O que parece ser um exercício rotineiro da NATO é, na realidade, o ensaio geral de França para assumir o comando da força de reação rápida mais poderosa da Aliança a partir de julho de 2026, numa altura em que os receios de segurança no flanco oriental da Europa estão mais agudos do que em décadas.
França avança: uma nova nação‑líder para a resposta rápida da NATO
A partir de 1 de julho de 2026, a França assumirá o comando das componentes terrestre e aérea da Força de Reação Aliada (ARF) da NATO, a ferramenta renovada de destacamento rápido da Aliança, concebida para crises que vão de missões de dissuasão a uma guerra de alta intensidade.
A ARF funciona num sistema rotativo de “nação‑quadro”. Em cada ano, um aliado assume a liderança, fornecendo o quartel‑general de base, muitas das unidades da primeira linha e os planeadores que coordenariam um destacamento multinacional caso eclodisse uma crise.
A França atuará como a espinha dorsal da resposta terrestre e aérea da NATO durante 12 meses, com até 300 000 militares em toda a Aliança, em termos nocionais, de prevenção.
A preparação desenrola‑se num ciclo de três anos: um ano de consolidação e treino, um ano centrado em grandes exercícios de certificação e, depois, um ano completo de prontidão operacional. A França está agora a passar da fase de preparação para os testes decisivos, incluindo o grande exercício Steadfast Dagger 2025.
Da NRF à ARF: uma ferramenta da NATO mais flexível
A ARF, criada em 2024, substitui a anterior Força de Resposta da NATO (NRF), que muitos aliados consideravam demasiado rígida e demasiado limitada em dimensão após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia.
A nova estrutura pretende ser mais adaptável. Foi concebida para mobilizar rapidamente forças de grande dimensão, colmatar lacunas nas fronteiras da NATO e transitar do treino em tempo de paz para operações de combate, se necessário.
- Até 300 000 militares identificados nos países aliados
- Escalável desde pequenas equipas de aconselhamento até grandes formações de combate
- Preparada para conflito de alta intensidade, e não apenas gestão de crises
- Liderança rotativa, com a França a chefiar as componentes terrestre e aérea em 2026–2027
Para Paris, isto é mais do que uma distinção honorífica. É um teste a saber se a França consegue, de facto, orquestrar uma estrutura complexa e multinacional de combate sob os procedimentos da NATO, enquanto gere simultaneamente as suas próprias operações no exterior.
No terreno, na Noruega: uma divisão francesa torna‑se multinacional
Stavanger, onde um quartel‑general francês é posto à prova
Em Stavanger, na costa oeste varrida pelo vento da Noruega, o Joint Warfare Centre da NATO é onde a teoria colide com a pressão. Aqui, oficiais do Exército francês estão a ser submetidos a um exercício intensivo de posto de comando que simula uma grande crise no flanco oriental.
No centro está a 3.ª Divisão de França, normalmente uma formação nacional com cerca de 23 000 militares, apoiada por até 100 000 reservistas. Sob a bandeira da ARF, esta divisão tem de provar que consegue comandar uma coligação de unidades turcas, espanholas, gregas, britânicas e de outros aliados.
O desafio é transformar um quartel‑general divisionário francês num comando de componente terrestre da NATO capaz de dirigir uma força multinacional completa.
Na prática, isso significa adotar cerca de 1 200 procedimentos da NATO, dominar sistemas digitais comuns de comando e operar inteiramente numa linguagem doutrinária partilhada. O foco está na interoperabilidade: garantir que diferentes exércitos conseguem encaixar nos mesmos planos e combater como um só.
Do ritmo francês ao ritmo da NATO
Os oficiais falam de uma mudança cultural tanto quanto militar. Têm de trocar hábitos nacionais pela forma de fazer da NATO: ritmos de planeamento diferentes, novas cadeias de reporte e uma densidade muito maior de oficiais de ligação de Estados parceiros.
Equipas de avaliação da NATO escrutinam a forma como o estado‑maior francês reage a sobrecarga de informação, incidentes cibernéticos, disputas de espaço aéreo e mudanças súbitas numa linha da frente simulada. Uma certificação falhada significaria que Paris não poderia assumir a função em 2026 - um cenário que as Forças Armadas francesas estão determinadas a evitar.
Nos céus: o bunker subterrâneo de Lyon e o futuro do comando aéreo
Mont Verdun, o centro nevrálgico das operações aéreas da NATO
A centenas de quilómetros de distância, a norte de Lyon, o foco muda de campos enlameados para ecrãs de radar. No interior do complexo fortificado de Mont Verdun, o Comando de Defesa Aérea e Operações Aéreas de França (CDAOA) está a treinar para dirigir a componente aérea da NATO para a ARF.
O Centro Permanente de Controlo de Operações Aéreas, conhecido como CAPCODA, é o núcleo. Para o exercício Steadfast Dagger, cerca de 150 militares da Força Aérea francesa trabalharam por turnos 24 horas por dia, simulando a gestão de caças, aviões‑reabastecedores, aeronaves de vigilância e drones num teatro europeu contestado.
Trabalhar “a partir da retaguarda do teatro” permite ao comando aéreo francês sustentar operações durante meses, reagindo ainda assim em minutos a ameaças em rápida evolução.
O objetivo é demonstrar que este único centro perto de Lyon consegue coordenar dezenas de meios aéreos aliados, integrar redes nacionais de defesa aérea e lidar com ataques de mísseis e drones, tudo segundo os padrões da NATO.
Rafale, munições pesadas e credibilidade
Parte da credibilidade da componente aérea assenta nas próprias capacidades francesas. Missões recentes de longo alcance com caças Rafale, lançando bombas pesadas guiadas com precisão, têm sido observadas de perto por aliados e por potenciais adversários.
Estas demonstrações mostram que a França consegue projetar poder aéreo de topo a distâncias da ordem dos 2 000 quilómetros, atacar alvos fortificados e, depois, alimentar os dados da missão nas ferramentas de planeamento da NATO. Para um país prestes a liderar a resposta aérea da Aliança, esse tipo de prova conta.
Interoperabilidade sob pressão: porque o Steadfast Dagger importa
O exercício Steadfast Dagger 2025 é o momento decisivo no ciclo de três anos da França. Cerca de 1 200 militares e civis de vários Estados aliados irão integrar um único cenário que testa todas as camadas da cadeia de comando.
| Elemento | Contributo francês | Função em 2026–2027 |
|---|---|---|
| Comando terrestre | 3.ª Divisão | Liderar uma força terrestre multinacional da NATO |
| Comando aéreo | Brigada de operações aéreas / CDAOA | Dirigir operações aéreas da NATO a partir do CAPCODA, em Lyon |
| Estrutura global da NATO | Força de Reação Aliada (ARF) | Até 300 000 militares disponíveis para destacamento rápido |
| Exercício de certificação | Steadfast Dagger 2025 | Testa prontidão e interoperabilidade multinacional |
Os níveis de stress durante estes exercícios não são simulados. Os oficiais de estado‑maior enfrentam incidentes em cascata: intrusões cibernéticas em redes logísticas, fluxos súbitos de refugiados, corredores aéreos contestados e linhas vermelhas políticas. A intenção é revelar pontos de fricção antes que uma crise real o faça.
Documentos estratégicos franceses afirmam agora abertamente que o risco de um grande conflito na Europa nos próximos anos já não pode ser tratado como remoto.
Este sentido de urgência alimenta a intensidade do treino. Para Paris, liderar a ARF é também uma forma de mostrar aos outros aliados europeus que o continente pode assumir mais responsabilidade dentro da NATO, mesmo quando a atenção dos EUA é puxada para a Ásia.
A aposta estratégica mais ampla de França
Equilibrar compromissos na NATO e destacamentos globais
A França já está esticada por múltiplos teatros, do Sahel ao Indo‑Pacífico, bem como por compromissos em curso na Europa de Leste. Assumir a liderança das componentes terrestre e aérea da ARF acrescenta mais uma camada exigente.
Os planeadores dizem que o lado positivo é significativo: maior influência no quartel‑general da NATO, laços mais estreitos com as forças armadas aliadas e acesso a mais informações partilhadas e ferramentas de planeamento. O risco é o de sobre‑extensão, se uma crise maior eclodir enquanto a França já estiver empenhada noutro local.
O que “cinco a trinta dias” realmente significa
Um dos principais referenciais da ARF é a sua capacidade de resposta. Espera‑se que a França ajude a NATO a montar um pacote terrestre e aéreo credível entre cinco e trinta dias, consoante a escala da emergência.
Em termos concretos, isso pode significar:
- Em poucos dias: destacar sistemas avançados de defesa aérea e caças para reforçar um aliado ameaçado
- Em algumas semanas: deslocar uma força terrestre do tamanho de uma brigada, com blindados e artilharia, para assegurar uma zona fronteiriça
- Em mais de um mês: constituir uma divisão multinacional completa, com cobertura aérea integrada e logística
Cada cenário exige não só tropas e aeronaves, mas também linhas ferroviárias funcionais, portos, abastecimento de combustível e regras de empenhamento acordadas. Os quartéis‑generais franceses terão de sincronizar tudo isso com parceiros que têm sistemas legais e constrangimentos políticos diferentes.
Conceitos‑chave: nação‑quadro, interoperabilidade e guerra de alta intensidade
Para quem tenta decifrar o jargão da NATO, alguns termos moldam esta história. Uma “nação‑quadro” é o país que fornece o núcleo de uma formação multinacional e a sua estrutura de comando. Neste caso, a França torna‑se a nação‑quadro das componentes terrestre e aérea da ARF.
“Interoperabilidade” vai muito além de usar as mesmas frequências de rádio. Abrange munições compatíveis, formatos de dados partilhados, táticas acordadas e a capacidade de uma unidade de uma nação se integrar sem fricção sob o comando de outra. É isso que os 1 200 procedimentos da NATO em treino pretendem garantir.
Por fim, “guerra de alta intensidade” é o cenário que ninguém quer, mas para o qual todos planeiam: combate em grande escala entre Estados, com elevadas baixas, cadeias logísticas prolongadas e pressão constante sobre as redes de comando. A ARF - e a liderança da França no seu seio - foi concebida para ser credível nesse caso mais duro, e não apenas em missões de manutenção de paz ou destacamentos simbólicos.
À medida que julho de 2026 se aproxima, os exercícios na Noruega e as rotinas no bunker de Lyon são pequenos passos concretos rumo a esse objetivo. São também um sinal: a França está a colocar‑se no centro da resposta de primeira linha da NATO se a crise de segurança europeia se aprofundar.
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