Behind closed doors in the German Chancellery, officials are weighing whether to stay the course with France and Spain on the FCAS programme, or pivot toward GCAP alongside the UK, Italy and Japan. The choice will shape the Luftwaffe’s power in the 2040s, redefine Europe’s defence industry, and send a clear signal about where Berlin sees its future strategic partners.
O problema do calendário da Alemanha: o tempo está a começar a apertar
Durante anos, a Alemanha pôde dar-se ao luxo de manter ambiguidade estratégica quanto ao seu futuro caça. Essa fase está a terminar. Os atuais Eurofighter Typhoon e Tornado da Luftwaffe enfrentarão obsolescência por volta do horizonte 2040–2050. Conceber, testar e colocar em serviço uma aeronave de sexta geração demora, tipicamente, mais de 15 anos, uma vez que um programa esteja verdadeiramente estabilizado.
O FCAS (Future Combat Air System) - centrado no New Generation Fighter (NGF) liderado por França - entrou numa crise prolongada. Disputas sobre quem lidera que “pilar” industrial, como partilhar tecnologias sensíveis e quando a aeronave estará operacional têm travado o ímpeto. A França continua, publicamente, a apontar para um NGF por volta de 2045. Para Berlim, essa data já parece apertada.
A liderança alemã enfrenta agora uma janela estreita: decidir em breve ou arriscar uma lacuna de capacidades na Luftwaffe, precisamente quando as ameaças aumentam e os rivais avançam mais depressa.
O simples facto de a Alemanha estar a avaliar seriamente o GCAP - confirmado por responsáveis italianos e pela imprensa estrangeira - mostra até que ponto a confiança no calendário do FCAS se degradou. Os defensores do GCAP em Berlim argumentam que aderir a um projeto com marcos mais claros pode ser a única forma de assegurar a tempo um sistema moderno de combate aéreo.
O que está em jogo: mais do que um caça
A decisão não é apenas sobre uma aeronave. Toca na soberania, na sobrevivência industrial e no equilíbrio estratégico europeu.
- Capacidade militar: garantir um caça de topo e uma combat cloud para a Luftwaffe nos anos 2040.
- Futuro industrial: preservar o know-how aeroespacial e empregos em Hamburgo, Baviera e Renânia do Norte‑Vestefália.
- Política europeia: reforçar ou ferir a já delicada parceria franco-alemã.
- Perspetivas de exportação: assegurar acesso a mercados globais e evitar vetos estrangeiros pesados nas vendas.
A escolha de Berlim irá ou consolidar um programa europeu emblemático, ou dividir o continente em duas famílias rivais de caças de sexta geração, ambas fortemente dependentes de tecnologias dos EUA e asiáticas.
Opção um: ficar e reformular o FCAS
De mega‑projeto único para “sistema de sistemas”
Um cenário que ganha tração em Berlim não passa por abandonar o FCAS, mas por remodelá-lo. Em vez de um programa monolítico em que França, Alemanha e Espanha co-desenvolvem tudo - do caça a drones, sensores e armamento - alguns na Alemanha propõem transformar o FCAS num “programa de programas” mais flexível.
Com esta abordagem, a França poderia manter a liderança da célula do NGF com a Dassault Aviation, enquanto a Alemanha e a Espanha liderariam outras áreas: “remote carriers” não tripulados, a combat cloud, guerra eletrónica, ou determinados sensores e efetores.
Transformar o FCAS numa arquitetura modular poderia aliviar tensões políticas: cada país asseguraria papéis de liderança visíveis, mantendo ainda assim o objetivo de um ecossistema de combate partilhado.
Isto daria à Alemanha mais espaço para os seus campeões - Airbus Defence and Space, Hensoldt, MTU e outros - moldarem segmentos relevantes. Também poderia permitir que subprojetos nacionais avançassem a ritmos diferentes, em vez de ficarem reféns de uma única negociação colossal de repartição de trabalho.
Os pontos de fricção por resolver
Mesmo com esta transformação, permanecem linhas de falha:
- Acesso a tecnologia: Berlim quer acesso total a know-how sensível, sobretudo em controlos de voo, sistemas de missão e furtividade. Paris insiste em proteger décadas de conhecimento soberano associado ao Rafale e aos seus sucessores.
- Política de exportação: as restrições alemãs à exportação já complicaram programas conjuntos com França, incluindo em sistemas terrestres. Paris receia que o seu futuro caça seja bloqueado em mercados-chave.
- Calendários: o objetivo de 2045 para o NGF é visto na Alemanha como otimista, dadas as atuais demoras, disputas de desenho e incertezas orçamentais.
Para o governo alemão, permanecer no FCAS sem alterações significativas arrisca significar pagar milhares de milhões por um projeto que pode chegar tarde e oferecer controlo limitado sobre tecnologias críticas.
Opção dois: virar para o GCAP
Porque é que o GCAP atrai atenção em Berlim
O GCAP (Global Combat Air Programme), impulsionado pelo Reino Unido, Itália e Japão, apresenta-se como um caminho mais rápido e pragmático. Londres e Roma promovem o GCAP como uma parceria genuína entre nações industriais avançadas, assente na experiência com o Typhoon e o F‑35. O Japão traz fortes capacidades em eletrónica e engenharia de sistemas.
Da perspetiva de Berlim, destacam-se vários pontos:
| Aspeto | FCAS | GCAP |
|---|---|---|
| Nações líderes | França, Alemanha, Espanha | Reino Unido, Itália, Japão |
| Calendário percecionado | NGF por volta de 2045 | Maior impulso político para início dos anos 2040 |
| Liderança industrial | Liderança francesa da célula é contestada | Possível novo papel para a indústria alemã se aderir |
| Cultura de exportação | Compromissos franco‑alemães difíceis | Historial anglo‑italiano de exportações alargadas |
Os apoiantes em Berlim defendem que a Alemanha poderia assegurar papéis fortes em aviônicos, sistemas de missão e possivelmente uma linha europeia de montagem do GCAP. Veem também benefícios políticos: laços mais estreitos com o Reino Unido no pós‑Brexit, reforço de relações com a Itália e uma ponte para o Japão, parceiro-chave do Indo‑Pacífico no G7.
Os riscos políticos e industriais
Uma aproximação ao GCAP traria um pesado lastro. Paris interpretá-la-ia como um golpe direto na cooperação franco‑alemã em defesa, já sob tensão devido a disputas sobre carros de combate, artilharia e mísseis. A ideia de um “pilar europeu” comum na NATO sairia fragilizada.
As empresas alemãs também não têm garantido um papel central no GCAP. A britânica BAE Systems, a italiana Leonardo e a japonesa Mitsubishi Heavy Industries já repartiram entre si grandes parcelas. A Alemanha chegaria tarde, com alavancagem limitada, a menos que trouxesse financiamento substancial e garantias políticas.
Aderir ao GCAP pode dar a Berlim um projeto de caça mais previsível, à custa de tensões profundas com França e de entrar num clube industrial já muito concorrido.
Uma possível terceira via: separar a aeronave do ecossistema
Alguns responsáveis alemães testam discretamente um cenário híbrido: manter a cooperação com França em partes do ecossistema FCAS - drones, combat cloud, armamento e certos sensores - enquanto selecionam uma plataforma de caça tripulado diferente, seja via GCAP, seja através de um Eurofighter melhorado ou de uma via F‑35.
Com esta abordagem, a Alemanha evitaria uma escolha binária “FCAS ou GCAP”. A Luftwaffe poderia assentar numa célula comprovada ou mais célere, enquanto as tecnologias do FCAS ainda alimentariam uma rede europeia comum de combate.
A França não veria isto com bons olhos. Para Paris, o núcleo político e industrial do FCAS é o caça NGF. Mas, do ponto de vista de Berlim, separar a aeronave do sistema mais amplo pode ser a única forma de conciliar a retórica de autonomia estratégica com prazos operacionais e pressões industriais internas.
O jogo europeu mais amplo: normas, exportações e interoperabilidade
Quer a Alemanha permaneça no FCAS, adira ao GCAP ou tente equilibrar ambos, há uma questão fundamental: interoperabilidade. A NATO espera que aeronaves, drones, sensores e armas partilhem dados de forma segura e em tempo real. Os EUA estão a definir muitas das normas através dos seus próprios programas de próxima geração.
Se a Europa acabar por operar dois ecossistemas rivais de sexta geração - FCAS e GCAP - o risco é um mercado fragmentado com normas concorrentes, complicando operações e elevando custos. Berlim quer evitar um cenário em que aeronaves francesas e britânico‑japonesas não consigam comunicar de forma fluida num conflito de alta intensidade.
As exportações são outro parâmetro decisivo. Os defensores de FCAS e de GCAP esperam vender aeronaves muito para além da Europa para amortizar custos de desenvolvimento. Isso implica alinhar regras de exportação entre parceiros, controlar componentes de origem americana e encontrar formas de evitar vetos mútuos que possam bloquear grandes contratos.
O histórico alemão de decisões restritivas de exportação já preocupa tanto franceses como potenciais parceiros do GCAP, que receiam ficar excluídos de mercados lucrativos devido à política interna de Berlim.
Termos e conceitos-chave que vale a pena destrinçar
O que “combat cloud” significa na prática
Muitos destes programas usam o termo “combat cloud”, que pode soar vago. Na prática, refere-se a um ambiente digital seguro que liga, em tempo real, aeronaves, drones, satélites, sistemas terrestres e navios. Dados de sensores são fundidos, analisados por algoritmos e disponibilizados a pilotos ou operadores de forma utilizável.
Para a Alemanha, escolher entre FCAS e GCAP é, em parte, escolher entre duas visões concorrentes dessa espinha dorsal digital. Uma é centrada em normas europeias com forte contributo francês; a outra inclina-se mais para práticas da NATO e de parceiros do Indo‑Pacífico, influenciada pelo Reino Unido e pelo Japão.
Cenário: uma guerra aérea em 2045 sobre a Europa de Leste
Projetar para a frente ajuda a clarificar o que está em jogo. Imagine uma crise no flanco oriental da NATO em 2045. Aeronaves alemãs, francesas, britânicas e italianas são destacadas sob uma estrutura de comando conjunta. Se Berlim tiver apoiado o FCAS, os seus caças poderão partilhar uma rede nativa com NGF franceses e drones espanhóis, oferecendo cooperação estreita, mas talvez integração mais limitada com frotas GCAP.
Se, em vez disso, a Alemanha tiver aderido ao GCAP, os jatos da Luftwaffe poderão operar sem fricção com sistemas de origem britânica, italiana e japonesa, mas enfrentar constrangimentos de partilha de dados com plataformas francesas. Cada desconexão ou solução de contorno nessa cadeia traduz-se em seleção de alvos mais lenta, maior risco de fogo amigo e menor eficiência operacional.
Nesse sentido, a escolha da Alemanha vai muito além da política industrial. Irá moldar quem partilha dados em tempo real com quem na próxima geração de guerras europeias - e que normas dominarão futuras alianças.
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