Aquele dia, vi um homem com quase setenta anos ficar tranquilamente numa fila de supermercado enquanto o terminal de pagamentos avariava, a caixa entrava em pânico e três pessoas atrás dele resmungavam sobre “perder tempo”. Ele limitou-se a sorrir, a mudar o peso de uma perna para a outra, e a esperar. Sem telemóvel, sem suspiros, sem revirar os olhos. Quando o sistema finalmente reiniciou, brincou: “Cresci nos anos 70, isto não é nada”, e a tensão dissolveu-se.
A caminho de casa, percebi com que frequência as pessoas nascidas nos anos 60 e 70 carregam um tipo de força mental silenciosa, quase invisível.
Sem frases no Instagram, sem mantras em canecas. Apenas hábitos esculpidos por uma infância diferente.
Os psicólogos estão a começar a dar um nome a esses hábitos.
E, depois de os veres, já não consegues deixar de os ver.
1. Conforto com o tédio num mundo hiperestimulado
As crianças dos anos 60 e 70 passavam longos períodos de tempo com… nada. Sem streaming, sem scroll infinito, sem notificações. Só um quintal, alguns amigos do bairro, uma bicicleta com travões a chiar e, talvez, três canais de televisão se a antena colaborasse. O cérebro delas aprendeu a tolerar a lentidão. A divagar. A inventar.
Essa tolerância ao tédio é um músculo mental.
Os psicólogos chamam-lhe “resiliência a baixa estimulação”: a capacidade de permanecer presente quando não está a acontecer nada de excitante.
Hoje, isso é quase exótico.
Pergunta a alguém que cresceu nessa altura sobre um domingo chuvoso. Muitos contam a mesma história. Horas deitados no tapete, a seguir padrões no tecto. A reler a mesma banda desenhada pela quinta vez. A inventar mundos inteiros com uma única figura de plástico.
Ninguém corria a “entretenê-los”. Os pais cozinhavam, arranjavam coisas, trabalhavam, ou simplesmente diziam: “Vai brincar.”
Ninguém verificava se estavam “aborrecidos”.
Esta ausência de resgate constante ensinou-lhes que o tédio não era uma emergência.
Era um ponto de partida.
Os estudos psicológicos ligam isto a melhor tolerância à frustração, foco mais profundo e resolução criativa de problemas. Quando cresces à espera do teu programa favorito a uma hora fixa, não desmoronas porque um download demora três minutos.
Essa paciência transforma-se numa força escondida no trabalho e nas relações. As pessoas que conseguem estar com “nada a acontecer” têm menos probabilidade de se auto-sabotar só para sentir um pico de adrenalina. Não confundem paz com vazio.
Num mundo optimizado para matar o tédio a cada segundo, isso parece quase um superpoder.
2. Resiliência no mundo real de infâncias “desenrasca-te”
Se falares com alguém criado nos anos 60 ou 70 sobre a infância, ouves frequentemente os mesmos verbos: caminhou, arranjou, ajudou, tentou, falhou. Iam para a escola sozinhos. Consertavam os pneus furados. Ajudavam irmãos mais novos. Tentavam coisas sem tutorial no YouTube. Falhavam sem uma rede de segurança de frases motivacionais.
Essa era tinha muitos problemas, mas também forçou um tipo de resiliência prática, com as mãos na massa.
As crianças aprendiam cedo que ninguém vinha resolver todas as dificuldades por elas.
Tinham de experimentar até encontrar saída.
Um psicólogo que entrevistei contou-me uma vez sobre um cliente nascido em 1972. Em criança, os pais deixavam-lhe um bilhete em cima da mesa: “Jantar no forno. Não te esqueças de dar comida ao cão.” Era isto. Sem instruções detalhadas.
Um dia, o forno avariou. Ele tinha 11 anos. Verificou a ficha, o fusível e depois pediu ajuda ao vizinho. O jantar foi salvo. Os pais não o trataram como herói. Apenas: “Bom trabalho por teres resolvido.” Hoje, já nos cinquenta, gere uma pequena empresa. Quando algo falha, o primeiro reflexo dele continua a ser: “Ok, o que é que posso tentar?”, e não “Quem é que eu posso culpar?”
Esse reflexo treinou-se à mesa da cozinha.
A psicologia chama a isto “autoeficácia”: a crença de que consegues influenciar a tua própria realidade. Pessoas que cresceram antes da era das avaliações instantâneas e das apps passo a passo tiveram de construir isso da forma difícil.
Erravam sem plateia. Aprendiam a partir de coisas que se partiam, não a ver outras pessoas fazerem tudo perfeito online.
Esse processo confuso e analógico de tentativa e erro construiu uma confiança profunda na própria capacidade de desenrascar.
Sejamos honestos: quase ninguém vive assim todos os dias agora.
Talvez por isso este tipo de resiliência silenciosa pareça rara - e incrivelmente valiosa - hoje.
3. Distância emocional da comparação constante
Em 1978 não havia Instagram. Nenhum algoritmo a empurrar vidas perfeitamente curadas para a cara de um adolescente às 7 da manhã de uma segunda-feira. A comparação existia, claro, mas vivia na rua, na sala de aula, no baile da escola. Comparavas a tua vida com as pessoas que realmente vias.
Este raio limitado poupou muitas crianças ao tipo de comparação global, 24/7, que hoje corrói a auto-estima.
Ainda sentiam inveja e insegurança, mas isso tinha contornos, fronteiras.
O sistema nervoso não ficava mergulhado nisso.
Imagina um adolescente de 16 anos em 1975, a folhear uma revista de música. Podia admirar o cantor da capa, talvez sonhar um pouco. Depois fechava as páginas e ia ter com amigos ao café da zona. Ninguém publicava “corpos de praia” em tempo real. Ninguém contava “likes”.
Quando os psicólogos estudam pessoas que se tornaram adultas nessa época, encontram muitas vezes uma bússola interna um pouco mais estável. Não é confiança perfeita, mas há menos micro-golpes de “estou atrasado” sempre que abrem um ecrã. Uma mulher nascida em 1963 disse-me: “Comparávamo-nos com umas 20 pessoas, no máximo. Agora a minha filha compara-se com o planeta inteiro antes do pequeno-almoço.”
Esse peso acumula.
Do ponto de vista psicológico, esta comparação limitada construiu uma base mais forte de auto-aceitação. Adultos dessa era mostram frequentemente o que os investigadores chamam “auto-conceito estável”: uma noção de quem são que não oscila violentamente com cada tendência.
Isto não significa que sejam imunes à dúvida. Significa que têm menos tendência para ancorar o seu valor na opinião de desconhecidos. Num tempo em que a validação está a um toque, essa distância interior parece uma armadura.
E é uma armadura que muitos adultos mais jovens estão agora, conscientemente, a tentar reconstruir.
Como recuperar estas forças dos anos 60–70 no mundo de hoje
Não precisas de ter crescido nos anos 60 ou 70 para beneficiares das suas forças mentais. Podes fazer engenharia inversa a algumas dessas condições, mesmo numa vida hiper-digital. Começa pequeno.
Escolhe um momento por dia para ser “à antiga”. Sem telemóvel enquanto esperas. Sem podcast enquanto lavas a loiça. Só tu e a tarefa.
Vai parecer estranho. O teu cérebro vai “comichar”. É o músculo do tédio a acordar.
Fica nisso um pouco mais do que é confortável.
Outro truque concreto: reintroduz a resolução de problemas analógica. Da próxima vez que algo pequeno avariar em casa, tenta diagnosticar tu próprio antes de ires ao Google. Abre o manual. Pergunta a um vizinho. Dá-te dez minutos de tempo “desenrasca-te”.
Se és pai ou mãe, resiste ao impulso de resgatar de imediato. Não em emergências, claro, mas nesses pequenos atritos do dia a dia: equipamento de ginástica esquecido, lápis desaparecido, pequena zanga. Pergunta: “O que achas que podias tentar?” em vez de entrares logo em cena.
Não estás a ser frio. Estás a dar-lhes o mesmo treino mental que muitas crianças dos anos 60–70 recebiam por defeito.
Também há valor em encolher o teu círculo de comparação. Deixa de seguir contas que te provocam aquele nó silencioso e familiar no estômago. Curadoria de um feed que pareça uma vizinhança, não uma arena sem fim.
A psicóloga Dr. Jean Twenge resume assim: “Cada geração é moldada pela sua tecnologia. Os anos 60 e 70 produziram pessoas que conseguiam tolerar a lentidão. Se queremos isso de volta, temos de reintroduzir a lentidão de propósito.”
- Agenda “bolsas offline” em que nenhum dispositivo é permitido, nem que sejam dez minutos.
- Deixa pequenos desconfortos durarem tempo suficiente para praticares resiliência, em vez de os apagares instantaneamente.
- Fala com alguém que tenha crescido nessa altura e pergunta sobre os seus momentos de “nada”. Usa essas histórias como um guia silencioso.
9 forças mentais raras que muitas crianças dos anos 60–70 ainda carregam hoje
Quando começas a mapear a psicologia, vês um padrão. Crescer com telefones de disco, mapas em papel e pais que não estavam constantemente a vigiar criou uma psicologia que colide com as infâncias ultra-geridas e ultra-digitais de hoje.
Muitas pessoas dessa era partilham nove forças invisíveis:
Uma maior tolerância ao tédio.
Uma crença mais robusta de que “eu consigo resolver isto”.
Menos dependência de validação instantânea.
Melhor separação entre vida pública e vida privada.
A capacidade de esperar sem se desmoronar por dentro.
Mais conforto com a imperfeição e o “chega bem”.
Um sentido de identidade mais enraizado, não totalmente subcontratado às tendências.
O hábito de resolver conflitos cara a cara, não apenas através de ecrãs.
E um tipo de optimismo silencioso: os problemas são irritantes, não apocalípticos.
Estas forças não são genéticas. Vieram do contexto, das rotinas e de um ritmo mais lento que obrigava o cérebro a crescer em certas direcções. Essa é a parte esperançosa: o contexto pode ser recriado, em pequenas doses.
Talvez não tragas de volta os anos 70, mas podes trazer de volta a resolução de problemas à mesa da cozinha, a tarde sem rumo, o círculo de comparação limitado. Podes escolher, de propósito, parte do que as gerações mais velhas tiveram por acaso.
Estamos todos a navegar um mundo que se move mais depressa do que o nosso sistema nervoso.
Talvez os que aprenderam a andar um pouco mais devagar tenham algo precioso para ensinar.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Tolerância ao tédio | Crescer com menos distrações construiu conforto com “nada a acontecer”. | Reduz a ansiedade, aumenta o foco e ajuda a resistir à estimulação digital constante. |
| Autoeficácia | Infâncias de “desenrasca-te” treinaram a resolução prática de problemas. | Dá mais confiança para lidar com desafios do dia a dia sem bloquear. |
| Comparação limitada | Círculos sociais mais pequenos suavizavam o impacto da comparação. | Protege a auto-estima e incentiva um sentido de identidade mais estável. |
FAQ:
- Pergunta 1 Que forças psicológicas específicas são mais comuns em pessoas que cresceram nos anos 60 e 70?
Os investigadores destacam frequentemente resiliência, tolerância ao tédio, competências sociais presenciais e autoeficácia mais forte. Muitos também mostram maior distância emocional da comparação online, porque construíram a identidade antes da internet.- Pergunta 2 Isto não é apenas nostalgia pelo passado?
Há alguma nostalgia, sem dúvida, mas as forças aqui descritas são apoiadas por investigação em psicologia geracional. Não significa que o passado fosse “melhor” no geral, apenas que certas condições produziram competências que hoje parecem raras.- Pergunta 3 As gerações mais novas conseguem desenvolver as mesmas forças mentais?
Sim. Embora o contexto seja diferente, forças semelhantes podem ser construídas intencionalmente: mais tempo offline, brincadeira não estruturada e deixar que pequenos problemas sejam resolvidos sem ajuda digital imediata.- Pergunta 4 Com que é que as pessoas dos anos 60 e 70 têm dificuldade no mundo actual?
Muitos relatam sobrecarga digital, dificuldade em adaptar-se a mudanças constantes no trabalho e cansaço de estar sempre “contactável”. As suas forças podem colidir com expectativas de resposta imediata.- Pergunta 5 Como podem as famílias juntar o melhor das duas épocas?
Mantendo tecnologia útil, mas reintroduzindo momentos lentos: refeições partilhadas sem ecrãs, caminhar ou andar de bicicleta em vez de conduzir sempre, e encorajar as crianças a tentar resolver as coisas sozinhas antes de os adultos intervirem.
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