A primeira vez que os vê, quase semicerras os olhos, como se a visão te estivesse a pregar uma partida. No horizonte, uma linha recortada de rocha clara ergue-se acima das dobras suaves da paisagem aragonesa, toda feita de músculos verticais e arestas afiadas. Por um segundo, o cérebro sussurra: Dolomitas. Aquele tom cremoso do calcário, aquelas paredes a pique, aquele dramatismo improvável. Mas depois olhas para baixo. Não há aldeia italiana, nem chalés do Tirol do Sul, nem teleféricos de ski apinhados. Apenas oliveiras, casas de pedra e a luz seca do interior de Espanha.
O vento cheira a tomilho e poeira. Algures lá em baixo, um sino de igreja toca uma vez, preguiçosamente, como se tivesse todo o tempo do mundo.
Não estás nos Alpes.
Estás em Aragão, a olhar para paredes que sobem 275 metros a direito.
Mallos de Riglos, onde Aragão de repente parece alpino
O lugar tem um nome que soa quase a ficção: Mallos de Riglos. Um conjunto de torres rochosas colossais e cilíndricas que se erguem acima de uma aldeia sonolenta, a cerca de hora e meia de Saragoça. Estão ali como um exército de pedra - salmão-rosado ao nascer do sol, vermelho-ferrugem ao pôr do sol - a cortar o céu em curvas impossíveis.
Vistos de baixo, os paredões de 275 metros parecem menos “paisagem” e mais uma presença física. O pescoço começa a doer só de tentar seguir a linha vertical até ao topo. Aves riscam o ar ao longo das falésias, virando o teu sentido de escala do avesso. Toda a cena parece emprestada de outro país.
Numa manhã de dia de semana, Riglos está meio a dormir. Dois escaladores organizam equipamento na traseira de uma carrinha velha. Um bar abre as portadas, metal a raspar na pedra, e o cheiro a café derrama-se pela rua estreita. Passas por casas pequenas com persianas desbotadas pelo sol e vasos de flores que parecem não ter mudado de sítio há décadas.
Depois viras a esquina, e lá estão eles, a encher-te completamente o campo de visão. Quase jurarias que entraste num vale escondido das Dolomitas onde o GPS enlouqueceu. Um cão local trota ao lado, indiferente, como se paredes verticais de 275 metros fossem o cenário mais normal para um passeio matinal. Esse contraste entre a aldeia comum e a rocha extraordinária é o que te prende.
Do ponto de vista geológico, a semelhança não é apenas uma coincidência de sensação, mas de forma. Tal como as Dolomitas, os Mallos são um monumento à erosão e ao tempo, esculpido em rochas sedimentares que outrora jaziam planas sob rios e mares antigos. Aqui, a pedra é uma mistura de conglomerado e arenito, cheia de seixos arredondados, e foi sendo lentamente talhada nestes dedos gigantes de rocha, à medida que a água e o gelo roíam as camadas mais macias.
Os teus olhos lêem “cordilheira”, mas tecnicamente estás a ver torres resistentes à erosão que ficaram de pé enquanto tudo à volta se desfez. É por isso que parecem demasiado íngremes, demasiado lisas, demasiado abruptas. É o mesmo truque visual que faz as Dolomitas italianas parecerem irreais - só que reencenado sob o sol de Aragão.
Como viver estas “Dolomitas espanholas” sem ficares pendurado numa corda
Não tens de ser escalador para sentires o choque destes paredões. O gesto mais simples costuma ser o melhor: ata os sapatos, enche uma garrafa de água e faz o trilho circular que dá a volta aos Mallos de Riglos. Começa mesmo na aldeia e sobe suavemente ao início, depois mais a sério, até te encontrares quase nariz-com-pedra diante das falésias.
O caminho serpenteia por mato ralo e pedras soltas, passando por miradouros onde a rocha parece fechar-se à tua volta. Alguns troços são poeirentos e inclinados, por isso vais com calma, parando mais vezes do que admitiras se um guia estivesse a olhar. Aqui ninguém quer saber do teu ritmo. A recompensa é a sensação de que o vale vai ficando para trás e as paredes de pedra se tornam o teu horizonte.
A maioria das pessoas chega cheia de expectativas e com pouca preparação. Chinelos, uma garrafinha minúscula de água, sem chapéu - todos já passámos por isso, aquele momento em que uma “caminhada curta” de repente vira uma verdadeira caminhada. O sol em Aragão bate de forma diferente do que nos Alpes: mais direto, com menos sombra. A rocha irradia calor como a porta de um forno gigante.
Por isso, sais cedo de manhã ou ao fim da tarde. Levas mais água do que achas que vais beber. Paras não porque “precisas”, mas porque há um abutre a circular por cima das falésias e a vista sobre o rio Gállego te faz sentir um aperto no estômago. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Podes parar, resmungar baixinho com a inclinação, e ainda assim estar a fazê-lo bem.
Algures ao longo do trilho - normalmente quando estás a recuperar o fôlego - uma voz local no vento parece resumir o lugar por ti.
“As pessoas chegam a pensar que vêm ver pedras”, disse-me um dono de café de Riglos, limpando as mãos ao avental. “Vão-se embora a falar do quão pequenas se sentiram. As paredes têm sempre a mesma altura. O que muda é o que tu levas até elas.”
Depois entra a parte prática, por isso aqui vai uma caixa compacta de coisas que ajudam a prolongar o momento em vez de o transformar numa luta:
- Começa o trilho circular antes das 9h no verão para evitar o pior do calor.
- Usa calçado de trilho, não ténis de cidade - as pedras rolam debaixo dos pés.
- Leva pelo menos 1,5 litros de água por pessoa, mesmo em saídas “curtas”.
- Passa no bar da aldeia antes ou depois da caminhada - a vista da esplanada é irreal.
- Leva binóculos: ver escaladores nas paredes é como ver formigas numa catedral.
Mais do que um sósia: um lugar que fica contigo
Dias depois, a memória de Riglos não regressa como uma cena de montanha perfeita para postal. Volta em fragmentos: a textura áspera da rocha debaixo da mão, o eco de vozes a bater nas paredes, a forma como a aldeia parece encostar-se às falésias como uma criança a apertar-se contra o lado de um pai. Pensas nas Dolomitas, sim, mas também em como é estranho encontrar este tipo de dramatismo vertical escondido numa região que muita gente atravessa apenas a caminho de outro sítio.
A mente gosta de categorias arrumadas - “Alpes aqui, Espanha ali” - e lugares como este rebentam isso silenciosamente. Começas a perguntar-te quantas outras “Dolomitas” se escondem atrás do rótulo genérico de “campo espanhol”, quantas paisagens passamos de carro porque a autoestrada não revela o seu melhor ângulo.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| “Dolomitas” escondidas em Aragão | Os Mallos de Riglos oferecem paredes verticais de 275 m numa pequena aldeia espanhola | Dá-te uma alternativa marcante e menos concorrida ao cenário alpino clássico |
| Experiência acessível | Trilho circular sinalizado e miradouros na aldeia sem competências técnicas | Permite que não-escaladores sintam o impacto total das falésias em segurança |
| Melhor forma de visitar | Saídas cedo ou ao fim do dia, equipamento simples, tempo para ficar pela aldeia | Transforma uma paragem rápida para foto num dia memorável e vivido no corpo |
FAQ:
- Pergunta 1 Onde ficam exatamente estas “Dolomitas espanholas”?
São os Mallos de Riglos, perto da aldeia de Riglos, na província de Huesca, Aragão, a cerca de 45 km a noroeste da cidade de Huesca.- Pergunta 2 Qual é a altura das paredes de rocha?
As paredes mais altas chegam a cerca de 275 metros de altura vertical, com várias torres distintas a formar o maciço.- Pergunta 3 Preciso de experiência de escalada para desfrutar do local?
Não. Há um percurso pedestre circular sinalizado e vários miradouros a partir da aldeia que permitem viver as falésias sem cordas nem equipamento técnico.- Pergunta 4 Qual é a melhor altura do ano para visitar?
A primavera e o outono oferecem temperaturas amenas e vistas limpas. O verão pode ser muito quente durante o dia, por isso o melhor é ir cedo de manhã ou ao fim da tarde.- Pergunta 5 É mesmo comparável às Dolomitas italianas?
Do ponto de vista geológico são diferentes, mas visualmente as faces verticais imponentes, a luz dramática e a aldeia aos pés criam um choque emocional semelhante, com um sabor claramente aragonês.
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