao míssil atingir alvos de elevado valor - como postos de comando, radares, depósitos de munições ou pontes - com um único ataque, reduzindo a necessidade de salvas de seguimento.

O tempo é outro factor crítico. O sistema deverá estar pronto para disparar em menos de 15 minutos, e o veículo lançador deverá abandonar a área em cinco minutos após o lançamento. Este perfil de “disparar e deslocar” reduz a vulnerabilidade ao fogo de contra-bateria, a drones e a munições vagantes.

O Nightfall está também a ser moldado para a guerra electrónica moderna. A resistência à interferência de GNSS (afectando o GPS e sistemas semelhantes) é uma prioridade de concepção, juntamente com uma assinatura multiespectral reduzida para tornar o míssil mais difícil de detectar e acompanhar por radar, infravermelhos e sensores ópticos.

Um míssil seis vezes mais barato do que o PrSM

A diferença financeira é marcante. Enquanto uma munição PrSM dos EUA custa cerca de 4 milhões de euros, e o ATACMS mais antigo ronda 1,2 milhões de euros por míssil, Londres quer o Nightfall abaixo dos 590 000 euros.

Míssil Custo unitário aproximado
Nightfall (objectivo do Reino Unido) 590 000 €
ATACMS (EUA) 1,2 milhões €
PrSM (EUA) 4 milhões €

Para atingir esse preço, os engenheiros terão de fazer compromissos. O míssil deverá usar uma arquitectura modular, um guiamento mais simples do que o de alguns mísseis de cruzeiro de topo, e soluções práticas como aletas dobráveis para facilitar o transporte e o armazenamento.

Se o Nightfall cumprir as metas de preço e desempenho, poderá tornar-se uma opção de ataque profundo económica para vários exércitos europeus.

Para estados aliados que já operam o M270 MLRS - incluindo Alemanha, França, Itália e vários países nórdicos - um míssil britânico sem restrições de exportação dos EUA poderá ser atractivo, sobretudo à medida que os arsenais diminuem devido ao apoio à Ucrânia.

Um calendário apertado e marcos exigentes

Do conceito ao lançamento em menos de dois anos

O calendário definido pelo Ministério da Defesa britânico deixa pouca margem para atrasos. O projecto ainda está numa fase pré-contratual, mas os participantes da indústria já receberam um roteiro exigente.

Marco Prazo
Fim da fase de contributos da indústria 18 de Setembro de 2025
Selecção do conceito Outubro de 2025
Início do desenvolvimento Novembro de 2025
Primeiros lançamentos de ensaio Verão de 2026
Objectivo de primeira entrada em serviço 2027

Até meados de 2026, o Ministério da Defesa espera cinco mísseis completos para ensaios e uma capacidade inicial de produção demonstrada de pelo menos 10 mísseis por mês. Qualquer parceiro industrial terá de acelerar rapidamente, assegurar cadeias de fornecimento e gerir riscos a grande velocidade.

Lições da Ucrânia e o novo campo de batalha do ataque profundo

Drones, artilharia e a ascensão dos fogos profundos

A guerra na Ucrânia reformulou a forma como os planeadores europeus encaram a guerra terrestre. O uso massivo de drones, artilharia de longo alcance e munições vagantes empurrou o combate muito para além da linha da frente.

O Nightfall é desenhado para este ambiente. O seu grande alcance permite ataques contra centros logísticos, radares de defesa aérea, depósitos de combustível e entroncamentos ferroviários muito atrás das linhas inimigas. A sua mobilidade e preparação rápida sustentam uma doutrina de movimento constante, muito mais próxima de como forças ucranianas e russas se adaptaram sob vigilância de drones.

Ao contrário de posições de lançamento fixas ou baterias pesadas de mísseis de cruzeiro, um lançador M270 armado com Nightfall poderia disparar e mudar de posição antes de os sensores inimigos e os contra-ataques conseguirem fixar a sua localização.

Romper com a dependência dos EUA

Durante décadas, o Reino Unido dependeu de tecnologia norte-americana para os seus fogos de longo alcance. Essa dependência trouxe constrangimentos. Washington pode restringir exportações, limitar vendas a terceiros e, em alguns casos, influenciar como e quando os sistemas são utilizados.

Com o Nightfall, Londres quer eliminar essas alavancas. Uma cadeia de fornecimento totalmente nacional significa ausência de processos de aprovação estrangeiros e muito menos condicionantes políticas. Essa autonomia ganha peso numa altura em que o foco dos EUA pode deslocar-se ainda mais para o Indo-Pacífico, e em que futuras administrações em Washington poderão estar menos dispostas a um envolvimento profundo na segurança europeia.

O Nightfall tem tanto a ver com liberdade política de acção como com alcance, velocidade ou peso da ogiva.

Uma capacidade credível e independente de ataque profundo reforçaria também a voz do Reino Unido dentro da NATO. Numa crise em que activos dos EUA estejam sobrecarregados ou atrasados, Londres poderia ainda oferecer fogo de precisão de longo alcance a partir de solo europeu, contribuindo para a dissuasão e a partilha de encargos.

Política interna e sinalização após o Brexit

O Nightfall insere-se também numa narrativa mais ampla: a Grã-Bretanha pós-Brexit como actor de segurança independente, com a sua própria base industrial. Ao escolher um programa emblemático com claro potencial de exportação, o governo está a sinalizar que pretende manter-se como potência militar de primeira linha, permanecendo realista quanto aos orçamentos.

O desafio está na execução. A indústria britânica terá de manter a qualidade, cumprir o calendário e evitar escaladas de custos que têm afectado outros projectos complexos de defesa. Qualquer atraso significativo ou falha de desempenho poderá enfraquecer a mensagem política e reduzir o interesse de potenciais compradores europeus.

O que “míssil balístico táctico” realmente significa

Embora o termo possa soar abstracto, um míssil balístico táctico como o Nightfall ocupa um nicho específico entre a artilharia tradicional e as armas nucleares estratégicas.

“Balístico” refere-se ao perfil de voo: o míssil é propulsionado na fase inicial e depois segue uma trajectória em arco elevado, influenciada sobretudo pela gravidade e pelo arrasto atmosférico. Isto difere de um míssil de cruzeiro, que voa mais como uma aeronave, sob propulsão contínua e a baixa altitude.

“Táctico”, neste contexto, indica normalmente uso ao nível do campo de batalha ou do teatro de operações. Destina-se a atingir objectivos militares dentro de uma região, e não cidades do outro lado do mundo. O alcance na classe dos 600 km coloca o Nightfall no que os planeadores designam por “fogos profundos” - atingir alvos na retaguarda operacional do inimigo, e não apenas na linha da frente.

Riscos, cenários e o impacto potencial em conflitos futuros

Vários cenários ilustram como o Nightfall poderia alterar cálculos.

Numa crise hipotética no Báltico, uma unidade britânica destacada na Polónia com lançadores M270 poderia usar o Nightfall para visar nós ferroviários, baterias SAM de longo alcance ou quartéis-generais a centenas de quilómetros dentro de território hostil, sem esperar por meios dos EUA. Esse alcance independente aumenta tanto a dissuasão como a flexibilidade para comandantes da NATO.

Ao mesmo tempo, um míssil mais barato e amplamente exportado traz riscos próprios. Se tecnologias semelhantes se disseminarem por múltiplas regiões, mais estados terão meios para executar ataques profundos rápidos contra infra-estruturas críticas. Isso levanta questões sobre controlo da escalada e estabilidade da dissuasão convencional.

Para o Reino Unido, o projecto é um exercício de equilíbrio. O Nightfall promete mais soberania, uma indústria mais forte e uma ferramenta militar mais incisiva. Mas também acrescenta responsabilidade: gerir exportações com cuidado, garantir o controlo de tecnologia sensível e integrar o sistema nas estratégias da Aliança sem alimentar corridas ao armamento desnecessárias.

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