É uma manhã cinzenta de domingo em Lyon e a Léa está a lutar com um monstro. Não é uma criança, nem um gato, nem sequer o cesto da roupa suja a transbordar. Não: é o edredão de casal, meio descaído no chão, meio torcido dentro da capa como uma meia gigante encharcada. Puxa, sacode, rasteja para dentro da capa. O café arrefece na mesa-de-cabeceira.
Quando finalmente consegue pôr o edredão no sítio, está a suar como se fosse agosto, não fevereiro. Olha para o telemóvel e suspira: 23 minutos para uma capa estúpida. Nessa noite, ao jantar com amigos, confessa o ódio pelo edredão… e percebe que não está sozinha.
Algo está a começar a estalar na relação entre os franceses e a sua adorada couette.
A revolução silenciosa ao fundo da cama
Entre agora em certos apartamentos de Paris e de Bordéus e vai notar algo estranho. As camas parecem impecavelmente feitas, quase como quartos de hotel, mas não há um edredão volumoso debaixo da capa. Apenas uma superfície lisa, em camadas, com uma manta leve dobrada aos pés. O famoso “caos francês da cama” está, aos poucos, a ser domado.
A alternativa que está a pegar? O regresso dos lençóis de cima e de mantas leves de lã ou algodão, com um ar de hotel boutique ou de board minimalista do Pinterest. Não a manta áspera da avó, mas uma mistura de lençóis respiráveis, colchas finas e colchas decorativas elegantes que se podem sobrepor ou retirar em segundos.
A tendência começou discretamente em algumas casas mais ecológicas e obcecadas por design. Um casal em Nantes documentou no Instagram a sua “vida pós-edredão”: lençóis de linho, uma manta fina de merino, uma colcha texturada. Em poucos meses, o reel sobre “porque deixámos o edredão” chegou a centenas de milhares de visualizações.
Hotéis e alojamentos locais seguiram o exemplo. Na Provença, uma nova geração de chambres d’hôtes mostra com orgulho camas rematadas com colchas leves em vez de edredões fofos. Os hóspedes voltam para casa e tentam recriar a sensação: sono mais fresco e leve, menos transpiração, camas que ficam direitas com dois gestos. Pela primeira vez, o quarto deixa de ser “a porta que se fecha quando chegam visitas”.
A lógica é simples: um edredão é uma resposta única para um problema que muda todas as noites. Tem frio às 23h, calor às 3h, dorme meio destapado às 6h. Com um sistema de lençol + manta, ajusta-se. Atira a manta para o lado, fica com o lençol, talvez puxe uma colcha leve às 5h.
Há também o argumento da higiene. Dermatologistas e alergologistas repetem discretamente o mesmo: edredões que quase nunca são lavados, cheios de pó, ácaros e suor, são um paraíso para alergias. Separar as camadas torna a lavagem mais fácil e mais frequente. Não parece sexy, mas muda o seu sono.
Como trocar o edredão por camadas sem enlouquecer
A forma mais simples de começar é tratar a cama como se se estivesse a vestir no outono. Pense em camadas. Primeiro, um lençol de baixo com elástico, de preferência em percal de algodão ou linho lavado. Depois, um lençol de cima, grande o suficiente para ficar bem metido debaixo do colchão em baixo e nos lados. Essa é a base.
Por cima, acrescente uma manta leve ou uma colcha fina, escolhida para a estação. No inverno, lã ou penas; na meia-estação, algodão ou bambu; no verão, muitas vezes basta o lençol e uma cobertura muito leve. Por fim, uma colcha decorativa ou manta de apoio dobrada aos pés da cama. Pode puxá-la às 4h se acordar com frio.
O maior receio de muita gente é: “Vou ter frio.” Ou “Vou demorar mais tempo a fazer a cama.” A realidade tende a ser o contrário, depois de alguns dias de adaptação. O corpo agradece poder respirar, sobretudo se é do tipo que acorda húmido debaixo de um edredão quente.
O erro mais comum é ir leve demais, depressa demais. Não deite fora o edredão em janeiro e substitua-o por uma mantinha fraca. Experimente primeiro na meia-estação, ou mantenha o edredão guardado por perto como rede de segurança. Não é “falhar” se o for buscar numa noite gelada. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sempre da forma “perfeita”.
Muitas pessoas que fizeram a mudança falam disso quase como uma pequena libertação.
“Desde que deixámos de usar edredão, não acordo preso debaixo de uma massa pesada de tecido”, sorri a Camille, 34 anos, de Lille. “Durmo mais leve, levanto-me com mais facilidade, e fazer a cama demora literalmente um minuto. Puxo o lençol, aliso a manta e está feito.”
- Um lençol de baixo que abraça bem o colchão
- Um lençol de cima generoso que dá para meter por baixo
- Uma manta principal ou colcha fina adaptada à estação
- Uma manta extra ou colcha decorativa aos pés da cama
- Duas ou três almofadas com capas laváveis
A nova forma francesa de dormir
Há algo mais profundo a acontecer entre estes lençóis do que uma simples tendência de decoração. O edredão simboliza, desde os anos 80, uma certa ideia de conforto: espesso, fofo, envolvente, como um marshmallow quente do qual não apetece sair. Mas a vida quotidiana em França em 2026 é mais leve, mais rápida, mais fragmentada. As casas são mais pequenas, a energia está mais cara, os verões são mais quentes.
Trocar o edredão por camadas é também uma forma de recuperar controlo sobre a temperatura e o custo. Pode aquecer um pouco menos e acrescentar mais uma manta, ou dormir só com um lençol durante uma onda de calor. E é mais flexível para casais, quando um tem sempre calor e o outro tem sempre frio. Dois lençóis, duas mantas leves, paz restaurada.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Roupa de cama em camadas substitui edredões | Lençóis de cima, mantas leves e colchas decorativas ao estilo de hotel | Mais controlo do calor, cama mais elegante, menos sobreaquecimento durante a noite |
| Higiene e manutenção mais fáceis | Lençóis e mantas lavam-se melhor e cabem em máquinas standard | Cama mais fresca, menos alergias, menos complicações com edredões volumosos |
| Adaptável às estações e a casais | Adiciona ou retira camadas, ou separa mantas para cada lado da cama | Melhor sono, menos discussões, conforto realmente pessoal |
FAQ:
- O edredão está mesmo “a acabar” em França? Não de um dia para o outro. Muita gente vai manter o seu. Mas a subida da roupa de cama em camadas é clara nas lojas de decoração, nos hotéis e nas redes sociais, e mais lares estão a testar a vida sem edredão, pelo menos durante parte do ano.
- Não vou ter mais frio sem edredão no inverno? Se escolher uma manta de lã ou de penas de qualidade e um bom lençol, ficará tão quente quanto antes. O segredo é sobrepor: manta principal, mais uma manta extra que possa puxar durante a noite, se necessário.
- Este sistema é mais caro? Não necessariamente. Pode começar com o que já tem: um lençol de cima, uma manta, uma colcha antiga. Com o tempo, vai melhorando peça a peça, em vez de comprar um edredão volumoso novo a cada poucos anos.
- Demora mais tempo a fazer a cama todas as manhãs? Quando ganha o hábito, é rápido. Puxa o lençol bem, alisa a manta e coloca a colcha por cima. Nada de lutar com uma capa gigante, nada de enfiar, nada de sacudir.
- Que materiais devo escolher para evitar suar? Procure fibras naturais e respiráveis: percal de algodão, linho lavado, lençóis de bambu ou Tencel, mantas de lã ou algodão. Evite demasiado poliéster, que retém calor e humidade e pode tornar as noites desconfortáveis.
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