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Nunca limpe os ouvidos com cotonete; empurra a cera para o tímpano e pode causar bloqueios.

Homem segurando frasco de gotas próximo ao ouvido, de pé em frente a um espelho.

Estás em frente ao espelho da casa de banho, toalha sobre os ombros, o cabelo ainda húmido. Sem sequer pensares, a mão vai até à pequena caixa de plástico. Abres a tampa e pegas num cotonete, num gesto tão automático que quase parece escovar os dentes. Um pequeno rodar, um leve cócega no ouvido, aquela sensação estranhamente satisfatória de estares a “limpar” algo invisível.

Depois, com a mesma rapidez, um ligeiro desconforto. Uma pequena pressão que ignoras. O cotonete entra mais do que o habitual; tiras-o, parece bastante limpo, e encolhes os ombros. Não aconteceu nada de mal, certo?

Uma semana depois, o ouvido parece estranhamente entupido, o som fica abafado de um lado, e a tua música preferida de repente parece muito distante.
Há algo a acumular-se silenciosamente onde não consegues ver.

Porque é que essa sensação de “limpeza” pode danificar os teus ouvidos em silêncio

Todos já passámos por isso: aquele momento em que rodas um cotonete no ouvido e sentes um pequeno alívio, como se tivesses acabado de fazer algo bom por ti. O ritual está tão enraizado que quase parece “Higiene 101”, transmitida por pais, anúncios de televisão e aqueles kits de vaidade de hotel com cotonetes impecavelmente dobrados.

Mas, dentro do teu ouvido, a história é muito diferente. O canal é estreito e delicado, revestido por pele que não gosta de ser raspada ou picada. A cera que estás a tentar remover tem uma função - e o cotonete está a empurrá-la exatamente para onde não devia ir.

Pergunta a qualquer médico otorrinolaringologista qual é o objeto que mais frequentemente retiram dos ouvidos das pessoas e raramente hesitam: cotonetes. Vêem isto todos os dias. Um doente chega com o ouvido bloqueado, uma sensação estranha de eco, talvez até tonturas ou dor. Deita-se, entra uma pequena câmara, e lá está: um tampão denso de cera pressionado contra o tímpano, muitas vezes com pequenas fibras brancas de algodão presas lá dentro.

Por vezes, o doente garante que “acabou de limpar” os ouvidos nessa manhã. Está orgulhoso por ser meticuloso. A ironia é brutal: quanto mais limpou, mais a cera ficou impactada. Eventualmente, o som não teve hipótese de passar.

Do ponto de vista mecânico, o canal auditivo é como um pequeno túnel com um tapete rolante de auto-limpeza. A pele migra lentamente para fora, levando cera e poeira em direção à abertura, onde podem cair ou ser limpas suavemente. Quando inseres um cotonete, interrompes esse “transportador” natural. A ponta fofa remove um bocadinho junto à entrada, mas enfia o resto mais para dentro - como enfiar roupa numa mala já cheia.

Com o tempo, camada após camada de cera compacta, seca e endurece. Em vez de uma película protetora suave, ficas com um tampão sólido, colado ao tímpano e às paredes do canal. Esse gesto de “só mais um bocadinho” é precisamente o que desencadeia o problema.

Como cuidar dos ouvidos sem transformar a cera num problema

O gesto mais eficaz para a higiene dos ouvidos é quase dececionantemente simples. Depois do banho, quando a cera está mais mole, seca suavemente a parte visível do ouvido externo com uma toalha ou lenço de papel. Só a parte que consegues ver ao espelho - nada mais. Trata-a como tratarias a borda dos lábios, não como um cano que precisa de ser desentupido.

Se sentires que produzes muita cera, podes usar algumas gotas de uma solução de limpeza auricular de farmácia uma ou duas vezes por semana. Deixa as gotas atuar durante alguns minutos e depois inclina a cabeça para escorrerem para um lenço. Sem espetar, sem rodar - apenas gravidade e tempo a fazerem o seu trabalho silencioso.

A parte mais difícil é desaprender a sensação quase viciante do cotonete. Há uma pequena “recompensa” a cada utilização, uma mistura de hábito e da ilusão de estar a “fazer alguma coisa”. Muitas pessoas sentem que, se não usarem cotonetes, os ouvidos vão ficar imundos. Esse medo leva-as a limpar mais fundo e mais vezes, até que a cera endurece e bloqueia o som.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias exatamente como os médicos recomendam. A vida acontece, entra água nos ouvidos, dormes sobre um lado, esqueces-te. O objetivo não é a perfeição. O objetivo é parar de agredir uma zona frágil com um pau disfarçado de ajudante fofinho.

“Cada vez que pões um cotonete no ouvido, estás a apostar com o teu tímpano”, explica um otorrinolaringologista com quem falei. “Podes sentir alívio, mas lá dentro a cera está a ser compactada. Eu ganho uma boa parte do meu sustento a desfazer o que os cotonetes fizeram.”

  • Nunca introduzas no canal auditivo nada mais pequeno do que o teu cotovelo.
  • Usa gotas ou sprays quando a cera incomodar, não paus nem ganchos de cabelo.
  • Seca apenas o ouvido externo com uma toalha ou lenço limpo após o banho.
  • Procura um profissional se notares audição abafada, zumbido ou dor, em vez de tentares “só mais um” cotonete.
  • Ensina as crianças desde cedo que os cotonetes são apenas para o ouvido externo - como limpar a borda de um copo.

Viver com a tua cera do ouvido em vez de lutar contra ela

A coisa estranha na cera do ouvido é que a tratamos como sujidade, quando ela funciona mais como um sistema de segurança incorporado. Prende pó, abranda bactérias, lubrifica a pele e até tem propriedades antibacterianas ligeiras. Quando a raspamos constantemente, o ouvido por vezes responde produzindo ainda mais - como se estivesse a tentar reconstruir o seu escudo. É assim que algumas pessoas ficam presas num ciclo de “quanto mais limpo, mais cera tenho”.

A verdade simples é que um ouvido saudável raramente precisa de intervenção humana dentro do canal. O que precisa é de espaço para fazer o seu trabalho. Isso significa dizer não ao impulso do cotonete quando o ouvido está apenas um pouco com comichão ou húmido depois do banho. Significa aceitar que um bocadinho de cera à entrada não é sinal de má higiene, mas de um corpo vivo e a funcionar.

Há algo quase simbólico nesta história. Adoramos controlar, polir, esfregar todas as superfícies até “rangem” de tão limpas. No entanto, algumas partes de nós funcionam melhor quando recuamos. Afastar-se dos cotonetes não é apenas evitar impactações ou um tímpano perfurado - por mais assustador que esse risco seja quando uma criança esbarra no teu braço a meio da “limpeza”. É também um pequeno exercício de confiança.

Confiar que o teu corpo sabe como a cera deve mover-se. Confiar que o silêncio ou a sensação de bloqueio não é algo para combater com mais força, mas um sinal claro para pedir ajuda em vez de escavar mais fundo. Essa mudança de mentalidade pode proteger-te, discretamente, de anos de problemas evitáveis.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A cera é protetora Lubrifica o canal, prende poeiras e abranda infeções Reduz o medo e a culpa sobre “ouvidos sujos”
Os cotonetes empurram a cera Compactam a cera contra o tímpano em vez de a remover Explica o ouvido tapado e a audição abafada após uso frequente
Cuidados suaves chegam Limpar só o ouvido externo, usar gotas, consultar um otorrino quando necessário Dá uma rotina simples e segura para substituir hábitos de risco

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Pergunta 1: É alguma vez seguro usar cotonetes dentro do canal auditivo?
    Em geral, os médicos dizem que não. Podes usá-los apenas nas dobras do ouvido externo, mas não no canal, onde não consegues ver o que estás a fazer.
  • Pergunta 2: Quais são os sinais de impactação de cera?
    Podes notar audição abafada, sensação de ouvido tapado, zumbido, tonturas ocasionais ou dor ligeira, sobretudo após usar cotonetes.
  • Pergunta 3: As velas auriculares são uma alternativa mais segura?
    Não. As velas auriculares não removem cera, podem causar queimaduras e até deixar depósitos de cera da vela no ouvido. A maioria dos especialistas desaconselha vivamente.
  • Pergunta 4: Com que frequência devo limpar os ouvidos?
    Só precisas de limpar suavemente o ouvido externo quando tomas banho ou quando sentes alguma humidade. O canal, normalmente, não precisa de “limpeza” regular.
  • Pergunta 5: Quando devo ir ao médico por causa dos ouvidos?
    Se tiveres dor, perda súbita de audição, bloqueio persistente, secreções, ou se uma criança se queixar do ouvido, é altura de procurar um profissional em vez de pegar num cotonete.

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