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A EOS Technologie apresenta o Rodeur 330, munição de patrulha com alcance de 500 km.

Drone cinzento em exposição, com pessoa a controlá-lo através de um comando e portátil ao fundo.

Enquanto a Ucrânia, a Rússia e o Irão inundam os céus com drones baratos, uma pequena empresa francesa apresentou uma nova arma que sugere uma abordagem muito diferente aos ataques em profundidade: paciente, precisa e concebida para ser usada em grande número.

O discreto avanço de França na guerra de drones de longo alcance

A França raramente tem feito alarde dos seus programas de ataque não tripulados, mas o trabalho tem vindo a acelerar. Durante um fórum franco‑ucraniano sobre drones, realizado no Palácio do Eliseu no passado fim de semana, a EOS Technologie revelou o Rodeur 330, uma munição vagante de conceção francesa capaz de atingir alvos até 500 km de distância.

O momento não é acidental. Os drones iranianos Shahed e as suas derivações russas Geran transformaram os ataques de saturação numa característica diária do conflito na Ucrânia. Os exércitos procuram freneticamente formas de responder com sistemas que não sejam apenas letais, mas também acessíveis, resilientes e fáceis de produzir em quantidade.

O Rodeur 330 é concebido como uma “munição teleoperada”: uma aeronave sem piloto que pode deambular, esperar pelo momento certo e depois atacar em profundidade atrás das linhas inimigas.

Para Paris, isto faz parte de um movimento mais amplo para dotar as forças de opções de longo alcance que possam ser pagas e substituídas em escala, reservando os mísseis de topo para as missões mais exigentes.

De Veloce 330 a Rodeur 330: um salto evolutivo

O Rodeur 330 não surge do nada. Baseia-se diretamente num esforço anterior, o Veloce 330, desenvolvido no âmbito do programa Larinae da agência francesa de inovação em defesa.

O que o Veloce 330 trouxe para a mesa

O Veloce 330 já está nas mãos das Forças Armadas francesas, com 17 unidades entregues ao Exército, à Marinha e à Força Aérea. Foi concebido como um drone de ataque rápido e compacto para alvos blindados a distâncias mais curtas.

  • Envergadura fixa: 3,30 metros
  • Propulsão: pequena turbina a jato
  • Ogiva: cerca de 2,5 kg, derivada do projétil de artilharia BONUS
  • Velocidade terminal: acima de 400 km/h
  • Alcance efetivo: aproximadamente 100 km contra alvos blindados

Uma característica-chave vem da tecnologia de navegação desenvolvida pela empresa francesa TRAAK. O seu sistema de guiamento é concebido para resistir ao bloqueio de GPS (jamming), uma capacidade crucial à medida que a guerra eletrónica se torna padrão nos campos de batalha modernos. Essa resiliência significa também que o drone pode ser reencaminhado e reutilizado em missões de informações ou vigilância, em vez de ser uma arma de uso único sempre que voa.

O Veloce 330 serviu como prova de conceito: compacto, rápido, difícil de bloquear e capaz de entregar uma ogiva antiblindagem focada a uma distância significativa.

Rodeur 330: trocar velocidade por autonomia

O Rodeur 330 mantém a arquitetura geral do Veloce 330, mas faz algumas trocas arrojadas. A EOS Technologie optou por priorizar autonomia e alcance em detrimento da velocidade pura.

A empresa substitui a turbina a jato por um motor a pistão, mais eficiente em consumo durante longas fases de cruzeiro. A ogiva aumenta para cerca de 4 kg, e o drone é concebido para missões muito mais longas.

Característica Veloce 330 Rodeur 330
Função principal Ataque de curto alcance, alta velocidade Ataque vagante de longo alcance
Alcance ~100 km Até 500 km
Ogiva ~2,5 kg ~4 kg
Velocidade de cruzeiro Alta (terminal 400+ km/h) ~120 km/h
Autonomia Limitada Cerca de 5 horas
Teto Não divulgado Até 5 000 m

Com cerca de cinco horas de voo a aproximadamente 120 km/h e um teto de 5 000 metros, o Rodeur 330 pode descolar muito atrás das linhas amigas, permanecer em espera perto do campo de batalha e aguardar uma oportunidade fugaz: um posto de comando que liga os rádios, uma bateria de defesa antiaérea que se expõe, um centro logístico que de repente se ilumina com atividade.

O conceito é simples: permanecer no céu tempo suficiente para apanhar alvos no momento em que se revelam brevemente e, depois, atacar com precisão a centenas de quilómetros de distância.

De disparos isolados a enxames coordenados

A EOS Technologie também aposta na forma como estas munições são empregues. A empresa afirma que uma única estação terrestre pode controlar até 30 drones Rodeur ao mesmo tempo.

A ideia não é pilotá-los manualmente como aeronaves de hobby. As trajetórias podem ser pré-programadas, com operadores a monitorizar várias rotas, mantendo a capacidade de conduzir a aproximação final e o ataque.

Isto abre a porta a campanhas coordenadas de munições vagantes. Uma brigada poderia, por exemplo, lançar várias unidades Rodeur para patrulhar diferentes corredores e, em seguida, redirecionar várias delas contra um radar exposto para saturar as suas defesas.

Para os planeadores, isto começa a assemelhar-se ao planeamento de fogos de artilharia, mas estendido por várias centenas de quilómetros em vez de dezenas. Exige novo software, novos hábitos e comunicações robustas capazes de sobreviver a bloqueios e ciberataques.

Uma resposta direta a uma doutrina em mudança

O Chefe do Estado-Maior do Exército francês, General Pierre Schill, tem defendido que os mísseis de alta gama, por si só, não são suficientes. Apelou a “efetores rústicos e de baixo custo” que combinem massa com precisão.

A combinação do Veloce 330 e do Rodeur 330 encaixa-se bem nessa visão. Um foca-se em ataques antiblindagem de alta velocidade e menor alcance. O outro oferece caça paciente, de longo alcance, a ativos de elevado valor.

Em conjunto, os dois drones dão às forças francesas um conjunto modular de ferramentas: golpes rápidos a 100 km e pressão medida e persistente até 500 km.

Fontes oficiais francesas e da indústria esperam que parte da experimentação ocorra em ligação com a Ucrânia, onde a intensa atividade de drones russos e iranianos proporciona um ambiente de teste exigente. Sistemas que sobrevivam ali podem ser aperfeiçoados e escalados para uma utilização mais ampla na NATO.

O desafio da NATO: integrar munições teleoperadas de 500 km

Por trás do feito técnico está uma questão operacional espinhosa para o Exército francês e, mais amplamente, para a NATO: como integrar munições teleoperadas de tão longo alcance na doutrina existente ao nível de brigada e corpo de exército?

Ataques em profundidade a 500 km não atingem apenas unidades inimigas perto da linha da frente. Podem ameaçar centrais elétricas, depósitos de combustível, centros nacionais de comando ou portos na retaguarda. Isso obriga ambos os lados a repensar a proteção de infraestruturas críticas em toda a Europa.

Ao nível da Aliança, isto também levanta problemas de coordenação. Uma munição vagante a atravessar discretamente o espaço aéreo de vários países continua a ser uma arma, não um drone de reconhecimento. Os planeadores têm de acordar regras claras sobre rotas de voo, validação de alvos e o risco de escalada caso os ataques atinjam ativos sensíveis.

Termos-chave que moldam o debate

Vários termos técnicos continuam a surgir nas discussões em torno do Rodeur 330 e de sistemas semelhantes:

  • Munição vagante: arma que pode circular ou “pairar” sobre uma área durante algum tempo antes de atacar, combinando características de drones e mísseis guiados.
  • Teleoperado: o drone é controlado ou supervisionado remotamente por operadores humanos, sobretudo na fase final, em vez de seguir um percurso puramente pré-programado.
  • Bloqueio de GPS (GPS jamming): perturbação deliberada dos sinais de navegação por satélite. Armas que dependem apenas do GPS podem ficar “cegas”; sistemas resilientes combinam sensores inerciais, dados de terreno e sinais alternativos.
  • Ataque de saturação: operação que usa muitos sistemas baratos em simultâneo para sobrecarregar as defesas inimigas e forçá-las a gastar interceptores caros.

Compreender estes termos ajuda a clarificar porque é que a França e outros membros da NATO se interessam por opções mais baratas e “rústicas”, que ainda assim conseguem navegar com precisão e ser reutilizadas quando necessário.

Cenários, riscos e potenciais utilizações

Num futuro campo de batalha, uma missão típica do Rodeur poderia desenrolar-se assim: vários drones descolam ao amanhecer, sobem até à altitude e dispersam-se por rotas pré-planeadas. Durante horas, patrulham silenciosamente enquanto os seus operadores observam imagens de satélite e informações de sinais.

Uma bateria de defesa antiaérea ao estilo russo liga-se por breves instantes para se reposicionar. Em segundos, os operadores reatribuem uma ou duas unidades Rodeur, guiando-as nos últimos quilómetros com sensores eletro-ópticos e ligações de dados seguras. A bateria é atingida no momento em que julga estar em segurança. Quaisquer drones sobreviventes podem ser enviados à procura de alvos secundários ou receber ordem para se despenharem em segurança para evitar captura.

Estas capacidades trazem benefícios militares claros, mas também riscos. Ataques teleoperados de longo alcance esbatem as fronteiras tradicionais entre efeitos táticos e estratégicos. Uma identificação deficiente do alvo pode atingir infraestruturas civis. A guerra eletrónica pode tentar sequestrar os drones ou fornecer coordenadas falsas, obrigando os projetistas a investir fortemente em encriptação e salvaguardas de autonomia.

Para os exércitos europeus, o surgimento de sistemas como o Rodeur 330 sugere um futuro em que os ataques em profundidade deixam de ser apanágio de um punhado de mísseis de cruzeiro. Em vez disso, os comandantes poderão apoiar-se em redes de munições relativamente acessíveis, de grande autonomia, que sondam constantemente as fraquezas das defesas inimigas e obrigam os adversários a proteger ativos valiosos longe da linha da frente.

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