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Cientistas comportamentais afirmam que pessoas que andam mais rápido do que a média apresentam traços de personalidade semelhantes segundo vários estudos.

Mulher jovem caminhando em parque com caderno e café na mão; outras duas pessoas ao fundo.

Vous caminha tranquilamente, café na mão, e de repente uma silhueta ultrapassa-o com um passo firme, tenso, quase militar. Nem um olhar, nem um sorriso - apenas aquele ritmo preciso a bater no chão. Pergunta-se se a pessoa vai atrasada, stressada, ou simplesmente programada para andar mais depressa do que toda a gente. Há alguns anos, equipas de psicólogos e especialistas do comportamento observam estes caminhantes apressados, cronómetro na mão. A conclusão é ao mesmo tempo perturbadora e fascinante: a velocidade a que caminhamos diz muito sobre quem somos. Talvez muito mais do que pensamos.

O que os caminhantes rápidos continuam a revelar sobre a sua personalidade

Basta parar em qualquer rua movimentada de uma cidade para quase conseguir “separar” as pessoas só a ouvir os passos. Os caminhantes rápidos cortam a multidão, ombros ligeiramente inclinados para a frente, olhar fixo algures à frente em vez de andar a varrer o que os rodeia. Há uma espécie de intenção na forma como ocupam o passeio. Estudos recentes em comportamento confirmam essa intuição. Em média, quem naturalmente anda mais depressa tende a pontuar mais alto em traços como conscienciosidade e extroversão, e mais baixo em traços associados à hesitação e à ruminação. O corpo move-se como a mente: orientado para o que vem a seguir, não para o que acabou de acontecer.

Num estudo clássico de investigadores da Universidade de Hertfordshire, observadores cronometraram discretamente o tempo que as pessoas demoravam a percorrer uma distância fixa em centros urbanos. Mais tarde, os participantes fizeram testes de personalidade. O padrão foi marcante: os mais rápidos tinham maior probabilidade de se descreverem como proativos, competitivos e confortáveis sob pressão. Os caminhantes mais lentos não eram “preguiçosos” - relataram um diálogo interior mais rico e pontuações mais altas em traços como abertura e reflexão. Outra meta-análise, abrangendo vários países, concluiu que as pessoas que, a pé, ultrapassam a média também tendem a apresentar maior satisfação com a vida e um sentido mais forte de controlo sobre o dia a dia. A rua transforma-se num teste de personalidade em movimento.

Porque é que algo tão simples como a velocidade de caminhada se alinha com a personalidade em vários estudos? Parte da resposta está na energia. Pessoas com maior ativação basal - aquelas que acordam já “ligadas” - transportam literalmente mais impulso nos músculos. O sistema nervoso empurra-as para a rapidez. Há também o efeito do “calendário mental”: caminhantes rápidos costumam ter mais objetivos autoimpostos e mais blocos de tempo, pelo que o corpo, de forma inconsciente, acelera para acompanhar esse horário interno. Os cientistas do comportamento falam de “urgência temporal”: a sensação de que o tempo é escasso e não deve ser desperdiçado. Essa sensação não fica só na cabeça; aparece no comprimento da passada e na forma como os calcanhares batem no chão.

Como interpretar - e ajustar com delicadeza - a sua velocidade de caminhada

Se tem curiosidade sobre o que o seu ritmo poderá dizer sobre si, experimente o seguinte. No seu trajeto habitual - de casa para a estação, do escritório para o café - cronometre-se numa distância definida sem mudar nada. Caminhe como caminha sempre. Depois, noutro dia, repita o mesmo percurso com a intenção clara de chegar cinco minutos mais cedo, só para ver como o seu corpo reage. A diferença entre a sua velocidade “natural” e a sua velocidade “intencional” muitas vezes revela quanta energia e impulso está a conter. Algumas pessoas descobrem que, por hábito, vivem em segunda, mesmo quando o corpo consegue circular confortavelmente em terceira.

Muitos leitores, nesta fase, sentem uma pequena pontada de culpa: “Então eu caminho devagar - isso quer dizer que sou pouco motivado?” Na verdade, não. Os cientistas do comportamento repetem que não existe medalha moral por andar depressa. Idade, saúde, dor crónica, clima, até a poluição do ar influenciam a rapidez a que conseguimos - ou queremos - mover-nos. O que os estudos sugerem é mais matizado: se o seu ritmo natural é consistentemente rápido, é mais provável que traga traços como decisão e impaciência. Se o seu ritmo é mais lento, pode proteger melhor a atenção e precipitar-se menos nas decisões. Ambos os perfis têm pontos cegos. O caminhante rápido arrisca exaustão e brusquidão. O caminhante lento arrisca perder oportunidades, porque o mundo funciona com prazos e horários.

Uma forma de usar este conhecimento é tratar a velocidade da caminhada como um pequeno botão diário para o seu estado interno. Quando abranda deliberadamente num dia stressante, o ritmo cardíaco baixa e a atenção alarga; os sons da rua, as cores, até os cheiros voltam a ganhar nitidez. Quando decide acelerar numa manhã arrastada, o corpo “engana” o cérebro, empurrando-o para um modo mais ativo, pronto para tarefas. Como me disse um cientista do comportamento numa entrevista:

“A velocidade a que anda é como um botão de volume da sua personalidade. Se o aumenta, sente-se mais afiado. Se o baixa, repara em mais coisas.”

Para manter isto prático, pense em três pequenas experiências que pode fazer esta semana:

  • Faça um percurso familiar 20% mais depressa e observe como os seus pensamentos mudam.
  • Faça uma “caminhada lenta” de cinco minutos depois do almoço e repare no que realmente vê.
  • Peça a um amigo para igualar o seu ritmo e conversem sobre como cada um se sente dentro desse compasso.

O que a sua passada pode significar para o resto da sua vida

Quanto mais os investigadores olham para a velocidade de caminhada, mais ela se infiltra em áreas inesperadas: carreira, saúde, até quanto tempo vivemos. Estudos de saúde em grande escala associaram uma caminhada naturalmente mais rápida a melhor aptidão cardiovascular e menor risco de mortalidade, independentemente da idade e do peso. Isso não transforma passeios em exames médicos, mas sugere que o nosso “tempo” diário acompanha silenciosamente a forma como o corpo lida com o stress. Alguns laboratórios já usam a “velocidade habitual de caminhada” como um indicador rápido de idade biológica. Nos seus dados, um sexagenário enérgico pode parecer biologicamente mais novo do que um quadragenário lento - pelo menos nas métricas que predizem resiliência.

Depois há o lado social. Colegas notam quem se move com propósito num corredor. Gestores interpretam inconscientemente uma marcha rápida e direita como sinal de competência e prontidão, certo ou errado. Amigos podem ler um ritmo arrastado e errante como disponibilidade e suavidade. Caminhantes rápidos tendem a tomar mais iniciativa em grupos, desde escolher o caminho até definir a hora do encontro. Caminhantes mais lentos tornam-se frequentemente os “barómetros emocionais”, sentindo quando alguém precisa de desabafar ou de fazer uma pausa. Nada disto é uma regra; é apenas o que a investigação continua a mostrar quando se observam pessoas suficientes durante tempo suficiente.

E há uma camada emocional que raramente admitimos: andar mais depressa pode, por vezes, ser uma forma de fugir ao silêncio. Uma maneira de evitar ficar a sós com os próprios pensamentos entre duas reuniões, duas mensagens, dois ecrãs. Sejamos honestos: ninguém faz mesmo todos os dias aquela famosa “caminhada consciente e mindful” recomendada nos guias de bem-estar. Aceleramos porque dá a sensação de ser mais seguro mantermo-nos ocupados. Do outro lado, caminhar devagar pode refletir uma recusa silenciosa em deixar que o mundo exterior dite o seu tempo. Alguns cientistas do comportamento defendem que aquilo a que chamamos “indicadores de personalidade” na velocidade de caminhada também tem a ver com resistência - ou rendição - à pressão social. Os seus pés votam, todos os dias, por um lado ou pelo outro.

Quando começa a reparar nisto, a rua torna-se um laboratório ao vivo. Vê o estudante a correr para a aula, auriculares nos ouvidos, ombros contraídos, a viver três minutos no futuro. A mulher de meia-idade com uma passada decidida mas descontraída, mala junto à anca, claramente habituada a atravessar multidões. O homem reformado a passear com passos curtos e cuidadosos, olhos erguidos para varandas e ramos de árvores. A ciência do comportamento não transforma estas pessoas em estereótipos; apenas nos dá outra lente. Sugere que a distância entre a sua porta e o seu destino não é tempo vazio. É um retrato em movimento de como a sua mente e o seu corpo negociam o dia.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A velocidade de caminhada espelha a personalidade Caminhantes mais rápidos costumam pontuar mais alto em conscienciosidade, extroversão e urgência temporal Ajuda-o a reinterpretar os seus hábitos sem julgamento moral
O ritmo do corpo afeta o humor e o foco Acelerar pode aumentar a ativação; abrandar alarga a atenção e acalma o sistema Dá-lhe uma alavanca simples e diária para influenciar como se sente
A passada liga-se à saúde e a resultados de vida O ritmo habitual correlaciona-se com aptidão física, sensação de controlo e resiliência a longo prazo Incentiva pequenas mudanças realistas em vez de resoluções dramáticas

FAQ:

  • Andar depressa significa sempre que alguém está stressado? Não. Muitos caminhantes rápidos descrevem-se como energizados, não ansiosos. O stress aparece mais na tensão (maxilar cerrado, punhos fechados) do que na velocidade, por si só.
  • Posso “mudar” a minha personalidade mudando a forma como caminho? Não se vai tornar noutra pessoa, mas ajustar o ritmo pode influenciar o humor e o comportamento a curto prazo, um pouco como mudar a postura.
  • E se eu andar devagar por motivos de saúde? Nesse caso, o ritmo reflete sobretudo limitações físicas e gestão de energia, não falta de motivação. Use estas ideias como observação, não como avaliação - e, se tiver dor, tonturas ou falta de ar, siga a orientação de um profissional de saúde.

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