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A nova tendência entre seniores: “Chamam-nos ‘cumulantes’, mas só trabalhando após a reforma conseguimos pagar as contas.”

Duas pessoas idosas a gerir finanças em casa, rodeadas de moedas, papéis e computador portátil numa cozinha.

Na sexta-feira, às 6h45, o abrigo da paragem de autocarro ainda está às escuras quando René, 72 anos, veste o colete fluorescente. Brinca com os jovens de vinte e poucos anos de sapatilhas, passa o crachá e começa mais um turno como repositor num supermercado. “Chamam-nos cumulantes”, ri-se, “porque ‘acumulamos’ uma pensão e um salário. Mas se eu parasse, o frigorífico notava antes de eu notar.” À sua volta, o cabelo grisalho mistura-se cada vez mais com polos da empresa, máquinas de café e open spaces. A reforma já não é uma linha clara na areia; é uma negociação com o custo de vida. Uns murmuram sobre “liberdade”, outros contam cada euro no talão da caixa.

Por trás da palavra “cumulante”, há rostos, costas que doem, contas bancárias que tremem.
E uma forma silenciosa e teimosa de resiliência.

O novo normal: uma reforma que não reforma de verdade

Passeie por qualquer grande superfície às 10h de um dia de semana e vai vê-los. Uma caixa com voz meiga que podia ser a sua avó, um funcionário na zona de bricolage cujas mãos contam uma história longa, uma rececionista de cabelo prateado e olhar atento. Passaram os 65, às vezes os 70, e trabalham porque as contas já não batem certo. Uns fazem três dias por semana; outros aceitam todos os turnos que conseguem.

No papel, estão “reformados”. Na prática, estão na sua segunda vida laboral.

Em França, quase uma em cada três pessoas entre os 65 e os 69 anos continua ativa no mercado de trabalho. Nos EUA, o número de trabalhadores com mais de 75 anos quase duplicou em dez anos. Por trás destas estatísticas, encontra-se gente como a Monique, 68, que faz limpezas ao fim do dia em escritórios “só para pagar a renda sem pedir aos meus filhos”. Ou o Ahmed, 70, antigo mecânico que agora é auxiliar de travessia escolar para “ainda conseguir pôr combustível no carro e comprar brinquedos para os netos”.

Cada história parece pessoal. O padrão, discretamente, é coletivo.

A matemática é implacável. As pensões não acompanharam os custos da habitação, as contas da energia ou os preços do supermercado. As pessoas vivem mais tempo, mas nem sempre vivem mais ricas. Muitos tiveram carreiras interrompidas, poucas poupanças, ou acidentes de vida que descarrilaram os planos. Assim, os “anos de lazer” deslizam para “anos de remendos”, feitos de pequenos contratos, turnos e biscates. Alguns seniores abraçam isto como forma de se manterem úteis e ligados. Outros vivem-no como uma necessidade discreta, a meio caminho entre orgulho e exaustão.

A linha entre escolha e constrangimento torna-se rapidamente difusa.

Como os seniores reinventam o trabalho para sobreviver… e manter-se de pé

O primeiro reflexo de muitos recém-reformados que sentem o aperto financeiro é simples: ligar ao antigo chefe. Um ex-contabilista volta dois dias por semana para ajudar no fecho de contas. Uma enfermeira reformada faz turnos temporários na época da gripe. Um professor entra para substituições de curta duração. Estas missões de “regresso” são muitas vezes as mais fáceis, porque as competências já lá estão, a confiança foi construída, e a empresa já conhece a cara e o ritmo.

Não é glamoroso, mas paga a conta da eletricidade e deixa as sextas-feiras livres.

Depois há quem tente reinventar-se do zero. Inscrevem-se em plataformas de apoio ao domicílio para babysitting ou explicações. Vendem artesanato em feiras. Conduzem para apps de transporte durante o dia enquanto outros dormem. O risco é aceitar tudo, dizer que sim a cada pedido por medo, e acabar a trabalhar mais aos 70 do que aos 50. O cansaço é sorrateiro, e também o sentimento de “nunca fazer o suficiente”.

Sejamos honestos: ninguém lê mesmo todas as linhas daqueles contratos em letra miúda quando o frigorífico está quase vazio.

“Chamem-nos cumulantes, se quiserem”, suspira Danièle, 73 anos, que trabalha como rececionista num consultório médico, “mas somos sobretudo pessoas que se recusam a afundar. A minha pensão é 1.050 €. A renda é 680 €. Façam as contas. Trabalhar mantém-me à tona, e mantém-me orgulhosa.”
Para ela, o trabalho também significa colegas, conversas, aniversários, e algo para dizer quando perguntam: “Então, o que faz?”
Parar por completo seria como desaparecer, admite.

  • Pequenos trabalhos regulares (3–4 manhãs por semana) ajudam mais do que missões raras e esgotantes.
  • Conhecer os seus limites (peso a carregar, horas em pé) não é fraqueza, é estratégia.
  • Misturar trabalho pago com pequenos prazeres (um café semanal, um hobby) evita viver apenas em “modo sobrevivência”.
  • Falar abertamente sobre dinheiro com a família reduz a vergonha e evita burnout silencioso.
  • Verificar os apoios sociais disponíveis por vezes traz tanto como um mini-trabalho extra.

Entre a resistência e a reinvenção: o que isto diz sobre todos nós

O aumento dos “cumulantes” não é apenas um número em relatórios económicos. É um espelho das nossas sociedades, das nossas políticas, dos nossos pontos cegos. Os seniores que trabalham depois da reforma são muitas vezes descritos com palavras polidas como “envelhecimento ativo” ou “economia prateada”. Muitos deles usariam um vocabulário mais direto na caixa do supermercado. Ao mesmo tempo, há ali uma força real e inesperada. Pessoas que se recusam a desaparecer; que continuam a aprender novos softwares de caixas registadoras; que pegam em smartphones para fazer clock-in em apps de escalas; que enfrentam autocarros noturnos para chegar a zonas industriais.

Há uma coragem silenciosa nessas madrugadas e nesses regressos tardios.

À sua volta, as famílias navegam emoções desconfortáveis. Filhos adultos sentem culpa quando veem os pais ainda a trabalhar, mas eles próprios também lutam com rendas e empréstimos. Os empregadores oscilam entre uma apreciação genuína e a tentação de mão-de-obra barata e flexível. Colegas mais novos olham por vezes para estes trabalhadores de cabelo grisalho como uma versão futura de si mesmos que preferiam não imaginar.

Todos já passámos por esse momento em que percebemos que os “anos dourados” prometidos na publicidade não combinam com as caras na fila da loja de descontos.

Esta tendência de vida crescente entre os seniores não tem uma solução pronta. Levanta perguntas que não cabem em slogans políticos arrumadinhos. O que é uma pensão digna num mundo onde o preço de um cabaz básico dispara? Como valorizamos a experiência sem esgotar quem já deu quarenta anos ao sistema? E, mais fundo, o que significa “parar” de trabalhar quando identidade, relações e dignidade estão tantas vezes ligadas ao que fazemos?

Os cumulantes não vão desaparecer de um dia para o outro.
Estão, em silêncio, a desenhar o mapa das nossas próprias escolhas futuras.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Trabalhar após a reforma está a tornar-se comum Mais seniores acumulam pensão e trabalho pago, desde antigas profissões a pequenos serviços Ajuda os leitores a perceber que não estão sozinhos e que esta tendência é generalizada
O equilíbrio importa mais do que as horas Trabalhos a tempo parcial e regulares protegem a saúde melhor do que missões esporádicas e intensas Dá ideias concretas para estruturar a vida laboral sem colapsar de exaustão
Falar sobre dinheiro reduz a vergonha Conversas abertas com a família e verificação de apoios disponíveis podem aliviar a pressão Incentiva os leitores a procurar apoio em vez de carregar tudo em silêncio

FAQ:

  • Pergunta 1 Posso trabalhar e receber a minha pensão completa ao mesmo tempo?
  • Pergunta 2 Que tipos de trabalho são mais acessíveis para seniores que querem ou precisam de trabalhar?
  • Pergunta 3 Como posso evitar ser explorado(a) quando aceito trabalho depois da reforma?
  • Pergunta 4 Vale a pena requalificar-me ou aprender novas competências aos 65 ou 70?
  • Pergunta 5 Como falo com a minha família sobre o facto de estar a trabalhar porque a minha pensão não chega?

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