Saltar para o conteúdo

Se cresceste nas décadas de 60 e 70, provavelmente aprendeste lições de vida que hoje raramente se ensinam.

Criança segura garrafa de bebida, enquanto outra anda de bicicleta. Pessoas conversam numa rua residencial ao fundo.

Para quem passou a infância nas décadas de 1960 e 1970, a vida quotidiana tinha um lado mais duro, mas também um conjunto de lições silenciosas e sólidas. Muitos desses hábitos e valores foram, desde então, ficando fora de moda, substituídos pela conveniência, pela velocidade e pela ligação constante. Ainda assim, continuam a moldar a forma como milhões de pais - e agora avós - olham para o mundo de hoje.

Um tipo diferente de infância

Crescer nos anos 60 e 70 significava menos redes de segurança e muito menos atalhos. Os pais trabalhavam longas horas. As crianças iam a pé para a escola. Se querias alguma coisa, esperavas, poupavas ou simplesmente ficavas sem ela. Essa época estava longe de ser romântica - havia greves, inflação e tensão social -, mas criou uma maneira específica de encarar a vida.

As pessoas que chegaram à idade adulta nos anos 60 e 70 trazem muitas vezes uma caixa de ferramentas de competências de vida robustas: paciência, poupança, resistência e um forte sentido de “nós”.

Essas ferramentas não eram ensinadas através de TED talks ou slogans de coaching. Eram aprendidas em cozinhas, em estaleiros de obra, em autocarros cheios e em recreios barulhentos. Hoje, muitas dessas lições estão a desaparecer, mesmo quando os problemas a que respondem - ansiedade, solidão, fragilidade da atenção - se tornam mais visíveis.

O valor do trabalho árduo

Em muitas famílias ocidentais dessa época, esperava-se que as crianças contribuíssem. Podia ser distribuir jornais, arrumar prateleiras na loja do bairro ou tomar conta dos irmãos mais novos. Os trabalhos eram muitas vezes aborrecidos e físicos, e o salário era modesto.

Mas esses turnos depois da escola ou nas manhãs de sábado ensinavam uma regra simples: primeiro vem o esforço, a recompensa vem mais tarde.

Para a geração dos anos 60 e 70, o trabalho árduo não era uma hashtag. Era uma necessidade, e o respeito ganhava-se, não se “construía marca”.

Os psicólogos associam hoje este tipo de esforço constante à grit - a capacidade de persistir em objetivos de longo prazo. Estudos sugerem que jovens que aprendem a aguentar tarefas aborrecidas ou difíceis lidam melhor com contratempos na vida adulta. Essa lição de “fogo lento” é difícil de transmitir numa cultura habituada a entregas no dia seguinte e a feedback instantâneo.

Desfrutar de prazeres simples

Pergunta a alguém que cresceu nesse período do que se lembra, e raramente começa por brinquedos caros. Em vez disso, fala-se de longas noites de verão na rua, futeboladas improvisadas, esconderijos feitos em casa, ou de todos à volta da única televisão da família.

  • Andar de bicicleta até acenderem as luzes da rua
  • Trocar bandas desenhadas ou discos com amigos
  • Jogos de tabuleiro que duravam a tarde toda de domingo
  • Bolos de aniversário caseiros em vez de grandes festas em espaços alugados

Essas experiências não pareciam especiais na altura. Eram apenas a vida. Ainda assim, reforçavam discretamente a ideia de que a alegria nem sempre vem com talão ou pilhas.

Muitos dos que cresceram nos anos 60 e 70 ainda medem a felicidade menos pelo que têm e mais por quem têm por perto.

Os economistas falam hoje de “adaptação hedónica”: as pessoas habituam-se rapidamente a novas posses e depois querem mais. O hábito mais antigo de encontrar satisfação em pequenos rituais repetidos - uma refeição partilhada, um passeio, uma conversa à porta - funciona como contrapeso a essa fome constante de mais.

O poder da comunidade

Os anos 60 e 70 foram também décadas de protestos, marchas e movimentos sociais. Dos direitos civis às campanhas anti-guerra e à libertação das mulheres, a política de rua era visível, confusa e ruidosa. Mesmo fora das grandes cidades, sentia-se o apelo da ação coletiva através de sindicatos, igrejas, clubes locais e redes de vizinhança.

Comunidade não era um slogan num site de empresa; era o vizinho com uma chave suplente e a rua que tomava conta dos teus filhos.

Para muitos, as portas ficavam destrancadas. Sabias quem vivia três casas abaixo. As dificuldades partilhadas - de apagões a encerramentos de fábricas - tornavam a cooperação prática tanto quanto moral. Os sociólogos alertam agora que este tipo de “capital social” enfraqueceu, substituído por estilos de vida mais individualistas e ligações apenas digitais.

A arte de esperar

Antes do streaming e das redes sociais, a espera fazia parte de quase tudo. Esperava-se pelo autocarro, pela revelação das fotografias, pela chegada de cartas, pela música favorita na rádio. Se perdias um programa de televisão, perdias mesmo.

Essa experiência diária moldava expectativas. Nem tudo podia ser rápido, e nem tudo precisava de o ser.

A paciência era menos uma virtude e mais uma configuração normal. A frustração existia, mas também uma aceitação tranquila de que algumas coisas levam tempo.

Curiosamente, a investigação moderna sobre autocontrolo infantil sugere que a capacidade de adiar a gratificação não colapsou tanto como a nostalgia implica. Ainda assim, adultos criados em ritmos mais lentos muitas vezes sentem-se desenquadrados numa cultura que trata qualquer atraso como um problema a resolver com uma aplicação.

Tempo em família que não era agendado

Em muitas casas, as noites e os fins de semana giravam em torno da família por defeito. Havia menos atividades extracurriculares, menos ecrãs e menos pressão para estar sempre ocupado. O resultado era muita convivência não estruturada, por vezes caótica.

O jantar à mesa dava às crianças uma oportunidade diária de falar - ou discutir - com adultos. As visitas de domingo aos avós eram rotina, não um evento especial. Os irmãos eram companheiros e, por vezes, rivais que não se podiam bloquear nem silenciar.

Quem cresceu nos anos 60 e 70 descreve muitas vezes os momentos em família não como perfeitos, mas como constantes - um ritmo de fundo que mantinha tudo junto.

Estudos atuais relacionam refeições familiares regulares com melhor saúde mental, maior literacia e menos comportamentos de risco na adolescência. Aquilo que as gerações mais velhas viam como normal pode ter sido um dos hábitos mais protetores da sua juventude.

Aprender resiliência da forma difícil

Os anos 60 e 70 estiveram longe de ser décadas gentis. Crises do petróleo, desemprego, escândalos políticos e conflitos culturais infiltravam-se no dia a dia. Muitas famílias viviam financeiramente no limite. Férias no estrangeiro eram raras. Os luxos eram adiados ou nunca chegavam.

Ainda assim, essas pressões forçavam uma espécie de criatividade: desenrascar, reparar em vez de substituir, apoiar-se na família alargada em tempos difíceis.

A resiliência, para essa geração, significava muitas vezes adaptar-se sem alarido - “seguir em frente” quando as coisas corriam mal.

Os psicólogos descrevem hoje a resiliência como uma mistura de força interior e apoio exterior. O modelo antigo tinha ambos: expectativas exigentes em casa, mas também vizinhos, familiares e instituições locais que intervinham quando surgiam crises. Essa combinação é mais difícil de recriar quando as pessoas se sentem simultaneamente mais isoladas e mais pressionadas financeiramente.

Respeito pela natureza e pelo ar livre

Outra diferença marcante está na forma como as crianças contactavam com o mundo natural. Para muitos nos anos 60 e 70, campos, parques, ribeiros e terrenos baldios eram parques de diversões diários. Sujavas-te. Caias das árvores. Voltavas para casa só quando te chamavam - ou quando tinhas fome.

Essas horas ao ar livre construíam não só memórias fortes, mas também a sensação de que os seres humanos fazem parte de uma paisagem maior, e não apenas utilizadores dela.

A geração criada ao ar livre sente muitas vezes um choque mais forte quando vê desaparecer espaços verdes ou diminuir a vida selvagem.

Hoje, pediatras alertam para um “défice de natureza” em crianças que raramente brincam fora de casa. Há evidência que liga o tempo ao ar livre a melhor atenção, imunidade mais forte e menos stress. A infância antes normal de vaguear lá fora parece agora uma espécie de intervenção de saúde de baixa tecnologia.

Autenticidade antes dos filtros

Os anos 60 e 70 trouxeram também um auge de expressão pessoal: cabelo comprido, roupa arrojada, música de protesto e o questionamento de papéis sociais rígidos. Não era possível editar uma Polaroid ou reescrever cada frase; dizias as coisas, às vezes mal, e vivias com isso.

Isso não significa que a vida estivesse livre de julgamento, especialmente para mulheres, minorias ou pessoas LGBTQ+. Ainda assim, para muitos, essas décadas abriram um caminho para viver mais perto dos próprios valores, mesmo que isso significasse entrar em conflito com pais, patrões ou os media.

Autenticidade, então, significava tentar alinhar a tua vida com aquilo em que acreditavas, não construir uma versão impecável de ti para estranhos.

A autoapresentação constante online pode hoje esbater a linha entre performance e realidade. Gerações mais velhas sentem frequentemente desconforto ao ver adolescentes obcecados com likes e filtros, porque se lembram de um tempo em que a vergonha era local, não global, e a identidade parecia menos uma emissão permanente.

O que estas lições podem significar hoje

Recriar os anos 60 e 70 não é possível nem desejável. Poucas pessoas querem o regresso ao sexismo casual, aos autocarros cheios de fumo ou a três canais de televisão. Mas certos hábitos dessa época podem ser surpreendentemente fáceis de adaptar.

As famílias podem, por exemplo, “roubar” duas ou três ideias sem virar a vida do avesso:

  • Definir uma ou duas noites por semana com poucos ecrãs e mais conversa.
  • Dar às crianças pequenas tarefas regulares ligadas à vida familiar, e não apenas à mesada.
  • Planear alegrias simples - um parque, um jogo de tabuleiro, uma ida barata ao cinema - e tratá-las como eventos a sério.

Numa escala mais ampla, urbanistas e autarquias que investem em parques, bibliotecas e ruas seguras estão, na prática, a reconstruir alguma da comunidade e da liberdade ao ar livre que gerações anteriores tomavam por garantidas. Pequenas políticas, como apoiar clubes juvenis ou projetos intergeracionais, podem reavivar esse sentido de responsabilidade partilhada que outrora atravessava muitos bairros.

Para os indivíduos, há ainda uma lição mais privada. Pessoas que aprenderam paciência, poupança e resiliência em crianças recorrem muitas vezes a essas competências décadas depois, ao enfrentar doença, ao cuidar de pais envelhecidos ou ao lidar com a perda de emprego. Essas características não apagam a dificuldade, mas mudam a narrativa de crise pura para desafio.

A geração que cresceu entre calças à boca de sino, canções de protesto e telefones de disco não teve uma educação perfeita. Ainda assim, muitas das lições silenciosas que absorveu - sobre esforço, tempo, família, comunidade, natureza e honestidade sobre quem se é - continuam a falar com nitidez a uma época rápida, distraída e ansiosa.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário