A União Europeia está a esboçar como poderá ser a sua próxima geração de navios de combate de superfície. No entanto, a França, normalmente um ator central na defesa da UE, está a optar por ficar de fora de um dos projetos navais emblemáticos do bloco.
França carrega no “pause” numa fragata europeia partilhada
O programa European Combat Vessel (ECV) pretende entregar, para a década de 2040, uma “família” comum de fragatas e navios‑comando flutuantes. Apoiada pela Agência Europeia de Defesa (EDA), a ideia é dar às marinhas europeias uma nova plataforma modular, capaz de enfrentar submarinos, drones, mísseis e ameaças cibernéticas no mar.
A França, porém, decidiu não aderir à fase inicial. Esta escolha surge mesmo sabendo a Marinha Francesa que as suas atuais fragatas multimissão (FREMM), a espinha dorsal da sua frota de superfície, atingirão cerca de 30 anos de serviço durante a década de 2040.
Paris optou por priorizar a substituição de navios patrulha oceânicos e missões existentes, em vez de se comprometer desde já com um futuro desenho de fragata partilhado.
Responsáveis franceses da defesa argumentam que isto não é uma rejeição da cooperação europeia, mas sim uma questão de calendário, orçamento e prioridades da frota. O Governo já está pressionado por uma exigente lei de programação militar e por uma longa lista de projetos navais em paralelo.
Uma agenda sobrelotada: corvetas, navios de patrulha e orçamentos limitados
A hesitação francesa no ECV espelha a sua postura cautelosa face a outro esforço naval da UE: a Multi Modular Patrol Corvette (MMPC). Esse projeto, conduzido no âmbito da Cooperação Estruturada Permanente (PESCO) e parcialmente financiado pelo Fundo Europeu de Defesa, é coordenado por Itália, com França, Espanha, Grécia e Roménia como parceiros.
A MMPC está planeada como um navio de cerca de 3.000 toneladas e 110 metros, proposto em três variantes principais:
- guerra antissuperfície (focada no combate navio‑contra‑navio)
- missões de longa duração (destacamentos prolongados longe dos portos de origem)
- patrulha de alto‑mar (presença diária e missões de segurança)
Segundo o organismo europeu de armamento OCCAR, a MMPC pretende ser flexível, energeticamente eficiente e mais amiga do ambiente. É também apresentada como mais segura, altamente interoperável e robustecida contra ciberataques.
Ainda assim, mesmo aqui o envolvimento francês é cauteloso. Numa recente audição no Senado, o chefe do Estado‑Maior da Marinha Francesa, almirante Nicolas Vaujour, sublinhou que as atuais fragatas de vigilância ainda têm vida útil antes de ser necessário um sucessor do tipo MMPC.
Referiu ainda que a França está a avançar com um conceito de “corveta oceânica”, parcialmente derivado da ideia mais antiga de “Corveta de Patrulha Europeia”, mas sem se comprometer plenamente com o novo enquadramento da UE.
“Uma questão de escolha”, diz o chefe francês de aquisições de defesa
O chefe cessante das aquisições de defesa, Emmanuel Chiva, usou uma linguagem invulgarmente direta quando questionado pelos deputados. Disse que Paris simplesmente optou por não priorizar o projeto da corveta, para poder acelerar a substituição dos navios patrulha oceânicos.
Chiva salientou que mais dinheiro no orçamento da defesa também trouxe mais projetos, obrigando a escolhas difíceis entre programas.
Estes navios patrulha oceânicos pertencem a uma classe diferente das fragatas ou das corvetas fortemente armadas. Transportam armamento mais leve, mas são cruciais para policiamento marítimo, missões de presença, vigilância da zona económica exclusiva e operações de baixa intensidade. Para a França, com responsabilidades significativas no Atlântico, Mediterrâneo e Indo‑Pacífico, esta capacidade básica de patrulhamento é difícil de adiar.
O que o European Combat Vessel pretende alcançar
Enquanto a França olha noutra direção, sete países avançaram para moldar o conceito do ECV: Itália, Espanha, Grécia, Países Baixos, Portugal, Bélgica e Chipre. Vários deles também trabalham na MMPC, o que sugere a existência de uma “coligação naval” de núcleo dentro da UE.
Em meados de janeiro, a EDA reuniu responsáveis desses Estados e representantes de grandes estaleiros para trabalhar no desenho do ECV, nas necessidades operacionais e no roteiro de desenvolvimento.
O ECV deverá entregar uma nova plataforma naval multimissão com capacidades reforçadas para meados deste século. A EDA descreve-o como concebido para lidar com “ameaças multidimensionais”, desde submarinos e mísseis tradicionais a drones no ar e à superfície, bem como intrusões cibernéticas nas redes dos navios.
O futuro navio de guerra está a ser concebido com uma abordagem “systems‑to‑hull”: primeiro a tecnologia, depois o casco.
Esta expressão sinaliza uma inversão da lógica tradicional da construção naval. Em vez de desenhar um casco e depois tentar encaixar os sistemas, os planeadores começam pelos sensores, armas, comunicações e veículos não tripulados que esperam vir a precisar, e só depois moldam o casco à sua volta.
Espanha apela a um compromisso europeu genuíno
Para a Marinha Espanhola, que desempenha um papel líder no projeto ECV, os riscos são estratégicos. O capitão Luis Calviño, responsável espanhol pelo projeto, disse aos parceiros europeus que a nova plataforma pretende colmatar lacunas críticas em várias áreas:
| Área de capacidade | Objetivo do ECV |
|---|---|
| Controlo subaquático e do fundo do mar | Melhor deteção de submarinos e atividade no fundo do mar |
| Superioridade da informação | Partilha de dados mais rápida, mais resiliente e melhor consciência situacional |
| Ciberdefesa | Proteção das redes do navio contra interferência hostil |
| Guerra naval de superfície | Reforço da capacidade antinavio e da defesa contra mísseis balísticos |
| Operações autónomas | Utilização extensiva de veículos não tripulados e remotamente operados |
Calviño avisou que a Europa há muito depende de tecnologia estrangeira em alguns destes domínios, numa referência velada a sistemas dos EUA. Defendeu que continuar a depender de terceiros já não é viável para um continente que procura autonomia estratégica.
Sublinhou também que nenhum Estado europeu, isoladamente, consegue financiar e desenvolver de forma credível todos estes subsistemas complexos. Este argumento visa implicitamente o modelo naval francês de “ir sozinho”, valorizado em Paris mas caro de sustentar.
Porque é que a França é cautelosa em entrar cedo
A relutância francesa em aderir ao ECV nesta fase reflete tanto estratégia industrial como hábitos operacionais. Paris tem o seu próprio grande construtor naval, o Naval Group, e uma longa tradição de desenhar plataformas soberanas ajustadas às forças nucleares nacionais, aos grupos de ataque de porta‑aviões e aos mercados de exportação.
Programas partilhados podem trazer economias de escala, mas também exigem compromissos em desenho, calendários e propriedade intelectual. Os responsáveis franceses recordam as dificuldades de esforços conjuntos passados noutros domínios, desde carros de combate a aeronaves.
A cooperação pode reduzir custos unitários, mas também pode diluir o controlo sobre tecnologia, política de exportação e modernizações a longo prazo.
Há ainda a questão da perceção de ameaça e da geografia. Estados como Espanha, Itália e Grécia estão na linha da frente do Mediterrâneo e focam-se fortemente em crises regionais e fluxos migratórios. Países como os Países Baixos e a Bélgica operam em águas movimentadas do Mar do Norte, junto de rotas comerciais críticas. A França tem de gerir tudo isso e, além disso, compromissos no Atlântico e no Indo‑Pacífico, incluindo apoio à dissuasão nuclear no mar.
Estas perspetivas diferentes moldam o que cada marinha quer de uma futura fragata. Alguns priorizam guerra antissubmarina em mares estreitos; outros preocupam-se mais com destacamentos de longo alcance ou com defesa antiaérea e antimíssil de alto nível. Do ponto de vista de Paris, aderir demasiado cedo arrisca resultar numa plataforma de compromisso que não encaixa totalmente na sua doutrina.
A lógica económica e de treino por detrás de uma fragata partilhada
Para a EDA e os Estados participantes, a justificação para um navio de combate europeu comum vai além do próprio navio. Responsáveis defendem que uma família padronizada de navios de guerra reduziria custos através de encomendas em volume, manutenção conjunta e cadeias logísticas partilhadas.
A agência aponta também uma dimensão de formação. Uma classe de navios amplamente semelhante poderia sustentar escolas e cursos navais comuns em toda a Europa. Tripulações de diferentes marinhas poderiam transitar entre navios com menos reconversão, tornando as operações multinacionais mais fluidas e mais rápidas de organizar.
Do ponto de vista político, operar uma frota de superfície europeia reconhecível sinalizaria que a integração da defesa da UE está a passar de estratégias no papel para meios concretos no mar.
O que “systems‑to‑hull” significa realmente na prática
A filosofia systems‑to‑hull pode soar abstrata, mas os seus efeitos são bastante concretos. Em vez de fixar o tamanho do casco e depois lutar por espaço, os arquitetos começam com uma lista de capacidades: alcances de radar, células de mísseis, conjuntos de sonar, hangares para drones, cabinas de processamento de dados e salas de servidores com cibersegurança reforçada.
Também consideram margens de crescimento futuras. O objetivo é deixar folga de espaço, energia, arrefecimento e largura de banda de dados, para que novos sensores ou armas possam ser acrescentados nas décadas de 2050 e 2060 sem “destripar” o navio.
Por exemplo, uma fragata do tipo ECV poderá ser construída com células adicionais vazias de lançamento vertical, geração de energia sobredimensionada e espaços de controlo dedicados a veículos de superfície e subaquáticos não tripulados. O casco é então ajustado para transportar essa carga de forma eficiente, com atenção à estabilidade, redução de ruído acústico e sobrevivência.
Este método é atrativo numa altura em que a guerra naval está a evoluir rapidamente. Conflitos como a guerra na Ucrânia e os ataques à navegação no Mar Vermelho evidenciaram o papel crescente de drones baratos, armas de precisão de longo alcance e perturbação eletrónica. Os planeadores partem do princípio de que o “estado da arte” atual parecerá desatualizado muito antes de estes navios serem abatidos ao serviço.
Riscos e cenários para as marinhas europeias na década de 2040
Se o ECV tiver sucesso sem a França a bordo, as marinhas europeias poderão dividir-se gradualmente em dois campos: as que operam uma família de fragatas partilhada e desenvolvida em conjunto, e as que mantêm desenhos maioritariamente nacionais. Essa divisão afetaria logística, interoperabilidade e política industrial.
Um cenário prevê uma entrada tardia francesa, em que Paris adere depois de o conceito estar provado, tentando adaptar a plataforma aos seus próprios requisitos. Outro cenário é um caminho paralelo, com a França a perseguir um sucessor nacional para a FREMM, enquanto os parceiros adotam variantes ECV. Uma terceira opção é híbrida, com alguns subsistemas partilhados mas cascos e sistemas de combate diferentes.
Cada caminho tem compromissos. Um navio totalmente nacional dá autonomia máxima, mas aumenta o custo por unidade e pode limitar oportunidades de exportação. Uma plataforma partilhada distribui custos e aprofunda a cooperação, mas endurece negociações sobre quem lidera, quem fornece que componentes e como são tratadas tecnologias sensíveis do ponto de vista da segurança.
Para leitores que acompanham política de defesa, alguns termos são úteis:
- PESCO: Cooperação Estruturada Permanente, um enquadramento da UE para grupos de Estados‑Membros trabalharem em conjunto em projetos de defesa.
- Fundo Europeu de Defesa: rubrica orçamental da UE que cofinancia investigação e desenvolvimento de equipamento de defesa entre Estados‑Membros.
- OCCAR: organização intergovernamental que gere programas cooperativos de armamento, como aeronaves de transporte e projetos navais.
À medida que as marinhas europeias observam padrões de conflito a deslocarem-se de oceanos profundos para zonas costeiras contestadas e estrangulamentos estratégicos, o formato da próxima fragata não é apenas um debate técnico. É também uma questão de quais países definem o padrão, quem paga o quê e até onde a Europa quer realmente ir na partilha de poder militar “duro” no mar.
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