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Outro peixe antes ignorado está a tornar-se popular no Brasil, pois é seguro, barato e nutritivo.

Pessoa cozinha peixe numa frigideira com azeite, ao lado de limões e farinha numa cozinha rústica.

Numa tarde abafada em Belém, daquelas em que o ar parece sopa morna, um pequeno restaurante ribeirinho tem uma fila a serpentear porta fora. Sem decoração sofisticada: apenas cadeiras de plástico, uma televisão a passar resumos de futebol e o cheiro a alho a chiar no azeite. No menu escrito à mão, uma palavra aparece vezes sem conta, em diferentes preparações: jaraqui. Jaraqui frito. Jaraqui estufado. Jaraqui grelhado com farinha e lima.

Lá dentro, uma mulher de meia‑idade, de vestido florido, inclina‑se para a amiga e ri-se: “Dantes diziam que isto era peixe de pobre. Agora tenta encontrá-lo barato.”

Há algo a mudar nos pratos brasileiros.

De “peixe de pobre” a orgulho do rio

Durante décadas, o jaraqui e outros peixes pequenos de rio foram tratados como comida de fundo no Brasil. Daquelas coisas que a avó fazia durante a semana, servidas com arroz, feijão e pouco mais, enquanto peixes “a sério” como o salmão ou a tilápia recebiam o destaque nos supermercados.

Hoje, essa hierarquia está a rachar. Mais brasileiros estão a redescobrir espécies locais antes desprezadas como “comida de pobre”, atraídos pelo sabor limpo, pelo preço baixo e pela força nutricional discreta. Chefs exibem-nas com orgulho no Instagram. Nutricionistas recomendam-nas a clientes já fartos de sardinhas de lata.

O que antes era invisível começa a tornar-se tendência.

Nas margens do Rio Negro, o pescador João, de 62 anos, apanha jaraqui desde adolescente. Durante grande parte da vida, o peixe valia tão pouco que, por vezes, ele oferecia parte da pesca só para não estragar com o calor. Ainda se lembra de supermercados a recusarem-no porque o peixe parecia “demasiado vulgar”.

Depois, ali por volta dos anos da pandemia, reparou numa coisa estranha. Compradores começaram a pedir especificamente peixe de rio local. Apareceu uma nutricionista com um caderno e uma balança. Uma jovem chef de São Paulo visitou a aldeia, a filmar cada passo com o telemóvel.

Hoje, João chega a ganhar até ao dobro do que ganhava, nos dias bons. Abana a cabeça e sorri: “Mesmo rio, mesmo peixe. As pessoas é que estão a acordar.”

Por trás desta redescoberta, há várias forças a convergir. O peixe importado e o de aquacultura ficou mais caro à medida que os custos da ração subiram e a logística falhou. Famílias a controlar o orçamento começaram a procurar alternativas que não lhes prejudicassem a saúde. Ao mesmo tempo, a investigação veio sublinhar o que as comunidades ribeirinhas sempre souberam: estas espécies de “baixo estatuto” são extraordinariamente ricas em proteína, ómega‑3, vitaminas do complexo B e minerais como o selénio.

Houve também uma dimensão de segurança. As preocupações com o mercúrio em peixes grandes predadores levaram médicos a sugerir espécies mais pequenas, de crescimento rápido, mais abaixo na cadeia alimentar. São precisamente as que durante muito tempo foram rotuladas como “peixe de pobre”.

De repente, o que antes parecia um último recurso começou a parecer uma escolha inteligente e protetora.

Como os brasileiros estão a cozinhar o peixe do regresso

Passeie por um mercado movimentado em Manaus ou Porto Velho e verá até que ponto esta mudança já chegou à cozinha de casa. Os vendedores exibem agora, com orgulho, montes de jaraqui pequenos e prateados sobre gelo, com olhos límpidos e escamas a refletir as luzes fluorescentes. O segredo, dizem os compradores experientes, é comprá-los inteiros, com o corpo firme e um cheiro limpo a rio, e depois cozinhá-los depressa e com calor alto.

O método mais simples continua a ser o mais querido: abrir e limpar o peixe, fazer golpes na pele, esfregar com sal, alho e um espremer de lima, e depois atirá-lo para óleo bem quente até a pele ficar estaladiça e com bolhas. Servido com farinha, vinagrete e uma cerveja fresca, sabe a tardes na beira do rio e a conversa de família.

Não é preciso ser chef. Basta peixe fresco, calor e um pouco de paciência.

Muitos brasileiros urbanos que cresceram a ouvir que o jaraqui “tem muitas espinhas” estão a aprender pequenos truques para virar essa fama do avesso. Em casa, fazem cortes diagonais apertados ao longo do corpo para que as espinhas finas amoleçam quando fritas, transformando o que antes era um incómodo numa textura crocante, quase de petisco. Outros preferem estufá-lo suavemente com tomate, cebola e coentros, deixando os sabores fundirem-se enquanto o peixe se mantém suculento.

O erro de muitos iniciantes é tentar tratar estes peixes de rio como lombos de salmão ou bacalhau, retirando tudo o que lhes dá carácter. Acabam com pedaços secos, sem graça, e concluem que a espécie “não presta”. Os cozinheiros à moda antiga apenas sorriem e deixam a cabeça e a cauda no prato.

Sejamos honestos: ninguém desespinha peixes pequeninos na perfeição num dia de semana atarefado.

Os nutricionistas estão a entrar na conversa, traduzindo a sabedoria ribeirinha para linguagem urbana. Realçam que uma porção de jaraqui, ou de peixes pequenos semelhantes de água doce, pode fornecer proteína completa, gorduras benéficas e micronutrientes por uma fração do custo do salmão importado.

Uma dietista de Recife disse-me:

“As pessoas chegam ao meu consultório exaustas, a dizer que comer saudável é caro demais. Quando sugiro peixe brasileiro acessível, quase pedem desculpa, como se eu as estivesse a ‘rebaixar’. Eu digo-lhes: não estão a descer, estão a aproximar-se do que a vossa própria terra e as vossas águas vos podem dar.”

Em workshops, ela escreve uma lista simples num quadro branco e faz um círculo à volta:

  • Peixe pequeno e local – Jaraqui, sardinha de água doce, outras espécies de rio
  • Métodos de confeção rápidos – Grelhar, fritar, estufados rápidos
  • Combinação inteligente – Arroz, feijão, salada e citrinos para aumentar a absorção de ferro
  • Ritmo semanal – Começar com um dia de peixe, depois dois
  • Respeito pelos hábitos – Manter o tempero que a família já adora

A mensagem é menos sobre tendências e mais sobre recuperar algo que sempre esteve lá.

Um peixe humilde que levanta perguntas maiores

O regresso do “peixe de pobre” no Brasil é muito mais do que preços dos alimentos ou receitas. Expõe como uma cultura pode ser facilmente levada a desconfiar dos seus próprios básicos, enquanto paga um prémio por soluções importadas. E levanta perguntas mais ousadas: quem decide que alimentos são aspiracionais e quais são discretamente empurrados para o fundo com vergonha?

Quando um peixe como o jaraqui sai do canto “barato” do mercado e passa para o centro do prato, as categorias mentais mudam. Famílias que antes escondiam as suas refeições agora publicam-nas com orgulho online. Crianças crescem a pensar no peixe de rio não como um compromisso de segunda escolha, mas como algo normal - até desejável. Os mais velhos sentem que o seu conhecimento finalmente é ouvido, em vez de educadamente ignorado.

Talvez não viva perto da Amazónia. Talvez nunca prove jaraqui na vida. Ainda assim, a história ecoa em muitas cozinhas: algures na sua cultura, um alimento antes gozado está provavelmente à espera da sua segunda oportunidade.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Os “peixes de pobre” locais são densos em nutrientes Ricos em proteína, ómega‑3, vitaminas do complexo B e minerais, mantendo-se acessíveis Comer melhor sem rebentar o orçamento alimentar
Espécies pequenas e de crescimento rápido tendem a ser mais seguras Níveis mais baixos de mercúrio e contaminantes do que peixes grandes predadores Menores riscos de saúde a longo prazo, sobretudo para crianças e grávidas
Métodos simples funcionam melhor Fritar, grelhar ou estufados rápidos preservam sabor e textura com pouca complicação Fácil de integrar nas refeições reais da semana

FAQ:

  • O jaraqui é mesmo mais seguro do que peixes grandes do oceano? Peixes mais pequenos e de vida mais curta, como o jaraqui, costumam acumular menos metais pesados do que grandes predadores, como alguns tipos de atum. Como sempre, as orientações de saúde locais devem ser a sua referência.
  • E se eu não conseguir encontrar jaraqui onde vivo? Procure espécies pequenas e locais semelhantes nos mercados da sua zona. O princípio é o mesmo: escolher peixe fresco, inteiro, comum aos seus rios ou à sua costa.
  • Com que frequência devo comer este tipo de peixe? Muitos nutricionistas sugerem uma a duas porções de peixe por semana como um bom objetivo, alternando com outras fontes de proteína de que gosta.
  • “Peixe de pobre” é menos saudável do que peixe caro? O rótulo é social, não nutricional. Estas espécies podem ser tão ricas em nutrientes como opções caras - por vezes, mais.
  • E as espinhas, sobretudo para crianças? Para crianças, opte por porções bem limpas, estufados mais macios, ou peça ao seu peixeiro para ajudar a preparar o peixe. Com o tempo, muitas crianças aprendem a lidar com espinhas pequenas, sob supervisão.

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